Educação e Cultura

2ª reportagem da série “O Desabafo do Professor”

(Fotos: Arquivo Pessoal/Geomara)

Professora da rede pública do estado do Paraná, há 13 anos, Geomara Kavilhuka, jamais pensou que viveria um dia tão violento. Assim como milhares de professores, ela foi protagonista de uma das imagens emblemáticas do protesto do dia 29 de abril, que ocorreu em frente à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), no Centro Cívico, em Curitiba (PR).

Geomara é formada em Geografia e Pós-Graduada em História. Atualmente leciona no Colégio Estadual Profª Zuleide Samways Portes da Vila Bom Jesus e na Casa Familiar Rural – Colégio Duque de Caxias, ambos em São Mateus do Sul.

“O que dizer do dia 29 de abril de 2015? Um dia que jamais esquecerei. Um dia que será marcado na história e na educação do estado do Paraná. Era para ser mais um dia de manifestações contra o projeto que o governo do Paraná queria aprovar que irá prejudicar os funcionários públicos (policiais, agentes de saúde, agentes penitenciários, bombeiros e professores) em sua aposentadoria, mas infelizmente não foi. Em fevereiro quando fomos para realizar as manifestações em frente a ALEP tinha um pequeno contingente de policiais que estes vinham conversar conosco, e diziam ‘vocês nos representam’; mas desta vez a situação foi muito diferente”, conta.

Na terça-feira, dia 28 de abril, Geomara conta que chegou a notar que o clima estava mais pesado e que havia muita polícia. “Aliás de todo o estado e que estes estavam proibidos de falar com os professores, como se fossemos os reais bandidos”, relembra.

Segundo Geomara, numa pequena manifestação que foi realizada nesse mesmo dia, algumas bombas de gás e muito spray de pimenta foram usados em vão para conter os manifestantes.

Então, no dia seguinte, dia 29 de abril, quando seu grupo de professores e funcionários de são Mateus do Sul e Antonio Olinto chegaram na praça juntamente dos demais colegas professores e funcionário de todo o Paraná, notaram que algo iria ocorrer. “Após o almoço nos agrupamos na praça da Alep para acompanhar a votação que seria transmitida pelo caminhão de som da APP, quando de repente um grupo de pessoas saiu correndo em desespero em nossa direção e só ouvimos os gritos de ‘Corre’! ‘É bomba’ ‘Corram’! Saímos todos correndo em sentido a prefeitura de Curitiba. Foram bombas e mais bombas contra os professores, que estavam armados somente com a coragem e determinação de lutarem pelo seu futuro. Após reagruparmos vimos que havia alguns feridos, mas felizmente dos nossos ninguém havia se ferido. Estávamos todos assustados. Em seguida foi suspensa a votação e a tropa continuou a jogar mais bombas. Então eu e minha colega a professora Kharin que leciona comigo fomos indo cada vez mais próximo da Alep. As bombas não paravam. O cheiro era insuportável e quando em contato com os olhos trazia um ardência insuportável. Quando nos aproximamos perto do estacionamento e das barracas dos professores acampado havia um helicóptero que fazia sobrevoos rasos para destruir os acampamentos e jogar granadas, que inclusive uma delas caiu ao meu lado”, relata.

De acordo com Geomara, neste dia presenciou muitas atrocidades contra professores e funcionários que estavam la somente para protestar contra um projeto que iria beneficiar somente o alto escalão do governo e prejudicar os funcionários.

Geomara conta que viu muita coisa que nunca vai esquecer: “Vi uma jovem acadêmica que entrou em estado de choque ao perder suas amigas durante o rebuliço; vi um cadeirante levando gás lacrimogênio de PMs (provavelmente ele deveria ser muito perigoso com sua cadeira de rodas); vi senhoras, senhores que trabalharam anos ensinando e educando os filhos da sociedade e que hoje vivem de esmolas do governo; vi Pms chorarem por não querer bater em civis (pois provavelmente muitos devem ter um professor na família); vi também jovens guerreiros que se rebelaram contra a tropa fortemente armada com bombas e balas de borracha para poder ajudar outras pessoas não conheciam e que estavam feridas, para poder levar ate as ambulâncias próximas. Vi tantos absurdos cometidos com os eleitores do Paraná, que em um momento eu não acreditei que isso poderia estar acontecendo, mas estava. Após um ‘Cesar fogo’, nos reunimos novamente e tivemos um sentimento de perda coletivo, pois o projeto havia sido votado pelos traidores do povo que os elegeu, em troca de favores familiares e partidários”, desabafa.

Quando Geomara chegou em São Mateus com o seu grupo, ela conta que foram recebidos por um grupo de colegas e alunos que saíram de suas casas para recepcioná-los. “Foi muito emocionante ver nossos colegas nos aplaudir e nos chamar de guerreiros, que senti que perdemos uma batalha, mas a guerra ainda não”, fala.

Para Geomara, no decorrer dos últimos dias após esse fatídico e lamentável ato de covardia, viu que a luta não é em vão. “Vários estados brasileiros se manifestaram a favor da nossa luta, inclusive alguns estados entraram em greve tendo nossa luta como exemplo”, informa.

Geomara pede encarecidamente para toda sociedade não ver os professores como arruaceiro ou “black blocks”. “Pois, é isso que o governo quer. Se o nosso governador estivesse realmente preocupado com os alunos, teria apresentado no dia 12 de maio alguma proposta para o fim da greve, e não para o dia 19 como pronunciou os representantes do governo”, diz.

A GREVE CONTINUA
Na última terça-feira, dia 19 de maio, uma grande manifestação, tomou as ruas da região central de Curitiba. Uma parte dos manifestantes se reuniu na Praça Rui Barbosa; e outra na Praça Santos Andrade. Após fazerem passeata por ruas do centro, os grupos se encontraram na Praça Tiradentes, de onde seguiram até o Palácio Iguaçu.

 Professores e funcionários de São Mateus do Sul e Antonio Olinto na manifestação em Curitiba no dia 19 de maio.


Professores e funcionários de São Mateus do Sul e Antonio Olinto na manifestação em Curitiba no dia 19 de maio.

“No dia 19 de maio voltamos para Curitiba em mais uma manifestação pacífica pelas ruas da nossa capital. Foram mais de 30 mil pessoas entre pais, professores, comunidade e alunos na esperança de boas novas, de uma resposta a nossa luta, pois não estamos pedindo nada mais do que o repasse da inflação para a nossa data base de 8.17% sendo que o governo quer nos penalizar com apenas 5% divididos de duas parcelas, e sem data para o repasse. Infelizmente isso não aconteceu. Não houve acordo entre representantes do governo e Sindicato. E o detalhe mais importante, novamente nosso governador BETO RICHA (PSDB) não compareceu. E com isso, todos nós perdemos, pois sem esse repasse o nosso comércio também perde, pois são menos compras e gastos realizados em lojas, serviços, restaurantes, mercados, entre outros”, diz.

Conforme relato de Geomara, ainda existe uma luz no fim do túnel! “Alguns deputados da base do governo já estão se manifestando ao nosso favor, afim de promover uma ‘paz no estado’, e então, tudo poderá ser resolvido como se deve. Pedimos a compreensão da nossa sociedade. Realmente, não é fácil! Como professora sei que nossos alunos estão perdendo conteúdos básico, mas estamos também ensinado com a nossa greve o quanto eles devem ser críticos e democráticos”, comenta.

Para Geomara, infelizmente existem membros da sociedade que repudiam as manifestações com publicações em redes sociais, calunias em redes de comunicação. “Mas sabemos que muitos de nossos alunos e pais estão do nosso lado e nos apoiam”, fala.

AULAS
Sobre as aulas, Geomara diz estar bastante preocupada com os alunos, principalmente aqueles alunos que estão nos anos finais do ensino médio que irão prestar vestibular e o enem. Mas, ela garante que estes não serão prejudicados. “Iremos recompensá-los e de forma alguma nenhum aluno será prejudicado durante este ano letivo de 2015. Portanto senhores pais, responsáveis e comunidade em geral, precisamos mais do que nunca da força e do apoio de vocês, pois somos nós professores que mais estamos com seus filhos; somos nós professores que iniciamos a criatividade e o comprometimento dos seus filhos; e somos nos professores que fazemos a base de toda a sociedade, afinal o que seria do médico, do político, do policial, do advogado, do comerciante, do motorista, do agricultor, enfim de todas as profissões se não fosse nós professores? E se você conseguiu ler essa reportagem até aqui, agradeça ao professor que lhe ensinou a ler”, conclui.

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