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25ª Romaria Ucraniana a Antonio Olinto oficializa novo Santuário

Fotos: GI Fotografia e filmagem de eventos

Um povo que fincou raiz no Paraná e Santa Catarina na última década do século XIX, vindo para povoar essas densas terras. Eles são os ucranianos e têm, a partir do último domingo (20/11), um novo local para visitar. Mais que isso, no mesmo complexo que abriga a Nossa Senhora dos Corais, principal ícone representativo da religião ucraniana católica de rito bizantino no Brasil, está o 1º Santuário.

A criação e benção, desse atributo religioso, veio por meio do Arcebispo Metropolita Ucraniano do Brasil, dom Volodemer Koubetch. O monumento se une a uma das mais peculiares e exemplares construções em madeira existentes na América que transcende a religião e é uma obra de arte: Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição – localizada na área rural: Linha Munhoz, próxima ao centro da cidade.

Curso, entre a história

O edifício é tombado como patrimônio histórico estadual e reconhecido por sua singular construção no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ainda, vai além, representa o conhecimento de carpintaria e a devoção depositada na fé, em meio aos desafios do novo mundo: a América.

A longa viagem de navios antes transporte de escravos. Os entreveros e dificuldades da demorada desse transatlântico, seguindo primeiro de trem de Lviv para portos como Gênova e Hamburgo. Essa história começa nesse cenário, com promessa de receber terras do império brasileiro regadas a rios que jorravam mel.

Ao chegar no Brasil, quarentena na Ilha das Cobras, depois viagem do litoral (Paranaguá) para a capital Curitiba e deslocamento para três regiões: Rio Claro do Sul, Lucena (hoje Itaiopólis) e Prudentópolis. Ramificações sequênciais levam parte desses aventureiros a ocupar a região de Água Amarela, onde organizam sua vida social com a Igreja centrada no meio da comunidade: o celó, reinventado dos modelos de aldeia da Ucrânia.

Depois Antonio Olinto

A cidade recebe Romeiro há 25 anos. Esses peregrinos vêm de diversas cidades para tirar selfies, fazer pedidos e esboçar agradecimentos. O roteiro festivo, ao decorrer dos anos, se inicia na Igreja Matriz São José (região central) e segue em procissão até a Igreja ucraniana.

Ato esse que ocorreu, também, neste domingo com milhares de pessoas, oriundas de diversas municípios. Em especial descendentes de ucranianos e admiradores de uma cultura tão ampla e abrangente que retornam ou vêem conhecer parte da história dos antepassados ucraínos.

A Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição é o principal cartão postal da cidade, nascida bem antes da criação do município, fundado em 1960. Sua arquitetura é baseada na arte oriental bizantina com abóbodas arredondas (cúpulas) e num formato representativo da cruz grega.

“Essa Igreja narra a história do povo ucraniano”, observa o pároco Mário Ciupa. O estereótipo arquitetônico engloba toda a estrutura. Sua pintura interna retrata a ideologia e o rito bizantino. Outro artefato especial é o iconostáse (painel com ícones de santos que ganhou importância no período Renascentista e teve seu ápice durante o período barroco, quando foram trabalhadas com entalhes e cores douradas). Esses atributos aumentam, ainda mais, o brilho cultural e significados.

Os relatos históricos dão conta de que o padre Clemente Bzukhovskij iniciou a construção em 1902, num projeto que teve origem num templo de Jovkwa, Ucrânia. A planta inicial compreende 15m de comprimento por oito de largura. Dois anos após o início da construção, a parte central e a cúpula estavam prontas. Mas as obras estagnaram por quase dez anos. O lendário padre João Michalczuk, entre 1911 e 1914, reiniciou o projeto.

Preciosidade em pedras

Ao mesmo sacerdote, também, é atribuída a confecção do quadro dedicado à Nossa Senhora dos Corais, atrativo central da localidade, cidade e etnia. Esse “ícone” (nome dado ao quadro de santo religioso com cores em tom sacro, dentro da etnia ucraniana) é feito a partir de pedras preciosas como diamantes, pérolas e esmeraldas. Além de decorativas.

O quadro religioso, acima de tudo de acordo com o arcebispo metropolita, referencia a história, cultura e religião. “Não pelo valor financeiro e sim pelo que representa”, frisa. Mesmo assim, o ícone foi alvo de furto, ocorrido na madrugada do dia 23 de julho de 1995 e recuperado pela polícia quatro dias depois. O ato deixou a imagem de Maria, a mãe de Jesus Cristo, ainda mais representativa.

Esse furto danificou a imagem que, após restaurada, peregrinou por comunidades ucranianas do Paraná e Santa Catarina. Em seguida, ela foi reintroduzida com grande festa popular e ganhou um espaço mais seguro, ao fundo da igreja.

Criação do Santuário

“Não é mais apenas de Antonio Olinto, da paróquia, da comunidade, mas do Brasil e porque não dizer do mundo. Porque a Igreja é de todo”, destaca pároco Mário Ciupa. A metropolia (diocese central ucraniana) designou o sacerdote, e o nomeou, para a função de primeiro do Santuário de Nossa Senhora dos Corais.

No entendimento do arcebispo, o lugar, visitado por peregrinos já há 25 anos (pelo menos), visa atender pedidos, graças e proferir até curas divinas. “Um santuário onde as diversas pessoas, não somente as ucranianas, mas todas as pessoas podem vir aqui receber graças e até mesmo milagres”, afirma Volodemer Koubetch.

Povo e populares

Após a celebração religiosa e benção do monumento, a festividade romeira seguiu para o almoço em que os visitantes puderam adquirir carne assada, comida típica e bebidas. No espaço do pavilhão coberto ou às sombras das árvores, num grande piquenique, as famílias puderam compartilhar de uma refeição diferenciada.

À tarde, a organização trouxe um pouco de história, por meio de encenação teatral sobre a história do Santuário interpretada por jovens da comunidade. Se estendendo para novena à santa, bênção de água e objetos devocionais apresentados pelos romeiros, na gruta de Nossa Senhora de Lourdes com fonte própria que brota no local, bem próxima à igreja.

Mais história viva e presente

Foto: Sidnei Muran/Gazeta Informativa

João Karpovicz acompanhado da esposa, Lúcia Jurkiv Karpovicz. (Foto: Sidnei Muran/Gazeta Informativa)

Talvez despercebido por muitos, o diácono permanente da Igreja, João Karpovicz, é referência para pesquisadores e troca de informações pontuais sobre a história da localidade. Acompanhado da esposa, Lúcia Jurkiv Karpovicz, atende com extrema simplicidade quem lhe procura e é categórico em estabelecer verdades mal pontuadas.

Muitos escritos atestam, por exemplo, que o padre Michalczuk era rígido e ordenava o povo em prestar serviços para ele e à Igreja. “Não é bem assim. Ele não obrigava ninguém. Pedia colaboração. Claro, de postura firme. Comprou terras para a Igreja e tinha patrimônio próprio que depois doou. Meu pai ajudava na igreja e sempre falou muito bem dele. Os frutos da sua passagem por Antônio Olinto e sua herança cultural, e histórica, permanecem vivos para nós, mesmo passados 65 anos de sua morte”, afirma.

“Muitas vezes as pessoas não pesquisam direito e escrevem coisas erradas”, completa o religioso leigo. Ao falar da igreja a felicidade estampa seu rosto. A construção ele acostumou em apreciar da própria casa, presente na vizinhança do templo.

João Karpovicz compartilha seu conhecimento, numa espécie de ‘ícone vivo’, com os moradores da comunidade e visitantes, frente ao imenso valor cultural e representativo da construção. A Igreja é a casa da Nossa Senhora dos Corais, símbolo maior de todos os descendentes de ucranianos do Brasil.

Nascido em 7 de março de 1937, ele estava com 13 anos quando o padre Michaltchuk faleceu e se lembra de muitas histórias do vigário que o preparou para a sua 1ª comunhão, sedimentando com propriedade o que diz.

Sobre a igreja, o diácono permanente testemunha que a atual cobertura de telhas de barro e cúpulas com zinco (em tom de alumínio) tem cerca de 60 anos. Até então, o revestimento era em madeira, com telhado composto, integralmente, por ‘tabuinhas’ – telhas de madeira lascadas a partir de pinheiro araucária, num processo artesanal que veio na bagagem cultural dos imigrantes ucranianos.

O santuário criado

O espaço tem como foco organizar a peregrinação popular de descendentes da etnia e demais visitantes. A metropolia já cogitava tal iniciativa há algum tempo, devidamente aprovada pelo alto clero da Igreja Católica no Brasil e dentro da representação ucraniana.

O pároco Mário Ciupa, também, se torna o reitor do Santuário. Caberá a ele proteger e coordenar as ações na localidade, após essa nomeação. O local de orações, o monumento, a gruta e a igreja estão sob sua supervisão. Digno de passeio por entre a história, estórias e conhecimentos: preenche com muita cultura e riqueza espiritual! Num roteiro de fé e devoção, altamente representativo aos ucranianos.

Sidnei Muran

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