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A função da teoria crítica e a influência dos meios de comunicação de massa

Na imagem Habermas. (Imagem Ilustrativa)

Nos últimos tempos vem se discutindo a influência dos grupos de mídia sobre as reviravoltas políticas deste país. Em momentos conturbados como o que vivemos, refletir sobre nosso próprio papel na estrutura social e, também, sobre o conteúdo de nossas ações, é elementar. Conhecer a própria história e fazer uma leitura crítica do cenário atual é de suma importância.

Jürgen Habermas define que a teoria crítica deve “auxiliar” os sujeitos no processo de encontro com a própria autonomia, isto é, procura estabelecer bases de questionamento dos padrões instituídos nas ciências e na sociedade e, ao compreender o processamento das relações sociais do grupo em questão, tenderá a contribuir para a emancipação do indivíduo.

Configura-se como uma “alternativa” aos modelos instituídos que tendem a apresentar o que chamam de verdade, mesmo que seja uma concepção cartesiana, sem a aplicabilidade necessária para que não se trate unicamente de uma utopia. Nota-se que a teoria crítica apresentada por Habermas procura violar, agredir concepções de diversas áreas (sociologia, economia etc.), a ponto que se possa auferir sobre sua aplicabilidade real no mundo da vida.

O estabelecimento de questionamentos sobre o próprio uso da racionalidade em aplicações práticas do dia a dia, visando não a contemplação (como no caso da obra de arte, que toma contornos utilitários) ou a transposição de obstáculos da natureza, mas inclinados ao fim do consumo desenfreado guiado pela produção e consumo em massa para alimentar a lógica das organizações capitalistas. O ponto é: o sistema teleológico, o uso da razão não para fins de emancipação da capacidade de pensar, mas para o domínio e manejo de grupos que não dominam os atributos da técnica ou sua conceituação.

Em resumo, a Teoria Crítica tende a estabelecer uma base para questionamentos aos fundamentalismos que envolvem determinadas morais, que insistem em não abdicar de suas verdades (subjetivas) em detrimento de um debate de conceitos múltiplos; isto pode, não raramente, levar ao estabelecimento de sistemas autoritários, que reprimem de maneira organizada e escancarada seus opositores (aqueles que contrapõe) e os próprios partidários (que aceitam a exceção como regra)[1].

O papel dos meios de comunicação de massa

Os meios de comunicação de massa assumiram importante papel na conjuntura social hodierna. Basta dar uma simples olhadela no entorno para ver grupos de “esquerda” dizendo que a direita é beneficiada pelos veículos de comunicação de massa. Discurso contrário tem a “direita”, que afirma que os tais esquerdistas são protegidos pela mídia[2].

Levando em consideração a grande atenção que os meios de comunicação de massa atraem (são de massa, afinal), Habermas, fazendo uso do aparato reflexivo de Adorno e Horkheimer, estabelece uma crítica ao modo como seu mentor tratava o papel destes meios. Diz-se que a comunicação de massa assumiu “o lugar das estruturas comunicacionais que antes tinham viabilizado a discussão pública”. Tal aparato tende a mitificar o real, estabelecendo toda uma cerimônia de avantajar as características; cria-se um processo de reversão para uma ideia de real, que em sua condição sedutora e atrativa, será nomeada pelo público como um modelo. Seguindo a argumentação freudiana, os meios de comunicação de massa assumiram o papel de conformadoras do superego – o arranjo da vida segue aquilo que é levado como tendência pelos meios.

Habermas objeta que se deve levar em conta a estrutura da esfera pública, dos sistemas de gestão política e das sociedades e dos meios que estas possuem. Para tanto, o teórico estabelece dois modelos de meios de comunicação: os meios de controle e as formas generalizadas de comunicação. Os primeiros se distinguem do mundo da vida ao passo em que não se comprometem com a realização de um debate pragmático. No segundo caso, há a preocupação com a valência do consenso, mas ainda assim se encontram rodeados por um “plano de fundo do mundo da vida”. Os meios de comunicação alargam a abrangência do leque de informações transferidas; o tempo e o espaço já não atuam como empecilhos, uma vez que foram suplantados pela ciência. É em tal sentido que os MCM dão subsídios ao surgimento de esferas públicas que promovem a discussão de interesses em comum. É neste sentido que os meios de comunicação conseguem democratizar a informação, ao mesmo tempo em que o fluxo de transmissão ocorre apenas de um ponto, isto é, cria-se um sistema hierárquico e centralizado, pelo qual a difusão ideológica ou de mercado flui de maneira linear do produtor para o consumidor.

Pelo mesmo caminho, tratar os MCM como autoritários e “criadores de verdades universais” é uma incoerência: ainda que haja esse potencial, há, também, o potencial emancipatório, pelo qual o indivíduo poderá reger sua própria determinação sobre o que é exibido nos veículos de mídia.

Os meios de comunicação podem determinar o formato de envio da informação, mas não o seu processo receptivo, no qual aquilo que fora enviado pode ser interpretado de tal forma que subverta seu significado a partir das condições em que se encontra o receptor.

É justamente o processo de ressignificação da forma de vida que estabelece guerras internas na proposição de valores que seguem a tendência cultural, mas subvertem-na de tal maneira que o segmento industrializado da demonstração de um viver que corrobore com a manutenção desta indústria. Desta maneira, aqueles que se encontram em uma posição à parte do grande processo do capital, tem maiores condições de notar tamanha incoerência dos discursos de transparência com os valores de transparência, que se desenvolve como um modelo de operação racional e “complexo” que tende à mecanização social.

[1] O autor retoma a esta argumentação na obra Fé e Saber (2001), que teve gancho com os atentados ao World Trade Center.

[2] As aspas nas denominações são pela falta de crédito que os arranjos políticos têm para serem definidos como um ou outro. O discurso é muito mais eloquente do que os atos justificativos dos posicionamentos políticos.

Por: Alexandre Stori Douvan, Acadêmico do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

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