Educação e Cultura

4ª reportagem da série “O Desabafo do Professor”

Patricia Jonson, licenciada em História pela FAFI-UVA, pós-graduada em História: Múltiplas Abordagens pela mesma instituição e professora da rede estadual de educação do Paraná desde 2001. Trabalha em dois colégios do campo: Colégio Estadual do Campo Professor Eugênio de Almeida, no Distrito de Fluviópolis e no Colégio Estadual do Campo Turvo. Além disso, é Diretora de Assuntos Municipais da Diretoria Regional da APP-Sindicato de União da Vitória.

A segunda fase da Greve Geral teve início com a Assembleia da categoria realizada em Londrina no dia 25 abril deste ano. No dia 27 de abril, a Professora Lisângela Bueno Samistraro e Patricia foram para Curitiba e participaram das primeiras atividades do reinício da greve. “O clima estava tenso, pois, o governador já havia convocado um número grande de efetivo policial (Polícia Militar, BOPE, RONE, BPEFRON, tropa de Choque), como que se preparando para uma guerra. Ficamos na frente da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) até o fim da tarde acompanhando as discussões feitas, pelos Deputados Estaduais, no Plenário”, relata Patricia.

De acordo com Patricia, resolveram pernoitar no hotel próximo ao Shopping Muller, pois, ela e a professora Lisângela têm problemas de coluna, portanto, não ficaram na vigília em frente à ALEP. No dia seguinte, 28 de abril, ao ligarem o notebook e acessarem a internet em seus celulares viram as imagens e ouviram as falas dos companheiros e companheiras que haviam pernoitado em frente a ALEP, os quais foram abordados de forma violenta pela Polícia Militar (Tropa de Choque e BOPE) e ainda guincharam o carro de som que conseguiram levar no dia anterior para a frete da ALEP. “O carro de som é o instrumento que o Sindicato utiliza para organizar os manifestantes e assim evitar informações desencontradas, ou qualquer outra atitude que possa desencadear algum tipo de violência ou provocar a desorganização do movimento”, conta.

Um ônibus com grevistas de São Mateus do Sul e de Antonio Olinto foi à Curitiba nesse dia e chegou a Praça Nossa Senhora de Salete no início da manhã. “Juntamos-nos e ficamos aguardando a vinda de um grupo de manifestantes que saiu da Praça 19 de Dezembro, mais conhecida como Praça do Homem Nu. O grupo que estava na Praça 19 de Dezembro veio acompanhado por dois carros de som que deveriam chegar até a frente da ALEP. Quando os caminhões estavam em frente à Prefeitura de Curitiba houve uma intensa movimentação da Tropa de Choque que veio descendo em direção aos carros para tentar impedir a passagem. Os carros da Polícia Militar também ocuparam a rua que dá acesso à ALEP e diante disso um grupo de funcionários públicos fez um cordão de isolamento para impedir a Tropa de Choque de chegar junto aos carros de som. No cordão de isolamento estavam alguns professores de São Mateus do Sul e Antônio Olinto (Patricia Jonson, Paula Degraf, Antonio Cuba, Bárbara Andreiv, Selmo Scremin), sabíamos que precisávamos resistir para que os carros de som pudessem chegar ao destino. Nesse momento veio a ordem da Polícia Militar de que os carros poderiam passar e os manifestantes se dirigiram às viaturas para afastá-las da entrada. Os polícias chegaram próximos de nós e disseram ‘A gente vai tirar! A gente vai tirar! Não deixa virar a viatura senão o bicho vai pegar…’ a companheira Paula e eu corremos em direção aos companheiros e companheiras passando a informação recebida, mas, o pessoal apenas ergueu e afastou as viaturas. Mesmo assim os policiais começaram a espirrar spray de pimenta no nosso rosto, começaram a lançar bombas de gás lacrimogênio…foi um desespero total, saímos correndo, pois, o spray de pimenta arde muito os olhos e o rosto todos, assim como, o gás lacrimogênio queima as vias aéreas, fica difícil respirar. Nisso um dos carros de som subiu pela calçada da Praça e veio devagar em direção ao local de destino. As viaturas tentaram se atravessar no caminho, mas, alguns companheiros e companheiras se colocaram diante das viaturas para impedir a passagem chegando a se deitar na frente. Depois de toda a repressão da Polícia Militar sobre os/as grevistas nós acompanhamos uma parte da Sessão da ALEP, a qual foi transmitida pelo carro de som”, relata.

Segundo Patricia, no meio da tarde do dia 28 de abril, o grupo de São Mateus do Sul e Antonio Olinto retornou para suas cidades, pois, no dia seguinte precisariam estar novamente em Curitiba para tentar impedir a votação do Projeto de Lei que permitia ao Governador Beto Richa se apropriar do Fundo Previdenciário que, na época, era no valor de 8 bilhões de reais. Dia 29 de abril saíram de São Mateus do Sul às 5h da manhã, passando por Antonio Olinto para pegar o pessoal de lá que ia junto. “Nosso grupo tinha aproximadamente umas 30/35 pessoas. Desembarcamos na Praça 19 de Dezembro e de lá nos encaminhamos em passeata até a frente da Assembleia Legislativa do Paraná, fomos acompanhados pelo Tremendão, um grande caminhão de som que tinha por objetivo se posicionar em frente a ALEP (tendo em vista que, novamente, durante a madrugada, a Tropa de Choque havia confiscado os caminhões de som que haviam entrado até o meio da Praça Nossa Senhora de Salete), para nos ajudar a acompanhar a sessão e organizar a multidão que lá se fazia presente, já que não poderíamos entrar na “Casa do Povo”, a ALEP. Conseguimos fazer com que o caminhão de som chegasse até a frente da Prefeitura de Curitiba e por lá ficamos. Os núcleos sindicais da APP-Sindicato se organizaram nas entradas e saídas do Centro Cívico a fim de não permitir a entrada de nenhum deputado estadual no local. Nosso ponto de barreira era na esquina do Museu Oscar Niemeyer. Num determinado momento um soldado feminino tentou furar o cerco e avançou contra nós. Coloquei-me na frente do veículo dela e me sentei nisso mais algumas colegas chegaram e ela precisou dar a ré para evitar maiores problemas”, revela.

Patricia comenta que após esse episódio receberam a notícia de que os deputados e deputadas haviam dormido na ALEP para garantir a votação do projeto de Lei. Retornaram para a Praça Nossa Senhora de Salete aproximadamente às 13:30 e resolveram descansar em função da atividade anterior. “Estávamos descansando sobre cobertores, alguns haviam tirado os sapatos para relaxar, outros haviam ido ao banheiro e uns tantos haviam saído para almoçar. Às 14h o carro de som anunciou que iniciaria sessão e o Projeto da Previdência seria o primeiro item da pauta. Nesse momento já percebi uma correria e ouvi barulho de tiros, e a fumaça das bombas de gás lacrimogênio que estavam sendo lançadas contra nós. Quando olhei ao redor não vi ninguém do nosso grupo, apenas uma das professoras vinha segurando um saco de pipoca e em estado de choque queria que comêssemos a pipoca. Segurei na sua mão e disse: ‘corre, corre… não, não… devagar que a gente pode cair e acabar sendo pisoteadas’!!”, relembra.

Correram até a Rua João XXIII, nos fundos da Prefeitura Municipal de Curitiba e ali gritaram e choraram mostrando toda indignação para com aquela ação violenta e truculenta da Polícia Militar. “Gravei dois áudios para tranquilizar o pessoal que estava acompanhando nos municípios, o desenrolar dos acontecimentos. Por incrível que pareça nosso grupo acabou conseguindo se encontrar e diante do sentimento de impotência provocada pelas bombas e pelas balas de borracha, o grupo tendeu a não confrontar a Polícia Militar. Os que ali estavam, reunidos em protesto, não tinham outra coisa senão a voz para combater as armas usadas pelos policiais. A sensação era de impotência, misturada com revolta e indignação! Quando ficamos sabendo que o Projeto da Previdência tinha sido votado e que não havia adiantado nem a presença dos Senadores, ficamos desolados/as. Choramos e nos indignamos, mas nada reverteria o ataque à nossa carreira e ao nosso futuro, promovido pelo ‘Desgovernador’ Beto Richa, com o apoio de 31 deputados e deputadas da base aliada ao governo….apenas 21 deputados estaduais votaram a nosso favor! Foram cerca de 2 horas de bombardeios ininterruptos com o uso, inclusive, de 2 helicópteros, os quais, lançavam bombas também e davam voos rasantes sobre o local onde os manifestantes estavam. Quando a situação se acalmou um pouco, voltamos a nos colocar sob as árvores na Praça, de repente os helicópteros passaram e jogaram bombas em cima de um ponto de ônibus, atrás de nós, onde alguns manifestantes estavam se protegendo, havia, também, um carrinho de pipoca e o responsável saiu do local o mais depressa que pode. Gritaria e correria nesse momento novamente”, relata.

“A hora foi passando e o tempo foi se fechando num prenúncio de que a situação da nossa aposentadoria se perdia no descaso e na irresponsabilidade do governador. E foi assim que recebemos a notícia de que a maioria dos deputados e deputadas haviam votado a favor do projeto enviado pelo governador. Sentimos-nos impotentes, desvalorizados, machucados no corpo e na alma diante das ações do governo. Voltamos para casa derrotados, humilhados, massacrados, por um governo que mente, que nos tira a dignidade e que joga sujo para conseguir o que quer”, desabafa.

Durante a semana do dia 27 de abril, a APP-Sindicato junto com o Chefe da Casa Civil Eduardo Sciarra haviam entrado em negociação referente a Lei da Data Base (maio) para a reposição salarial (perda salarial proveniente da inflação dos últimos 12 meses). Não se chegou a nenhuma negociação e por várias vezes o governo acenou com a possibilidade de conceder reajustes abaixo da inflação para os funcionários públicos do Estado do Paraná. “A APP contrária a essa diretriz do governo chamou a categoria para uma Assembleia dia 05 de maio e diante da falta de diálogo e de bom senso do governo, os educadores definiram a manutenção da greve”, comenta.

Para Patricia, ainda continuam em greve em função da falta de diálogo com o governo do Paraná que em inúmeros momentos foi até a mídia e declarou encerradas as negociações com a categoria. “Tudo o que queremos é sermos ouvidos e termos nossa reivindicação sobre a reposição da inflação, que é um direito de todo trabalhador, colocada em prática. Queremos voltar para a escola e poder lecionar para nossos/as estudantes”, finaliza seu desabafo ao Jornal Gazeta Informativa.

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