Mentes Inquietas

A brasilidade de Suassuna

(Imagem: Reprodução)

Ariano Suassuna (1917-2014) foi um mestre da literatura brasileira. Sua vasta produção cômica e teatral fez-lhe o nome ficar conhecido internacionalmente. Com um senso de humor apurado, o pernambucano arretado não gostava das extravagâncias estrangeiras, nem mesmo de trocar palavras do idioma lusitano por sinônimos em outros idiomas. Autor de obras célebres, como  Auto da Compadecida (1955) e A Pena e a Lei (1971), foi não só um brasileiro nato, como um homem com brasilidade.

Talvez uma das coisas que mais falte ao cidadão brasileiro seja o sentimento de pertencimento ao país; quanto a isto, muito temos que refletir. Qual a importância deste sentimento? O que o desencadeia e o que pode fazê-lo adormecer? Pode-se dizer que há uma unidade nacional que identifique os brasileiros?

A vasta obra de Suassuna, eternizada no teatro e adaptada para o cinema, traz elementos muito característicos de determinadas épocas e região. Seus escritos são ambientados no Nordeste (pudera, região em que nasceu, cresceu e morreu e conhecia como poucos), entre as intempéries e características do local, nasce no real e se transcreve à arte o linguajar, os costumes e o sentimento de fazer parte de um todo, de ser parte de um movimento – por mais que inconscientemente – e assim erige-se uma solidez dificilmente observada em centros cosmopolitas.

A inspiração para a arte vem da vida e a vida floresce com a arte. Ariano Suassuna soube captar o humor das coisas simples, do cotidiano muitas vezes tido como modorrento, mas que suas singularidades façam com que cada dia seja único, irrepetível.

É na esteira do cotidiano, que não dá valor ao cronológico, fixa-se na condição do ser, que se vê a significação da homogeneidade de determinadas comunidades. Ao sentir-se membro, valoriza-se o todo. As efemeridades não ganham espaço em nome do convívio e da partilha. A existência, que nem sempre decorre como o esperado, rearranja-se e ganha sustentação no leito comunal.

Mas nem sempre as condições ajudam. Tentar a vida, como dizem, nem sempre é fácil. Ganhá-la então, nem se fala! Quando na dificuldade extrema e no desalento, migram-se para um grande centro. Os problemas persistem, mas lá são difusos e confundidos com todo o resto da morbidade. Antes sobrevivia-se na ausência de recursos, os quais a natureza muito presenteou a alguns e tão pouco a outros; agora, há de se encontrar os recursos, mas vê se os guarda bem pois logo quererão tirá-los de ti. Seja orgânico ou mecânico, não importa a definição; agora o martírio é solitário, a peleja é longa e o sonho é retornar. Há pelo que voltar, mas não se vê o “quê” de como ficar. A cidade é grande, há gente, há movimento, há oportunidade; mas também há desassossego, perturbação, convívio com o medo, desconfiança. Não importa de onde vens, sabe-se que ali comunidade não há. O sonho não morre, mas adormece. Adormece tanto que por muitos é esquecido.

Brasilidade: sentimento de afinidade ou de amor pelo Brasil. (Dicionário de Português licenciado para Oxford University Press).

Por: Alexandre Douvan. Estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas

Mentes Inquietas
Últimos posts por Mentes Inquietas (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Nuances do jornalismo brasileiro
Nietzsche e o Anarquismo
E se seguirmos as orientações da obra “Ensaio sobre a Lucidez”?