Saúde

A experiência de quem convive com a depressão: leia a carta da são-mateuense diagnosticada com a doença

Depressão e intolerância: entenda os reais motivos da doença que está tomando grandes proporções nos últimos tempos. (Imagem ilustrativa – Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Afetando aproximadamente 16% da população mundial, a depressão é uma das doenças psíquicas que mais afetam a saúde humana. As principais dificuldades para o diagnóstico é o início sorrateiro, sem motivos específicos e que causam grandes problemas.

Se formos procurar sobre a doença, encontraremos em diversos livros e sites textos explicativos que contam e explicam sobre a depressão de formas técnicas e específicas. A Gazeta Informativa resolveu transmitir da maneira mais sincera possível a realidade de quem convive com a doença, e através das palavras de uma são-mateuense que convive diretamente com a depressão, compreenda como é a visão de mundo de quem possui a enfermidade.

A carta

“Bom, eu vou falar da minha experiência com doenças mentais. Não sei bem o que falar, mas, espero ajudar de algum jeito. Em 2015, eu tive minha primeira crise de ansiedade, como eu e muitas pessoas chamamos; mas na realidade, foi um ataque de pânico, eu desmaiei no meio de muitas pessoas.

Antes disso eu vivia passando mal, mas nada de grave, tinha tonturas, caia do nada e ficava muito nervosa com várias coisas, tudo acontecia sem que eu esperasse. E aí que morava o problema, depois do primeiro desmaio, vieram mais 4 no mínimo, durante um intervalo de 6 meses, menos talvez.

Eu fiz uma bateria de exames, de quase tudo que se pode imaginar. Comecei a tomar ansiolíticos, mais por uma suspeita do médico do que por uma certeza. O que ele me disse foi ‘acho que você tem uma ansiedade leve, então vamos tratar e tentar ver o que mais você tem’, eu só seguia o que me falavam.

Mas as crises não pararam e por um tempo pioraram. O que eu percebi nesse tempo foi a descrença de muitas pessoas no que eu tinha. Muita gente achando que era algo inventado, que era algo da minha cabeça. Eu honestamente não lembro de 2015 e 2016 muito bem. Foram anos que passaram como borrões para mim. Foram uma montanha russa de sentimentos e pensamentos de uma só vez.

Eu ia e voltava do médico, ia e voltava com remédios e sempre me sentia um lixo sabe? Mas honestamente o fim de 2016 e o ano de 2017 foram os mais puxados para mim. Eu até comecei o ano com objetivos: em dois meses todos já não existiam mais. Eu comecei a me isolar realmente. Eu não queria sair de casa, conversar ou fazer coisas que antes eram tão importantes para mim.

Eu não me arrumava mais, eu tinha pavor de espelhos, o que para muita gente vai parecer idiota, mas depressão pega onde você já é mais fraco, e no meu caso era a confiança e na autoestima, que eu não tinha e até hoje tento ter. Ano passado foi quando tudo piorou, eu acordava de manhã e pensava ‘qual o motivo que eu tenho para viver? Por que eu estou aqui? Eu só incomodo todo mundo. Eu sou um peso. Por quê?’ Quando eu digo que eu fazia isso todo dia, é porque eu realmente fazia.

Mandava mensagem para alguns amigos para me darem um motivo para sair da cama. Em pouco tempo o que era uma falta de vontade muito grande de fazer coisas se tornou uma vontade muito maior de fazer coisas negativas voltadas quase que exclusivamente para mim. Sentia e ainda sinto muito ódio e rancor de mim mesma. E em momentos de desespero extremo eu me pergunto o que eu fiz para merecer isso.

No final de 2017 resolvi me mexer contra isso. Eu fui no psiquiatra, o que foi uma decisão boa. O que antes eu achava que era só uma ansiedade meio alta, acabou se revelando uma depressão. Então eu voltei para medicação, a qual eu já mudei várias vezes. E tenho esperanças de melhorar agora. Eu tenho vontade de melhorar agora. Eu quero ser melhor que isso.

A ansiedade me incomoda quase todos os dias, ela está ali cutucando onde dói, fazendo com que eu tenha pavor de bancos, de ônibus, de lugares com muita gente. Me faz ter medo de sair sozinha nos lugares por não saber o que pode acontecer e quem eu posso ver. A ansiedade me faz pensar demais, o que faz com que eu me arrependa de tudo e me sinta mal por tudo.

A cada 5 minutos eu peço desculpa por algo que por diversas vezes, ela não era necessária. Faz com que eu demore muito tempo para tomar decisões simples e que eu complique quase tudo a minha volta. Já a depressão é mais cruel. Ela faz você questionar o seu valor, o que você é, e como você é. Faz você odiar cada dia que você acorda de manhã. Não é só uma tristeza como muitas pessoas acham. É um vazio que em alguns dias é do tamanho de uma uva e em outros é você inteiro. É um senso de falta de propósito, de que tudo que você faz é em vão. É desnecessário e sem sentido. É o que faz você querer se matar, porque você não aguenta mais ter uma vida sem sentido. O que faz você chorar toda vez que tem que deixar sua casa para uma festa de família, e o que faz você querer sumir quando alguém fala com você. Nessas horas você não quer ajuda, você quer que acabe. E esse sentimento é duradouro, infelizmente. Faz você esquecer quem você é, e como você era antes.

O que me doía muito antes e ainda me dói hoje, é ver como as pessoas banalizam e generalizam isso. Eu ouvia e ainda ouço a infame frase ‘você tem tudo, tem casa, comida e uma roupa no corpo. Tem tanta gente que não tem isso. Você não tem por que ficar assim’. Doenças mentais não olham para você e te escolhem por classe social, raça, religião, etc. Elas simplesmente vêm. É o seu cérebro que tem uma dificuldade para ligações químicas e nervosas. E outra coisa importantíssima, não se escolhe ter essa doença, sair e pensar diferente não vão resolver este problema.

Ninguém escolhe sofrer sozinho, ninguém quer ficar assim, ouvir de familiares, amigos e até estranhos não vai ajudar. Vai fazer a pessoa se sentir ainda mais infeliz e sem sentido. Tente entender a pessoa, conversar sem julgar, cada qual tem seu problema. A depressão muitas vezes está naquela pessoa que você nem desconfia. Aquela pessoa alegre e que sempre tenta ajudar e te fazer feliz, essa pessoa pode simplesmente não te querer sofrendo.

Para conviver com alguém com depressão a chave é compreensão. Não julgue a pessoa. Não, não é sentimentalismo demais. Se você me conhecesse nunca diria que eu sou sentimental. Mas aqui estou eu com ansiedade e depressão há mais de 3 anos.

Seja bondoso e compreensivo com essas pessoas. Tente ajudar sem pressionar, sem se impor demais. Quando a pessoa for falar, escute ela com todo o carinho e atenção. Cinco minutos do seu dia podem ajudar tanto essa pessoa que você nunca imaginaria como. E para você que suspeita que tenha qualquer tipo de doença mental, procure ajuda. Mesmo meio sem querer, as vezes isso é o que faz a tua vida tomar um rumo. Com o tempo tudo melhora, é o que eu tento pensar e aplicar na minha vida recentemente”.

O autor pode ser quem você menos espera

Resolvemos manter a autoria do depoimento em anonimato justamente para conscientizar você. A responsável pode ser de uma filha, uma esposa, uma amiga, uma vizinha ou um familiar seu.

A depressão pode estar presente na vida de quem está mais próximo, justamente por isso, toda compreensão, atenção e respeito com o assunto fará com que a amenização da depressão diminua, garantindo assim uma melhor qualidade de vida para o enfermo.

As pessoas não ficam doentes apenas fisicamente, mas sim mentalmente. Você pode ser um facilitador e ajudar diminuir todo esse desconforto causado pela depressão. Converse e principalmente, escute e entenda o que o outro está passando, um dos principais remédios é a compreensão.

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