Mentes Inquietas

A civilização em mal-estar

(Imagem Ilustrativa)

Para Hebert Marcuse (1918-1979), nos encontramos em uma época em que os seres humanos não vivem pela contemplação que podem obter no mundo da vida, mas de acordo com a moldagem realizada socialmente, que imprime o caráter de obrigatoriedade em determinadas relações, como no trabalho, fazendo com que os instintos sejam sobrepujados de todas as formas possíveis. Os operários caminham para uma alienação total, vendo o trabalho (doloroso) como uma obrigação irrefutável.

Marcuse vale-se de Freud, fazendo uso do conceito de culpa. A partir do momento em que nascemos, nossos instintos passam a ser reprimidos, de forma a nos adequarmos ao convívio na civilização. O pai se apresenta como o primeiro na linha de confrontação e será sucedido por todos os círculos que o indivíduo frequentar.

No exemplo do Complexo de Édipo, fala-se dos irmãos que assassinaram o pai, mas sentiram remorso por conta do amor que por ele nutriam. A partir disso, cria-se um auto-policiamento para que o feito não se repita. Os sujeitos são vigiados para que o sentimento de culpa por suas ações seja crescente.

O superego, como representação do aspecto moral do indivíduo, explica-se no embate entre Eros e o instinto de morte. Enquanto Eros é uma representação dos instintos relacionados ao prazer, à libido, ao amor etc., o instinto de morte é a externalidade de um desejo de morte que todos carregamos no subconsciente, que toma forma no ataque ao pai. Eis que as civilizações desenvolvidas tendem sempre a suprimir os sentidos em nome de um processo de dominação e condicionamento.

É característico das civilizações, suprimir os instintos (Eros) pelos instintos destrutivos. A civilização é centrada no processo de trabalho, na produção de bens. A cultura em que se insere o indivíduo é a responsável por fazê-lo deixar de lado a satisfação que pode ser obtida através da realização de seus desejos em detrimento do trabalho, da produção de bens em nome da sociedade.

O trabalho, árduo e indesejável, visa a produção em nome do indivíduo que, ao consumir um produto, criado a partir da “utilização social dos impulsos agressivos”, obterá seu limitado e rapidamente findo momento de prazer. Como convém para a manutenção da estrutura, os momentos de prazer devem ser regulados e intercalados com períodos muito maiores de trabalho para que não haja a possibilidade de insurgir ao modelo. O trabalho alienado é a contraposição a Eros.

Seguindo as inclinações críticas e pessimistas da Escola de Frankfurt, Marcuse aponta as fontes de repressão e dominação. Por mais que hajam imensos avanços tecnológicos que, teoricamente, deveriam servir ao homem como maneira de simplificação das barreiras naturais encontradas, cada vez mais os homens não se indentificam nesta tecnologia. A exemplo, a mais-repressão, como medida de normatização a partir de parâmetros sociais, e a inserção do sujeito na estrutura de dominação. As possibilidades de satisfação dependerão proporcionalmente do nível de labuta exercido, mas obviamente em uma proporção de 100 para 0,5.

A estrutura de dominação é institucionalizada, decorre de forma racional e rígida. A liberdade do indivíduo se restringe à possibilidade de escolha entre opções predeterminadas, isto é, há a possibilidade de deliberar, mas somente entre as uniformizações que cabem a cada um dentro de seus círculos.

Por mais que sejam tramadas “rebeliões” contra o sistema, estas estabelecem uma nova ordem de dominação. A sociedade enfrenta as perturbações contra a ordem estrutural com mecanismos de dominação da consciência dos sujeitos, que nem mesmo reconhecem sua posição subalterna.

Outubro de 2017

Artigo escrito por Alexandre Stori Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa e membro do grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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