Educação e Cultura

1ª reportagem da série “O Desabafo do Professor”

A Gazeta Informativa iniciou na quinta-feira, dia 14 de maio, uma série de reportagem especial, que vai relatar o que os professores de São Mateus do Sul e região, da rede estadual de ensino vivenciaram no confronto com policiais militares em Curitiba, (PR), na tarde do dia 29 de abril, em frente à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), no Centro Cívico, e também vai registrar os desabafos deles sobre os atuais acontecimentos que envolvem a educação no estado do Paraná.

Começaremos a série com o relato de Antônio Segan Cuba, professor de Geografia no Colégio Estadual do Campo Cecília Meireles e Colégio Estadual do Campo Duque de Caxias, da cidade de Antonio Olinto (PR).

Indignado com o que presenciou no dia 29 de abril, Antônio entrou em contato com a Gazeta Informativa, com o objetivo de desabafar e relatar para toda a população o que viu. Confira abaixo o relato:

29 de abril de 2015: um dia para sempre na memória

(Foto: Thaís Siqueira)

O primeiro professor a relatar para o Jornal Gazeta Informativa é Antônio Segan Cuba de Antonio Olinto – PR (Foto: Thaís Siqueira)

Como em um dia normal de trabalho, acordo cedo. Aliás, um pouco mais cedo que de costume. Outro detalhe: aquele dia 29 não seria um dia como os demais, pois depois do banho e do café da manhã, não me dirigiria até o Colégio onde trabalho, nem tão pouco estaria em contato direto com meus colegas e alunos na prazerosa missão de contribuir na construção de conhecimentos.

Aquele dia ficaria marcado para sempre na vida de milhares de Professores (as), alunos (as) e demais funcionários públicos estaduais, bem como da sociedade de modo geral, presentes ou não na Praça Nossa Senhora da Salete, Centro Cívico, em Curitiba.

No início daquela quarta-feira fria, por volta das nove horas chegamos, enfim a capital de nosso Estado. Já eram milhares que se concentravam na Praça 19 de Dezembro, e continuavam chegando caravanas de todas as regiões do Paraná.

Muitas informações vinham do caminhão de som, por parte das lideranças da APP Sindicato, quando uma me chamou a atenção: um grupo de jornalistas, de determinada emissora denunciava publicamente que em reunião, no dia anterior, entre o Sr. Governador e os diretores desta, decidiram proibir qualquer equipe de jornalismo da emissora de cobrir qualquer ato de manifestação naquele dia. Os comentários eram os mesmos: “E a de liberdade de imprensa? Afinal, estamos vivendo em um Estado democrático ou retornamos à Ditadura Militar”?

Pouco antes das dez horas, partimos em marcha em direção a ALEP – Assembleia Legislativa do Paraná. Nos olhares da maioria se via certa ansiedade, insegurança, pois não sabíamos como seríamos recebidos pelos quase dois mil soldados da Polícia Militar, “convocados” especialmente para proteger os mesmos deputados que, em outra ocasião entraram na ALEP dentro de um camburão, serrando as grades para tentar aprovar o mesmo Projeto Lei.

A tensão nos olhares era quebrada à medida que recebíamos o grande apoio da sociedade curitibana: chuva de papel picado caía dos altos edifícios, mensagens de apoio vinham das pessoas nas janelas e de operários da construção civil, aplausos e buzinas nos encorajavam e nos davam a certeza de que a causa era justa e de todos.

Finalmente chegamos ao local onde, horas mais tarde ocorreriam os atos mais covardes e ditatoriais de nossa história. O caminhão de som foi impedido de seguir em frente. O acesso estava obstruído por muitas viaturas e por um ônibus da Polícia Militar. Dos alto-falantes do caminhão éramos orientados repetidamente para mantermos a calma, não provocar, muito menos aceitar provocações, enfim, evitar qualquer tipo de violência.

Ocupamos todas as vias que dão acesso à ALEP. O objetivo era impedir, ou dificultar a entrada dos deputados para a Sessão, que aconteceria logo mais, à tarde. Tudo em vão. Por volta das treze horas recebemos a informação de que todos já estavam dentro da Assembleia, pois haviam dormido em colchonetes em seus gabinetes ou salas. Estava tudo pronto para a votação que garantiria ao Governador Beto Richa, enfim, a “vitória” e a agressão aos nossos direitos.

O cenário era impressionante: na proteção daqueles que, durante toda a campanha eleitoral, no ano passado, garantiram defender o interesse público em primeiro lugar, um contingente militar que eu jamais havia visto. Do outro lado das grades de proteção da Casa de Leis de nosso Estado, estávamos nós, com uma única arma: o direito de ocupar um espaço público, manifestar nossa opinião e dizer ao Sr. Governador e “seus Deputados” que nós temos sim o direito de opinar em projetos que dizem respeito à nossa profissão, exercendo nossa cidadania, da mesma forma que orientamos os nossos estudantes nas precárias salas de aula nas quais trabalhamos.

Pouco antes das quatorze horas, tem início uma reunião entre senadores que fazem parte da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal e alguns Deputados Estaduais, entre eles Ademar Traiano e Romanelli, presidente e líder do Governo na Assembleia Legislativa, respectivamente. Na conversa, os Senadores pediram a retirada do Projeto de Lei da pauta do dia, para que este pudesse ser mais bem debatido com os trabalhadores e se chegasse a um consenso. Mais uma tentativa em vão.

Sob a mira de armas pesadas dos soldados protegidos pelas grades e escudos, aguardávamos apreensivos, as informações. A maioria em pé, outros sentados e até deitados sobre a grama da praça, quando, dos autofalantes veio a notícia: “O projeto que fere nosso Paraná Previdência será votado hoje, a sessão está iniciando”.

Percebeu-se a grande decepção, indignação, mais uma vez nos rostos do “mar de gente” que ali se concentrava. Da fila do banheiro, onde eu me encontrava, começo a ouvir um grande coro, com mais de 25 mil vozes ecoando, primeiramente com a frase: “FORA BETO RICHA”! “FORA BETO RICHA”!

Ouvi, então, as primeiras explosões. Eram muito fortes, as chamadas “bombas de efeito moral”. Uma grande cortina de fumaça branca começa a se formar. O desespero começa a tomar conta de grande parte das pessoas. Por impulso, tomei uma decisão: veio-me à cabeça o que estaria ocorrendo com as pessoas que estavam próximas aos policiais. A fila do banheiro já não era mais importante do que a preocupação com o que estaria acontecendo com as pessoas que estavam frente a frente com soldados fortemente armados.

Num ato que nem eu próprio sei explicar, saí correndo em direção às “grades de proteção da ALEP”. No sentido contrário, uma multidão em pânico, com os olhos já lacrimejantes e muita gente tossindo, resultado dos efeitos dos gases e da grande quantidade de spray de pimenta. Em pouco tempo me deparei com todos aqueles soldados, arremessando muitos artefatos contra nós. Olhei ao meu redor e me dei conta que já havia poucas pessoas. A maioria, em desespero, já tinha se distanciado. Mesmo assim, a terrível ofensiva continuava. O coro de vozes mudara de frase. Ecoava por todos os cantos uma frase que jamais imaginaria ouvir em pleno século XXI: “ABAIXO A DITADURA”! “ABAIXO A DITADURA”!

Com parte de minha camiseta protegendo as narinas e a boca, comecei a sentir uma terrível ardência nos olhos, muitas lágrimas, tosse e, terrível dificuldade para respirar. De repente, senti uma forte explosão a pouco mais de um metro de onde eu estava, um barulho ensurdecedor e um grito: “Ai, fui atingido!”. Era a primeira vítima que eu vi ali, em minha frente, ajoelhado, com muito sangue do lado direito do abdômen e uma queimadura séria. Implorei aos soldados: “Pelo amor de Deus, parem! Ninguém aqui está armado”. Mas o apelo parecia provocação.

Sem conseguir respirar, me voltei ao professor ferido e tentei acompanha-lo até uma ambulância que avistara pouco antes próxima ao Palácio Iguaçu. Andamos uns dez metros e, nem percebi, mas logo não o vi mais. Olhei, então para a parte mais alta da praça, no estacionamento do Palácio, onde parecia ter menos fumaça. Dirigi-me, em grande correria até lá. No percurso havia muitas barracas (onde professores estavam acampados desde o dia 27). Nesse momento um helicóptero dava voos rasantes e alguns “indivíduos” lançavam bombas da aeronave sobre nós. Cenário de guerra.

Já no local onde era até possível respirar com um pouco mais facilidade (próximo ao Palácio) novamente tentei me aproximar dos soldados ali presentes. Novamente apelei, aos gritos: “Por favor, somos trabalhadores como vocês! Estamos desarmados. Parem!” Ao fundo, alguém grita: “Moço, por favor, saia daí! Não adianta pedir! Eles vão te machucar. Corra! Proteja-se!” E, aquele que parecia ser um local um pouco mais seguro, em poucos segundos se transforma em um verdadeiro inferno com a grande quantidade de artefatos lançados ali também.

Lembrei na ambulância, que deveria estar próxima dali. Corri até lá no intuito de buscar proteção, imaginando que seria o último lugar a ser atacado. Já haviam três feridos sendo atendidos, inclusive o professor, que momentos antes tentei ajudar. A brutalidade foi tanta que o veículo teve de ser removido rapidamente, sob intenso bombardeio.

Recuei mais, cerca de uns cem metros do local, mesmo assim o ar era insuportável. Os olhos pareciam que saltariam do rosto, os lábios queimavam e a garganta estava muito seca. O simples ato de respirar tornava-se quase impossível. Tomei um pouco D´Água que alguém me ofereceu. A garganta melhorou, mas, os olhos e lábios pioraram.

Aos poucos uma leve garoa e o vento dissiparam a terrível fumaça. As explosões praticamente sessaram. Mais uma vez fui me aproximando do prédio da ALEP, acompanhando um grande número de pessoas que faziam o mesmo. Precisávamos ser ouvidos por aqueles que se dizem “nossos representantes”. É nosso direito! É dever dos Senhores Deputados nos ouvir.

Desta vez, nem sequer conseguimos nos aproximar das grades de proteção. Fomos recebidos com violência já no início do estacionamento do Tribunal de Contas. Neste momento, sob ordens superiores os soldados inovaram na recepção: além dos artefatos já utilizados anteriormente, uma grande quantidade de balas de borracha foram atiradas contra a multidão. Muitos caíam com ferimentos, a maioria no peito e na cabeça. Muitos desmaiavam.

Ao meu lado uma equipe de reportagem fazia cobertura de tudo, quando o cinegrafista senta-se ao chão, atingido por uma bala de borracha na parte superior da coxa. “Fui ferido aqui na perna, não sabia que isso machucava e doía tanto”, falou o rapaz.

Do outro lado, próximo ao meio fio, um grupo misturava algumas substâncias em frascos com água. Aproximei-me, achando que preparavam algo contra as tropas da polícia. Perguntei ao grupo o que era aquilo. Responderam-me que eram substâncias que aliviavam a ardência nos olhos e garganta. “Quer um pouco”? Perguntou-me uma das integrantes do grupo. “Não! Ainda está dando para aguentar”, respondi. (Fomos orientados pelo nosso Sindicato a coibir qualquer atitude de violência por parte de qualquer pessoa ou grupo que se encontrasse entre nós).

E desta forma, o cenário de guerra permaneceu por mais de duas horas. Em alguns momentos chegávamos perto da tropa de choque gritando palavras de ordem, em outros o recuo era obrigatório. Até mesmo para carregar os feridos, que eram muitos. Dentre estes, dois não conseguimos resgatar. A tropa avançou e eles ficaram muito próximos dos soldados, que os agrediam brutalmente.

Por volta das dezessete horas, a ofensiva final: o batalhão de choque sai de traz das grades e avança sobre nós.

Do caminhão de som, os apelos eram para que as tropas parassem. “Chega de sangue, chega de violência, parem, por favor”!

Ao final de tudo, eu me recusava a acreditar que tudo aquilo havia acontecido. A impressão era de um terrível pesadelo. Liguei para Josiane, minha esposa e professora de História, que estava lá também e havia se refugiado nos fundos do prédio da Prefeitura, que se transformara em um verdadeiro “Hospital de Campanha” no socorro às vítimas. Ela e outras colegas ajudavam na triagem e primeiros socorros das mais de 210 vítimas do “massacre de 29 de abril”, orquestrado pelo Senhor Governador Carlos Alberto Richa e seu grupo político que, desta vez, sem nenhum disfarce assumiu que o seu governo não está a serviço dos trabalhadores de seu Estado, mas, de um pequeno grupo de “privilegiados”.

Finalmente, às 23 horas chego em casa, decepcionado pela derrota, mas, com a certeza da missão cumprida. De cabeça erguida, eu e os milhares de presentes naquele dia temos orgulho de termos lutado até o fim. Estaremos em sala de aula com muitas lições sobre este dia para compartilhar com nossos estudantes.

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