Histórias de Terra e Céu

A Bandeira do Divino da capelinha de 1891

Quando realizamos entrevistas sobre a história local, muitas vezes somos surpreendidos com “tesouros” que algumas pessoas tiveram o cuidado de preservar. Mas, junto a estes tesouros, geralmente descobrimos relatos de descaso com o patrimônio histórico da cidade. Assim foi o meu encontro com a Bandeira do Divino da primeira capelinha de São Mateus. Embarque comigo nesta história!

Costumo dedicar as manhãs de sábado à realização de entrevistas sobre o passado de São Mateus do Sul. Com minha câmera na mão e um caderno de anotações, visito pessoas que, pela idade e pela experiência, podem contar sobre uma cidade que só conheço de fotos e jornais antigos. Foi assim que na manhã do dia 06 de maio, visitei as senhoras Marlene de Assis Niz e Maria de Assis Cordeiro. A conversa tratou, em grande parte, sobre a navegação no Iguaçu, visto que o pai delas era comandante de vapores, mas também falamos sobre escolas, cinema e poesia (aliás, dona Marlene faz e declama lindas poesias).

Durante o bate-papo, dos vapores chegamos às tradicionais festas de navegantes, das procissões chegamos às capelas antigas, e das capelas chegamos aos “tesouros” que as duas guardavam, e que eram inesperados para mim. Dona Maria, numa frase solta da conversa, afirmou: “inclusive eu tenho a Bandeira do Divino da primeira capela de São Mateus”. E dona Marlene complementou: “…e eu tenho a pombinha que ficava no estandarte da bandeira!”. Quase caí de costas… A capelinha que ficava no alto da colina foi construída pelos imigrantes poloneses em 1891. Deve ter “sobrevivido” até início da década de 50, quando foi destruída, pois a cidade já tinha a bela segunda capela de madeira, e discutia a construção da Matriz atual.

Segundo dona Maria, quando a capela foi abandonada, ela esteve no local e encontrou vários quadros de santos no chão, cercados por fezes (sim, fezes!!!), e a Bandeira do Divino esquecida por lá também. Ela foi reclamar para o padre quanto à situação, e ele disse para ela levar para casa a Bandeira. Graças aos cuidados dela, a peça (que deve ser centenária) mantém-se guardada, apesar das marcas do tempo. Já a pombinha de madeira (que ficava sobre o mastro do estandarte) teve vida mais difícil. Também guardada pela família que morava na Vila Amaral, o objeto foi perdido quando a enchente de 1983 arrasou aquela parte da cidade. Foi dona Marlene que, revirando a lama, conseguiu reencontrar o símbolo do Espírito Santo, guardando novamente o objeto.

Na foto desta coluna vemos dona Maria segurando a Bandeira do Divino e dona Marlene com a pombinha de madeira. E mesmo que eu tenha ficado feliz ao ver o cuidado delas com estas relíquias históricas, não consigo evitar o pensamento: quantos outros tesouros se perderam? Vitrais, altares, imagens… E quantos outros patrimônios não estão se perdendo ainda hoje, cada vez que uma casa antiga é derrubada, fotos são jogadas fora, documentos são queimados… Por isso reforço o apelo: se você sabe de famílias que possuam objetos antigos, avise ao Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus ou à Casa da Memória. O que é “lixo” para alguns, é um tesouro para nós!

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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