Educação e Cultura

3ª reportagem da série “O Desabafo do Professor”

Este é o terceiro desabafo da série de reportagem especial: “O Desabafo do Professor”. Nesta edição, é a vez da professora do Colégio Estadual São Mateus, Simone Siqueira, que conta com muitos detalhes o que vivenciou no dia 29 de abril, e também fala um pouco sobre os atuais acontecimentos que envolvem a educação no estado do Paraná.

DESABAFO DE SIMONE:
“O dia 29 de abril começou muito cedo, às cinco da manhã já estava no ônibus junto a outros professores, saindo de São Mateus do Sul em direção a Curitiba. Durante a viagem a conversa era sobre a educação, o governo e a expectativa que tomava conta de todos: como seria nosso dia? Os mais pessimistas, ou realistas, acreditavam que seria difícil, que a votação não seria revertida mesmo com a pressão dos milhares de professores e funcionários que lá estariam para protestar por nossos direitos. Outros tinham esperança que mais alguns deputados mudassem o voto e fossem a favor dos funcionários, mas ninguém nem mesmo remotamente, podia prever o que realmente nos esperava.

(Foto: Arquivo Pessoal/Simone)

Ao chegar seguimos em caminhada até a ALEP, a cada momento, o que nos motivava era perceber o apoio da população através de buzinas, dos papéis picados jogados dos prédios, dos acenos e bandeiras penduradas nas janelas. Ao chegar fomos orientados a erguer as mãos e nos aproximar com calma para demonstrar que não queríamos violência, que nossa manifestação era pacífica. Nesse momento, reunidos em grupos por núcleo de educação fomos orientados a nos dirigir até as ruas que dão acesso a ALEP, organizando uma manifestação de bloqueio e foi onde permanecemos durante a manhã.

À tarde, entre treze e duas horas fomos novamente para a Praça Nossa senhora da Salete, em frente à Assembleia e enquanto nos encaminhávamos para lá, percebi o movimento de um grande número de policiais que caminhavam em filas duplas e se posicionavam, cercando todo espaço da praça e em frente à ALEP. Fotografei um grupo desses policiais porque me chamou a atenção, nunca em nenhum momento de combate ao crime, ao tráfico, ou qualquer situação que necessite da ação policial, tinha visto um efetivo policial daquele porte.

Ao chegar sentamos na grama próximo ao caminhão de som da APP sindicato e ficamos conversando, esperando o momento da votação que ocorreria logo após. Vi que um grupo de manifestantes estava próximo à grade colocada em frente ao portão de entrada protegida pelos policiais, protestando por terem impedido a entrada à assembleia. Essas pessoas eram as mais exaltadas, mesmo assim, somente gritando e uma ou outra subiam na grade, sem nenhuma violência, sem nenhum ato que pudesse justificar qualquer atitude de represaria dos policiais, sem nenhuma arma.

A multidão começou a gritar “retira ou repudia” em relação ao projeto de lei que estava para ser votado. A professora Marlei através do som pediu atenção e anunciou, às quatorze e trinta, “Vamos pedir que os deputados sejam conscientes, porque nesse momento está iniciando a votação…”. No mesmo instante o som de bombas e tiros tomou conta da praça. Começou uma correria desesperada, vi os policias investindo contra as pessoas, atirando e as bombas caindo ao nosso lado. Foi tudo muito rápido e assustador. Os sentimentos misturam-se, pois não entendíamos o que estava acontecendo.

Em segundos peguei minha bolsa que estava no chão ao meu lado e sai correndo, sem saber direito pra onde. Segui o fluxo da multidão e quando cheguei ao final da praça me deparei com uma grade e no desespero as pessoas amontoavam-se, gritavam e tentavam pular. Foi quando ouvi alguém gritando “O portão! O portão!”, percebi então, um portão à esquerda de onde estava e sai em sua direção. Fui até a rua ao lado da prefeitura de Curitiba, onde consegui encontrar novamente algumas pessoas do grupo de São Mateus e de Antonio Olinto.

Com dificuldade, devido ao barulho ensurdecedor dos tiros e das bombas, muitos ligavam desesperados para tentar encontrar quem na correria tinha se perdido. Fizemos também algumas ligações para saber se todos estavam bem e onde estavam. Ligamos para os familiares, para avisar que estávamos bem. A nuvem de gás invadiu toda a praça e as ruas próximas, meus olhos ardiam e usei uma toalhinha no rosto para tentar amenizar e conseguir respirar. Então, acompanhei o coro da multidão revoltada que começou a gritar: “Fora Beto Richa”, “Fora ditadura”. No carro de som o pedido desesperado para que parassem com a violência e para que as pessoas recuassem.

Muitas pessoas machucadas, sangrando, chorando, começaram a passar entre nós. Eram senhoras, senhores, jovens, porque alunos também participavam do protesto em apoio aos professores. Não eram arruaceiros a quem tentaram atribuir atitudes que teriam dado motivo para a violência policial, isso foi somente estratégia do governo para tentar explicar o inexplicável. Assim como, quando atribuem ao nosso movimento um “interesse de partido político”, subestimando a inteligência e união dos professores e funcionários para a defesa de nossos direitos, tentando ludibriar o povo sobre suas atrocidades, desrespeitando todos os trabalhadores. Mentiras que ouvimos em entrevistas com nosso governador que também mente descaradamente ao afirmar que em seu governo “concedeu 60% de aumento aos professores”, mentira que pode ser comprovada no próprio site da educação do Paraná, onde estão registradas as Leis Complementares que concedem os reajustes ao magistério.

Houve um momento que as bombas pareciam ter diminuído e os tiros estavam cessando, fui até o inicio da praça e conversava com outra professora quando começaram a cair bombas de gás entre as árvores onde estávamos. Iniciou outra correria, gritos e desespero de todos. Tentei me proteger num ponto de ônibus, mas ouvia os artifícios caindo sobre o teto, com medo e sem suportar o gás que tomava conta novamente da rua, corri para trás da prefeitura. Da laje uma mulher gritava desesperada “Corram! Saiam daqui!” nesse momento não sabia quem era e o porquê de seu desespero, mais tarde soube que se tratava da vice-prefeita de Curitiba Mirian Gonçalves, e que sua preocupação era porque de cima da prefeitura ela pode ver que eram os helicópteros fazendo voos rasantes, o que é proibido, que jogavam bombas de gás sobre a multidão.

O medo e a indignação tomou conta de todos, até onde iam os desmandos do governo? Como professora, que passei três anos no curso de Magistério, quatro anos na universidade, dois anos na primeira pós-graduação, mais dois anos na segunda pós-graduação, e agora mais dois anos no PDE, curso do estado do Paraná que equivale ao mestrado para promoção em nosso Plano de Carreira, curso aliás, interrompido em 2015 por falta de pagamento do governo para os professores das universidades. Fico revoltada pelo desrespeito a todo esse esforço, aos 14 anos que dedico a minha formação para melhorar minha atuação na escola e conquistar um salário digno. Pois não recebi até hoje, a promoção, por cursos realizados e tempo de serviço, que deveria ter sido sobreposto ao meu salário em 2014.

Somente depois das 17h a violência parou, deixando marcas de dor e humilhação. Sentei ao lado da prefeitura exausta e junto aos demais esperamos até às 19h quando foi anunciado o resultado da votação. Avisaram então, que haviam aprovado a lei que permite que façam retiradas do dinheiro da Previdência, dinheiro descontado mensalmente de nossos salários, que garantiriam nossa aposentadoria. Voltamos para nossas casas tristes, cansados, desanimados e humilhados.

Mas somos resistentes e continuamos nossa luta, pois entre outras reinvindicações está nossa data base, a reposição da inflação de 8,17% que é direito de todo trabalhador. O governo diz que não tem condições, mas dá um aumento abusivo para os deputados, para seu próprio salário, para os funcionários do tribunal de justiça e um auxilio moradia de R$4.300,00 para os juízes. Isso mostra o descaso com o dinheiro público, com a educação e com os servidores públicos, ou seja, recebe quem serve aos seus propósitos.

Temos consciência e responsabilidade com os alunos, estamos tão angustiados quanto os pais pelo término da greve, mas depois de tudo o que passamos e toda luta que enfrentamos para assegurar nossos direitos, conquistados ao longo de quarenta anos, não podemos desistir e recuar abandonando uma causa tão importante. Ainda não está definido como será a reposição das aulas, porque somente com o término da greve a SEED e a APP vão determinar. O que nós professores podemos garantir é que vamos cumprir os 200 dias letivos e o conteúdo aos alunos e que nenhum poderá ser prejudicado, até porque a maioria dos nossos alunos não está indo para a escola, o que é também de seu direito, o apoio aos professores.

Agradeço a sociedade, aos pais e alunos que demonstram seu apoio e carinho a nossa luta, pessoas que assim como nós professores e funcionários, desejam uma escola gratuita e de qualidade. Achamos que essa semana será decisiva e estamos esperançosos para que o governo faça valer a democracia, abrindo espaço para diálogo e entrando em acordo com a categoria, porque semana que vem gostaríamos muito de estar nas escolas, trabalhando”, finaliza Simone.

Últimos posts por Thaís Siqueira (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Diretoras das escolas municipais de São Mateus do Sul tomam posse para dois anos de mandato
“Cultivando e incluindo cidadãos” finaliza ciclo de visitas domiciliares a alunos da Apae de São João do Triunfo
Projeto Leque é apresentado para os alunos do sétimo ano do Colégio São Mateus