(Imagem Ilustrativa)

“O prefeito Rafael Greca (DEM) encaminhou à Câmara Municipal de Curitiba (CMC) um projeto de lei que prevê multa para quem distribuir comida aos sem-teto sem autorização da prefeitura. Atualmente, são quase 3 mil sem-teto em Curitiba, segundo a prefeitura. Pela proposta, quem ‘distribuir alimentos em desacordo com os horários, datas e locais autorizados pelo Município de Curitiba’, poderá ser multado de R$ 150 a R$ 550, após advertência”. Essa é uma notícia de primeiro de abril deste ano, e apesar da data e do absurdo do conteúdo, não é uma pegadinha. Após sofrer intensas críticas, o prefeito da nossa capital recuou na aplicação da multa, mas não deixou de tentar burocratizar a caridade, criando normas e critérios para distribuir alimentos.

Sabemos que quem tem fome, tem pressa. Também tem pressa quem sente frio, sede ou necessidade de uma palavra amiga. Criar uma lei para determinar a maneira e a qualidade da generosidade humana, beira o cúmulo do ridículo. Porém, como é autoritário e legal, o fato não é ridículo, é triste e desumano. Ele nos lembra o quanto somos assolados por leis inúteis, que mais atrapalham as nossas vidas, do que contribuem com bons feitos. Ultimamente, as leis que agridem a liberdade estão frequentes. E, esse caso de Curitiba chama a atenção, porque, enquanto por um lado a lei do lockdown gerou desemprego e aumentou a pobreza, a prefeitura fecha a outra ponta, criando uma lei que dificulta a ajuda voluntária, justamente àqueles que mais vem sofrendo com a pandemia, os mais pobres.

A virtude da caridade que é posta em cheque em Curitiba, foi promovida à uma efeméride em 1966 pelo governo da época, a ser celebrada sempre no dia 19 de julho em nosso país. O intuito da data é promover o sentimento de solidariedade no povo brasileiro e, penso, que a interferência dos governos nesse quesito deveria se limitar apenas a isso. A capacidade e a vontade de ajudar é inata ao ser humano, presente na doutrina de todas as religiões que tem o amor como o caminho a seguir.

Por isso, falar da caridade sem vincular essa virtude ao Evangelho de Cristo, é como falar da utilidade de uma vela sem mencionar a luz que ela irradia. Ele nos mostrou o caminho para a verdadeira caridade, que ama a Deus com todo o coração, alma e entendimento, para amarmos o nosso próximo como a nós mesmos. Portanto, uma caridade promovida sem essa verdade, pode, como disse Bento XVI, “ser facilmente confundida com uma boa reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social” e que neste caso, “deixaria de haver lugar para Deus no mundo”. Podemos cair, assim, no erro de uma autopromoção, esquecendo que ao darmos esmola, “nossa mão esquerda não deve saber o que faz a mão direita”. Ou então, ao ocupar cargos públicos, chegarmos ao ponto de regulamentar a prática da caridade, porque Deus foi retirado da questão e tudo é apenas uma ordem de estado, daquilo que é permitido ou proibido.

A verdadeira caridade é, portanto, uma total despretensão de si mesmo, é uma ânsia de amar agora e com urgência o seu próximo. Não espera datas e horas marcadas, não despreza a maçã com um leve amassado, o feijão que sobrou no restaurante ou o tipo de material que vai comportar a sopa. A caridade tem pressa, porque ela alimenta, aquece e conforta quem mais precisa. “Porque tive fome e me deste de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me recolhestes, estava nu e me vestistes, estive doente e viestes me visitar, estava na prisão e fostes me ver”.

Que as efemérides da vida nos ajudem a construir dias sempre melhores! Um cordial abraço!

Ingrid Ulbrich
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