Educação e Cultura

6ª e última reportagem da série “O Desabafo do Professor”

(Foto: Thaís Siqueira/Gazeta Informativa)

Ivanildo Sachinski, de São Mateus do Sul, é professor desde 2003, em diferentes áreas da educação, com diferentes experiências, como educação de adultos no Programa Brasil Alfabetizado, anos iniciais ainda com turmas multisseriadas (em uma turma de alunos de 3ª e 4ª série juntos), anos finais da educação básica, ensino médio, educação especial e ensino superior. “Esses 12 anos de diferentes experiências me permitiram ratificar uma certeza que tive desde muito cedo, queria ser professor, e não porque alguém me falou, mas porque tive o privilégio de ter professoras apaixonadas pelo que faziam e que ensinar era muito mais que somente passar conteúdo”, conta.

Além da graduação de História, Ivanildo possui as especializações em Educação Especial e História Cultural (UNESPAR/FAFI) e Mestrado em Educação, Estado e Políticas Públicas (UFSC) completando 23 anos de estudo de escolas públicas e de qualidade.

Hoje como professor da rede estadual de ensino e como professor de ensino superior, Ivanildo diz que tem uma visão diferente de muitos colegas, pois vê a instituição escola de forma pessimista e ao contrário a atuação do professor de forma otimista, como o único agente capaz de gerar mudança. “Principalmente porque vejo a escola como uma instituição vincula e controlada pelo Estado que por sua vez é controlado por grupos que não desejam necessariamente que a sociedade seja crítica, que a sociedade possa cobrar seus elegíveis. E temos vivenciado isso, a prática da educação tem passado por desafios e ataques constantes no local de sua realização maior, a escola. Temos vivenciado a cada dia a massificação do professor, a desvalorização dos alunos, a precarização do trabalho educacional como um todo. Basta observarmos minimamente nossas condições locais, com colégios superlotados, reformas que adaptam e improvisam salas, com instalações insalubres, direções e equipes pedagogias que precisam fazer malabarismos para atender minimamente alunos, pais, professores. Colégios que não possuem bibliotecas ou laboratórios, ou adaptam em cantos, subdividem salas em pequenos cubículos. Professores que precisam exercer a função de pai, mãe, psicólogos, assistentes sociais, advogado e outras tantas funções diferentes”, relata.

Como professor, Ivanildo afirma que nunca imaginou que chegaria ao atual nível de dificuldade em exercer a profissão, “de sofrer ataques tão violentos a dignidade e estar passando por momentos de tamanha incerteza. Ser professor hoje está se tornando quase uma missão impossível, pois estamos tendo que enfrentar um governo que nos aterroriza, que não nos garante condições mínimas de sala, que nos trata como bandidos, que não nos respeita quando somente queremos o nosso direito, a nossa dignidade, a poder exercer uma educação de qualidade. A adesão a greve tornou-se a única e última escolha de nós professores, não tínhamos mais como entrar numa sala de aula e pedir aos nossos alunos que lutassem pelos seus ideais se nós não buscássemos os nossos”, argumenta.

Segundo Ivanildo, desde o início do ano alguns questionamentos o fizeram aderir ao movimento: “Como pedir aos meus alunos que não aceitem tudo que lhes é imposto se permanecesse em sala com tantas arbitrariedades? Como falar de luta por direitos, se retiram os nossos e não fazemos nada? Como motivar os acadêmicos, os futuros professores, se não mostramos a eles possibilidades de mudanças? Como explicar aos meus alunos que mesmo os meus colegas lutando, sendo apontados, apanhando, sendo massificados eu estou em sala como se nada tivesse acontecendo? Impossível, jamais conseguiria erguer a cabeça”, diz.

Para Ivanildo, aderir a greve foi muito mais que pensar no particular, foi uma atitude construída desde a primeira aula que ministrou e desde o primeiro grupo de alunos que esteve sob sua responsabilidade. “É nesse sentido que sou otimista em relação a atitude do professor frente a sociedade opressora. Estar na rua, estar na luta é uma pequena experiência do que nossos pais, nossos professores passaram há alguns anos quando o regime militar impedia as pessoas de falarem, de se expressarem. Muito mais que pensar nos nossos interesses particulares, é ter respeito por tantos que lutaram para que pudéssemos ter o direito de greve, o direito inclusive de não concordarmos com a greve, o direito de podermos expressar nossas opiniões”, fala.

Claro, não podemos ser céticos de não admitir que uma greve prejudica a sociedade, incomoda pais, alunos, professores, gera transtornos, mas qual sentido teria uma greve, uma manifestação se não gerasse esse tipo de sentimento? “Enquanto muitos calam, enquanto muitos preferem confiar no final feliz novelístico, precisamos olhar para o nosso aluno e ter a certeza que nossa aula tem sentido para ele, porque nós mostramos que podemos lutar, que podemos fazer diferente”, comenta.

Ivanildo revela que entrou na greve porque teve professores comprometidos, para quem olha hoje e admira “Porque quando vou na manifestação, vejo os professores que ministraram aulas quando eu estava na sala, porque vejo as professoras que me ensinaram as primeiras letras do meu lado. Estou na greve porque quando olho para meus diplomas, para meus certificados lembro que tive que lutar para tê-los, tive que abrir mão de estar com minha família, de não dar atenção a minha esposa, de viagens intermináveis dormindo em ônibus, fazendo sacrifícios para poder comprar livros, materiais, porque quero que meus alunos tenham o direito de uma aula de qualidade. Estou na greve porque confio que meu esforço não foi em vão”, desabafa.

“A greve hoje é a única forma de sermos ouvidos, de buscarmos melhorias, e por isso ainda continuo na rua, porque acredito na mudança, a sociedade precisa ficar atenta, não cair nas armadilhas da mídia, na guerra de informações falsas. Nós, como categoria, não estamos na sala de aula, mas estamos na rua, na praça exercendo nosso direito a mudança, a melhoria da educação. Feridos, desgastados, mas com a certeza da cabeça erguida, da luta justa, de um futuro melhor, como diz a canção de Taiguara (1973) (E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor / E que o passado abra os presentes pro futuro / Que não dormiu e preparou o amanhecer…)”, finaliza Ivanildo.

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