Reflexão com Padre Marcelo S. de Lara

A contribuição dos Monges do Oriente

A herança da reflexão ascética de Santo Antão e de outros “Padres do Deserto” no oriente não se limitou aos mosteiros, mais também há grandes teólogos, vários deles numerados entre os “Padres da Igreja”, assim como outros autores bizantinos. Os escritos destes homens foram muito influentes na Igreja do oriente, em especial a preeminência da Escola Sinaítica nos séculos VI e VII e também com o hesicasmo, (método de oração fundamentado na repetição infinita e na apropriação interior do nome de Jesus). Técnica que com os monges do Monte Athos será profundamente transmitida à Igreja durante o Império Bizantino. A Salmodia e o uso das Escrituras foram grandes expressões da vida dos “Padres do Deserto” e dos monges orientais.

O Monaquismo ocidental tomou um rumo próprio e diferente como espiritualidade monástica quando comparado com os autores místicos do oriente e a espiritualidade bizantina, pois, as abadias ocidentais tomaram as regras desenvolvidas por Santo Agostinho e São Bento. A espiritualidade destas escolas oscilou no ocidente, mas apesar dos momentos em que passou, soube preservar uma teologia Ascética rica e abertamente, conciliável quando alinhada com a profunda oração, humildade e ascetismo dos Padres monacais do oriente.

Os teóricos da oração, os grandes hesicastas e mestres na Ascese (conjunto de práticas mortificantes e penitentes desenvolvidas pelos Monges e “Padres do Deserto”), no oriente, não são tão conhecidos no Ocidente, talvez porque suas obras ou sentenças foram tardiamente inseridas na literatura ocidental através de tratados e antologias traduzidas ou copiladas em raríssimas edições durante a Idade Média.

A tradição monástica oriental floresceu a vida de muitos cristãos por anos e ainda hoje alimenta a vida das Igrejas orientais Sui Juris (de direito próprio), em comunhão com o Papa ou as Igrejas ortodoxas separadas. Caminhos, exercícios, fórmulas e métodos perduraram anos de dedicação na mente e intelecto de homens e correntes de espiritualidade, “A oração do coração” ou “Oração pura, sem distração”, “A invocação do nome de Jesus” junto à clássica frase: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim”, também teve adesão de místicos no ocidente e influenciou nas técnicas jaculatórias. Sem falar na “Lembrança de Deus” ou “Recordação de Deus” oriunda de São Basílio, que ocupou a muitos monges do oriente. São os sinais e expressões visíveis da riqueza da espiritualidade oriental.

No século XVII fora publicada uma obra que se tornara clássica para a vida e oração das Igrejas do oriente a “Filocalia” que veio a reunir diversos autores, textos e sentenças

espirituais dos “Padres da Igreja” e monges bizantinos. Encerramos aqui com algumas citações desta obra que fora traduzida também para a língua portuguesa e tem obtido um verdadeiro interesse do Ocidente nos últimos séculos.

“Não poderias possuir a oração pura, estando perturbado com coisas materiais e agitado por inquietações contínuas, pois a oração é abandono dos pensamentos”. (p. 23, nº 70 Evángrio Pôntico).

“Nossa oração não deve começar por nenhuma convenção nem hábito: atitude corporal, silêncio, genuflexão. Devemos vigiar com atenciosa sobriedade o nosso espírito, esperando o momento em que Deus se apresente, visite a alma através de todas as passagens, atalhos e sentidos. Só é preciso calar-se, gritar e orar com clamores, quando o espírito está [sic]solidamente ligado a Deus. A alma deve despojar-se inteiramente, para a súplica e o amor de Cristo, sem distração, nem divagação de pensamentos”. (p. 31, Macário, o Grande).

Citações de nomes que podem ser desconhecidos para os ouvidos de milhares de ocidentais e até bons católicos, no entanto a vida e obra destes homens contribuíram fortemente com a espiritualidade cristã. O estudo e a reflexão de suas obras são úteis aos cristãos que desejam deparar-se com uma ortodoxa espiritualidade nascida no seio da Igreja Católica.

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