Educação e Cultura

A cidade em cena

O Grupo Teatral Lyra, em 1927, se apresenta com trajes típicos, sob a direção de Bonifácio Witkowski, em São Mateus do Sul. (Foto: Arquivo pessoal: Evaldo Drabeski)

O Grupo Teatral Lyra, em 1927, se apresenta com trajes típicos, sob a direção de Bonifácio Witkowski, em São Mateus do Sul. (Foto: Arquivo pessoal: Evaldo Drabeski)

As luzes do auditório se apagam. A plateia faz silêncio. E ação! Vai começar a magia. No palco, atores, profissionais ou amadores, dão vida a personagens variadas e nos levam a mergulhar em histórias extraordinárias. Assim, o teatro encanta a humanidade, desde os tempos mais remotos, lá na Grécia Antiga. Para celebrar essa arte, em 1961, o Instituto Internacional do Teatro definiu o dia 27 de março como o Dia Mundial do Teatro.

Por aqui, as práticas teatrais também fizeram parte do desenvolvimento cultural de São Mateus do Sul e região. Os imigrantes poloneses que aqui se instalaram, mantinham, em suas sociedades-escolas, atividades culturais, como o teatro.

“Antes mesmo da cidade ser emancipada já tínhamos grupos teatrais atuando por aqui”, destaca Gerson Souza, pesquisador da nossa história local e envolvido com teatro como escritor, ator e diretor.

Contando com uma experiência anterior à frente do Grupo Teatral Persona, em Porto Alegre, Gerson foi convidado, em 2008, para a peça “Extra, extra, essa é a nossa história”, sobre os 100 anos de São Mateus do Sul. Este foi só o começo de um importante envolvimento com a cena teatral local, que inclui a participação como ator na peça “Querogênio 23”, de 2009, sobre a história do xisto e, em 2014, escreveu e dirigiu o auto de Natal “O Natal de Maria”. No ano seguinte, escreveu e dirigiu a Paixão de Cristo, promovida com o grupo de Jovens Unidos em Cristo. “O teatro te ensina a expor, e a vida é exposição pura. Ali, a gente ganha experiências de comunicação e de interação”, conta Gerson.

“São Mateus sempre teve alguma produção teatral. Intermitente, mas teve. O grupo liderado pelo Silvério deixou sua marca na história da cidade. Mais recentemente, os festivais organizados no Clube dos Empregados da Petrobras (Cepe)e a evolução técnica e artística da encenação da Paixão de Cristo são provas disso”, avalia Luís Ferraz, que afirma ter sido pessoalmente influenciado pela participação no teatro são-mateuense.

Pau & Corda

Falar sobre teatro é lembrar do Grupo Teatral Pau & Corda, um marco importante na história recente do teatro são-mateuense. Esse foi o ambiente em que se desenvolveram alguns dos nomes mais conhecidos do teatro local. É o caso de Jairo Walter de Paula, também conhecido como Palhaço Chuvisko. “Meu envolvimento com o teatro teve início em 1990, com a Paixão de Cristo. Foi quando conheci Jonas Kukul, com quem aprendi técnicas teatrais, abrindo um universo na arte de encenar”, recorda-se. “O Pau & Corda é a minha vida no teatro. Estive presente na sua formação e criamos uma linda história, realizamos inúmeras peças e aprendi tudo o que sei”.

Dentre os personagens interpretados por Jairo, impossível não lembrar do Sapo Sapólio, da peça infantil “No Brejo do Cafundó”, que foi ao palco pela primeira vez em 1993, com texto e direção de Jonas Kukul. “Tem pessoas que eram crianças na época e comentam essa peça até hoje”, garante Jairo. Para falar das coisas que o cativam no teatro, ele enumera uma lista: “Os aplausos, a satisfação no olhar do público, a amizade e o companheirismo que se cria, pois formamos uma família ao longo do tempo”.

O Pau & Corda também levou Jairo à criação do Palhaço Chuvisko, há 17 anos, e que continua em plena atividade, aprontando todas na companhia do Palhaço Trovoada, de Luciano Wander. “É meu maior orgulho”, afirma Jairo.

Silêncio na coxia!

Enquanto os atores estão em cena, o que se passa por trás do palco nem sempre é calmaria. Nas coxias, ou bastidores, existe uma equipe de pessoas dedicadas a fazer com que tudo saia conforme planejado nos ensaios. “Os bastidores de um teatro sempre são espaços de convivência ao extremo. Todos ali envolvidos estão prontos para se colocarem à prova ao abrirem-se as cortinas. Ali não existe o ‘deixar pra depois’! As falhas de todos (equipe técnica, atores, autores, diretores, produção artística e executiva) afetam a todos imediatamente. Então tem que ser uma família”, avalia Luis Ferraz, que participou de diversas dessas atividades no Pau & Corda.

Para que o espetáculo aconteça é necessário o envolvimento de muitas pessoas na produção. Confecção de cenário, busca de patrocínios, divulgação, captação de recursos humanos, iluminação, sonoplastia, além da atuação dos contrarregras são exemplo de atividades que não aparecem em cena, mas que são indispensáveis.

Foi auxiliando nessas atividades que José Sultowski ingressou no mundo do teatro. À época, seus filhos estudavam no Colégio Integral, que promovia peças teatrais de grande qualidade. O colégio contava com o trabalho do diretor Alexandre Souzah, de Curitiba, para dirigir seus espetáculos e Sultowski ajudava com todas as atividades dos bastidores.

Teatro também é FESTTA

Aqueles eram anos importantes para a cena teatral local. O esforço dos integrantes do Pau & Corda em incentivar o desenvolvimento cultural rendeu bons frutos. A realização do Festival de Teatro Amador (FESTTA), entre 2001 e 2007, foi uma oportunidade de descobrir novos talentos.

Foi assim que Sultowski descobriu o caminho da encenação. Ele recorda que à época o diretor lhe disse: “Estou precisando de um ator e vai ser você. Você vai ser o melhor ator do festival”, recorda-se Sultowski, que na hora, duvidou, já que nunca tinha atuado em uma peça. Ainda assim, ele aceitou o desafio de estrear na peça Meia Sola, em 2001, com texto de Benedito Rodrigues Pinto e direção de Alexandre Souzah. “Eu entrei e ganhei o prêmio de melhor ator do festival!”.

Outra peça marcante para ele foi “Os invisíveis”, com personagens escritos para o seu filho. Gabriel Sultowski, e para Marina Vidal. A peça também foi premiada no festival. “Teatro é isso: é suor. Tem que brincar, gostar do que faz!”, avalia Sultowski.

Ainda antes de estrear como ator, Sultowski, que acompanhava todos os dias do festival, lembra que subiu ao palco para entregar o prêmio de melhor atriz para Denise Bittencourt. Ela era ainda iniciante no teatro, sua primeira experiência tinha sido com a encenação da Paixão de Cristo. “Não lembro se alguém me convidou, como soube da peça, nem como apareci por lá! Só lembro de ir. De receber um personagem e adorar aquilo tudo!”, relembra Denise. Logo depois, com as amigas Luciane e Thaize decidiram participar do festival. “Entramos com a cara e a coragem! Costumamos falar assim! Não tínhamos recursos, nem muitos conhecimentos. Escrevemos o texto e nos inscrevemos. Ganhamos o prêmio de melhor texto inédito, melhor iluminação, com o Ludenilson, e eu ganhei o prêmio de melhor atriz. Dessa forma, o prêmio de melhor espetáculo”.

Mesmo não tendo assistido nem participado de tantas peças quanto gostaria, a interpretação marcou a vida de Denise. “Estar no palco, ter a oportunidade de interpretar outros papéis, vivenciar outras histórias, me traz muita satisfação! É mágico! Único! E se a gente conseguir fazer as pessoas rirem ou chorarem de emoção torna tudo ainda melhor!”. Este ano, ela se prepara para voltar ao palco novamente no papel de Maria. “Sou grata pela honra de interpretá-la, no caso da Paixão de Cristo será pelo quarto ano consecutivo”.

Paixão na forma de teatro

Paixão de Cristo em 2003 e 2014: diferentes momentos do teatro de São Mateus.

Paixão de Cristo em 2003 e 2014: diferentes momentos do teatro de São Mateus.

Encenar a paixão e morte de Jesus Cristo foi algo que reuniu diversas gerações em São Mateus do Sul. Foi assim que Jairo, Luis, Denise e tantos outros jovens conheceram o Pau & Corda. “Eu comecei quando o Grupo Pau & Corda resolveu montar novamente a Paixão de Cristo, em 1999. Os grupos de jovens da época foram convidados e eu fui junto”, destaca Cleverson Guimarães, que recebeu o papel de Judas. A representação de toda a Paixão era marcada pela emoção e pelo realismo. “O Judas para mim foi sempre um desafio. A ideia era passar o melhor possível a história para o público”.

Fernando Wander começou nos palcos em 1997, com a peça Ziemia Brazylijska. Em 2000, começou a interpretar o Marvino, da peça Marvado Chifre. No entanto, uma de suas encenações mais marcantes ficou por conta da representação de Jesus, que ele iniciou em 1999. “A cada ano fomos nos aprimorando e melhorando. Paramos por longos 10 anos [desde 2004]por vários motivos e voltamos com o espetáculo em 2014 a convite do grupo JUC”.

Juventude Unida

De uma viagem à Jornada Mundial da Juventude em 2013 no Rio de Janeiro, o grupo de Jovens Unidos em Cristo (JUC) viu na prática sua capacidade de mobilização. Fã dos espetáculos do Pau & Corda desde a infância, Francine Portes, uma das integrantes do grupo, contatou Jairo de Paula, expressando a vontade do grupo de realizar peças teatrais e retomar a tradição da Paixão de Cristo. Assim, no início de 2014 começaram os preparativos. Atores experientes de encenações anteriores retornaram aos palcos, apoiando e compartilhando experiência com os novatos. Além de Jairo, Jonas Kukul, que conduziu os ensaios e forneceu os textos das encenações anteriores, e Fernando Wander foram nomes importantes para essa retomada.

Com 90 membros, o JUC tinha recursos humanos engajados o suficiente para garantir que a estreia fosse um sucesso e a história se repetisse nos anos seguintes. Em 2015, com texto e direção de cena de Gerson Souza, a equipe retornou aos palcos.

A integração entre os jovens e os dinossauros, como são carinhosamente chamados os atores experientes, desde o primeiro ano funcionou muito bem, como explica o presidente do JUC e diretor geral do espetáculo, Douglas Lara. “É um laboratório a todo momento, com o pessoal da antiga repassando experiências e ajudando a conduzir os ensaios. Os que vieram de fora também se adaptaram ao sistema do JUC trabalhar e se organizar. Com muito trabalho, carinho e humildade de todos nós, conseguimos fazer com que a experiência dos mais velhos aflore nos mais novos e a gente construa uma nova geração de atores”, complementa Lara.

Para Fernando, essa interação é fundamental para o enriquecimento da peça. “Vejo as pessoas extremamente motivadas em aprender, pois à medida que os ensaios se realizam, a troca aumenta e o espetáculo ganha como um todo, com a equipe se ajudando constantemente”, avalia.

Para este ano, eles preparam novamente o espetáculo. Com texto novo, de Fernando Wander, que também atua como diretor de cena, eles prometem voltar a emocionar o grande público que costuma lotar as sessões.

Larissa Drabeski

Larissa Drabeski

Jornalista com MBA em Administração e Marketing, é cofundadora da empresa Levante - Fotografia e Comunicação, que oferece serviços diversos de marketing e comunicação empresarial. Contato: larissadrabeski@gmail.com
Larissa Drabeski

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