Educação e Cultura

5ª reportagem da série “O Desabafo do Professor”

Foto: Arquivo Pessoal/Paula

Professora da Rede Estadual de Educação do Paraná desde 2005, Paula Cristina Degraf, atualmente é professora em São Mateus do Sul, de Educação Especial do Colégio Estadual Duque de Caxias (atendimento em Sala de Recursos Multifuncional e Professora de Apoio Educacional Especializado na área dos Transtornos Globais do Desenvolvimento). Confira abaixo o relato que Paula fez exclusivamente para o jornal Gazeta Informativa, onde ela revela com inúmeros detalhes o que vivenciou no dia do chamado “Massacre dos Professores”.

“Na manhã do dia 29 de abril enquanto nos dirigíamos com educadores de São Mateus do Sul e Antonio Olinto à Curitiba para acompanharmos a votação do Projeto de Lei que permitia ao Governador fazer uso do nosso fundo previdenciário, era um momento de tensão, pois no dia anterior estivemos também na capital e fomos recepcionados por muitos policiais, os quais seguiam ordens para não deixarem entrar o caminhão de som da APP-Sindicato que tinha sido retirado do Centro Cívico por policiais durante a madrugada. Quando fizemos um “cordão humano” para que o mesmo passasse, a tropa de choque veio em nossa direção e fomos “bombardeados” literalmente. Saímos correndo no meio da nuvem de gases das bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, momento em que a colega Patrícia Jonson e eu nos perdemos dos demais, e em poucos segundos não conseguíamos respirar, nossos olhos ardiam e lacrimejavam. Mas, graças a Deus, ninguém se feriu. Claro que no dia seguinte sabíamos que a situação poderia ser pior, mas, tínhamos que nos manifestar de alguma forma, não poderíamos aceitar ser roubados sem reagir.

No dia 29 de abril, hoje mais conhecido como o “Dia do Massacre” nos juntamos a uma multidão na Praça do Homem Nu, tiramos uma foto com todos os educadores de São Mateus do Sul e Antonio Olinto, a qual postamos nas redes sociais e que misteriosamente desapareceu durante este mês do meu perfil, assim como as postagens de diversos colegas referentes a este dia.

Em seguida, fomos em direção ao Centro Cívico. Lá nos dividimos por Núcleos pelas ruas que dão acesso à Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (ALEP), procurando dificultar a passagem dos deputados e assim atrapalhar a votação do tão temido projeto. Alguns policiais com carro civil tentaram furar nosso bloqueio, queriam se juntar aos milhares de colegas que alí estavam para dar segurança aos deputados que seriam coniventes com o pré roubo anunciado. Ficamos sabendo então, para nossa surpresa que muitos deputados dormiram na Assembleia, para não correr o risco de não conseguir chegar em tempo para a votação. Que absurdo! O quanto nosso fundo previdenciário significava para eles? Muito, com certeza! Para quem quebrou o Paraná, qualquer dinheiro seria bem vindo, ainda mais o que não sairia do bolso e nem da poupança dos nobres senhores. O número de policiais naquela praça era impressionante, formavam cordão duplo nas proximidades da ALEP, por todos os lados ali estavam em pé, desde o início da manhã, como um deles nos relatou. Para que tantos policiais e toda aquela estrutura de guerra? Éramos perigosos? Ah não, nosso dinheiro valia muito!

Após o almoço fomos para o estacionamento da ALEP onde nos reunimos novamente com os colegas educadores de nossa cidade e a vizinha Antônio Olinto. Alí estávamos como costumávamos fazer na primeira etapa da Greve, sentados no gramado, conversando. Juntaram-se a nós outros colegas que foram com transporte próprio. Aguardávamos esperançosos o resultado da reunião do presidente da ALEP, Ademar Traiano, com os cinco senadores, entre eles Gleise Hoffman e Roberto Requião, que tinham vindo de Brasília interceder a nosso favor. Em seguida, o caminhão de som noticiou que o nobre presidente não havia aceitado qualquer pedido de espera da análise do Ministério da Previdência e que a votação aconteceria em seguida. Nossa reação foi gritar juntamente com mais de 20 mil vozes: – Retira ou rejeita!

E nossa única opção seria então acompanhar fora da ALEP a votação do roubo anunciado do nosso fundo financeiro, conquistado graças aos descontos mensais da nossa folha de pagamento. Neste momento fui com algumas colegas ao banheiro, acompanhada pelo esposo de uma delas, também professor. Havíamos combinado de não andarmos sozinhos, e sim em pequenos grupos para evitarmos nos perder como aconteceu no dia anterior. Distanciamo-nos uns duzentos metros dos colegas, enquanto estávamos na fila do banheiro, ouvimos o barulho de muitas bombas e uma multidão vindo em nossa direção, gritando desesperadamente. Acredito que esta cena nunca mais irei esquecer, todas aquelas pessoas correndo, algumas olhavam para trás apavoradas, as expressões de horror e de medo, foram as piores que já vi. Seus olhos já estavam vermelhos, lacrimejando, com dificuldade para respirar, tamanha foi a quantidade de bombas lançadas ao mesmo tempo. Gritos, choro, barulho de bombas, esse era o som do Centro Cívico, que virou um Centro de Horrores. Naquela hora, me senti uma criança assustada, sem saber o que fazer, mas, que obedecia a colega, a professora Josiane Amorim, que dizia: – Corre Paula, corre! No meio da correria, com dificuldade para respirar, tentávamos cuidar uma da outra para não nos perdermos. Ouvi então um choro insistente atrás de mim, parecia um choro de criança. Quando olhei para trás, vi uma senhora chorando, correndo sozinha, com dificuldade. Estendi a mão e disse para ela ficar conosco. Imaginei que ela tinha se perdido das suas colegas. Naquele momento me senti mãe dessa mulher, que vim saber depois que era professora como eu. Como foi difícil tentar acalmá-la sem saber o que estava acontecendo, ou melhor, não acreditando que tudo aquilo estava acontecendo. Corremos para a rua de trás da Prefeitura, onde aos pouco fomos encontrando outros grupos de colegas. Em meio às bombas e gritos, cada encontro era um alívio. Usar o telefone celular era impossível, não havia sinal, não podíamos saber onde os outros estavam. Na correria muitos deixaram seus pertences para trás.

Fiquei impressionada com a quantidade de pessoas indefesas presentes naquele massacre, pessoas de idade, funcionários públicos prestes a se aposentar ou já aposentados, pessoas com dificuldade para se locomover, alunos tão jovens, pessoas que não representavam o menor perigo a quem quer que fosse. Mas, na verdade representavam. Nós ali em frente à ALEP éramos uma ameaça aos planos do ditador que governa nosso Estado e também aos seus fiéis aliados. Alguém tinha que ser sacrificado pela incompetência deles, e é claro que não seriam os nobres senhores que pagariam a conta. Que tempo de horror passamos durante aquelas quase duas horas de bombardeio. O barulho das bombas e balas de borracha não cessava, os feridos estavam por todos os lados. Chorávamos indignados por estarmos parados e ainda assim, sermos atacados. Víamos as bombas caírem do alto, provavelmente lançadas dos helicópteros que sobrevoavam o Centro Cívico de forma rasante, sempre com um soldado ostentando uma arma na porta da aeronave. Para que tudo aquilo? Que perigo oferecemos, nos perguntávamos. Querendo entender o porquê daquele ataque interminável perguntei a alguns rapazes em diferentes momentos: O que está acontecendo lá na frente? Alguém está reagindo? E todos me responderam da mesma forma: Ninguém está reagindo. Eles não param com as bombas. Enquanto esses horrores aconteciam, tentávamos falar com os outros colegas perdidos, com nossas famílias e companheiros de trabalho que estavam desesperados esperando notícias. O caminhão de som da APP pedia insistentemente o fim das bombas e que os policiais deixassem as ambulâncias chegar aos feridos, pois impediam a passagem do socorro.

Depois de quase duas intermináveis horas, o “bombardeio” acabou. Mas os danos deste dia nunca acabarão. Ao entrarmos na Prefeitura Municipal para usarmos o banheiro, parecia que estávamos entrando numa cena de um filme de guerra, tamanha era a quantidade de feridos. Impossível não se impressionar. Nunca vi tanta gente machucada. Os ferimentos eram em diversas partes do corpo, gente enfaixada, ensanguentada, chorando, gemendo. Coisa triste de se ver. Covardia foi pouco o que esse governo fez com seus trabalhadores. Foi um verdadeiro massacre. Gente indefesa sendo tratada como bandidos perigosos. O que queríamos era defender nossos direitos, mais nada. Percebemos que nossa presença não era desejada, mesmo sem reagir, não nos queriam ali acompanhando a votação. Queriam tranquilidade para nos roubar, para tirar de nós nosso próprio salário. Mas, nós ficamos, e ficamos até o fim. Perdemos! O projeto foi aprovado, fomos roubamos e já não tínhamos nem forças para gritar, quem dirá para reagir. Voltamos para casa sem ferimentos no corpo, mas, com a alma estraçalhada, um misto de dignidade violada, de injustiça. Ao chegarmos em São Mateus fomos recebidos por nossos colegas de trabalho como heróis. Chamaram-me de guerreira. Não gostei daquilo. Sou professora. Não tenho que ter outro título. Não tenho que correr de policiais, de bombas, de balas de borracha.

Meu lugar é dentro de uma sala de aula. Mas, e quem fez com que eu saísse dela? Quem não me deu condições para permanecer na minha sala, no colégio em que trabalho? Foi a mesma pessoa que se comprometeu a governar o nosso Estado e fez dele motivo de vergonha até fora do nosso país. Por causa da incompetência deste governo que se reelegeu na base de propaganda mentirosa, que se nega a dialogar, a negociar, a assumir sua culpa, a repensar seus atos, ainda permanecemos em greve. Estamos vivendo em nosso Estado tempos de retrocesso, onde a democracia se enfraqueceu, onde o governo impõe sua vontade e não é capaz de investir em serviços essenciais para o povo. Nosso governante sequer aparece no seu devido local de trabalho e só dá o ar da graça em entrevistas para a TV. Isto é muita falta de respeito para com seu povo, povo este que o reelegeu, que acreditou nas suas falsas promessas e na sua propaganda como se nosso Estado fosse a Terra da Fantasia. Dói de ver nosso povo pagando a cada compra, a cada produto, a cada serviço, o preço da irresponsabilidade, da incompetência e da corrupção. O massacre do dia 29 de abril serviu para muitos paranaenses acordarem e perceberem a realidade do nosso estado. Muitos compreenderam que nossa luta vai além da garantia da nossa aposentadoria e de 8, 17% de reajuste. Nossa luta é por justiça, é pelo Paraná, é por todos nós. Muitos paranaenses infelizmente já dormiram novamente, acreditando que não tem jeito, que as coisas são assim mesmo. Fazem como nossos colegas educadores que se solidarizaram conosco em um dia de greve, um dia após o massacre, mas que depois continuaram nas escolas como se nada tivesse acontecido. Mas, as vinte mil pessoas que como eu estiveram lá, naquele Centro de Horrores, vão continuar lutando a cada dia para que não se esqueça desse massacre e que isso jamais se repita. Vamos lutar também para que nosso Estado supere esses dias de dor, de vergonha, de medo e para que a justiça prevaleça sempre! É só isso que esperamos, justiça! Termino meu texto com a postagem que fiz ao chegar em casa, no fim de um dos piores dias da minha vida: Chegamos bem de Curitiba, graças a Deus!

Mas, o que vimos e sentimos não se apagará! Foi uma covardia! A maldade deste governo foi imensa! Balas de borracha e bombas uma atrás da outra que caiam não sei de onde, gente desarmada, gente apavorada, gente chorando, gente correndo, gente machucada… e essa gente eram alunos, professores e funcionários. Não bandidos ou qualquer outra coisa! Éramos nós, gente humilhada, gente injustiçada! Q tristeza! O Centro Cívico virou Centro de Horrores!”

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