(Imagem Ilustrativa)

No último dia 03/03/2021, os jornais do Brasil noticiavam que o Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, um dos centros de excelência do país, apresentava superlotação nos leitos disponíveis para tratamento da Covid 19. O que chamava mais atenção na notícia era de que o hospital alugara um container refrigerado para acondicionar os corpos de mortos pela doença, pelo acúmulo e pelo tempo necessário para remoção. Este fenômeno se repete em vários pontos do país, principalmente naqueles em que a população é mais pobre e remotos.

O antigo Hospital Alemão, hoje Moinho de Ventos, começou a ser idealizado logo depois da Primeira Guerra Mundial, começando a funcionar em 1927. Também no ano final da mesma guerra, 1918, o mundo conheceu o que no Brasil chamamos de Gripe Espanhola. Uma pandemia causada por um vírus influenza, letal, que fez sucumbir 1,5% da população mundial.

Passados pouco mais de um século, há semelhanças com a pandemia atual, como a inexistência de um antiviral ou de uma vacina, entre outras. Naquela época, os métodos de diagnóstico eram rudimentares, não existia um microscópio eletrônico e nem se tinha ideia de qual era o formato de um vírus e do seu funcionamento. Também não tínhamos antibióticos (a penicilina foi descoberta por Fleming em 1928), nem formas de testar a população.

Na Gripe Hespanhola (grafia da época), Porto Alegre e Rio de Janeiro estavam entre as cidades mais insalubres do Brasil, pois o vírus chegou ao país pelas áreas portuárias.

Segundo a Revista Histórica, mantida pelo Governo de São Paulo, no Rio de Janeiro estimou-se que 65% da população adoeceu. “A maior parcela de óbitos foi registrada entre a parte mais pobre da população, já que com a doença e o pânico social comerciantes e farmacêuticos aumentaram os preços às alturas, além de terem fechado as portas ao fim dos seus estoques. No dia 19 de outubro de 1918 nenhum serviço funcionava na Capital Federal, estando ela completamente deserta. A grande crise enfrentada foi atender a demanda de sepultamentos: cadáveres se acumulavam nas ruas, nos hospitais e nos cemitérios. O Governo não dava conta do recolhimento dos corpos, e a Santa Casa, que detinha a exclusividade dos serviços funerários, era acusada de cobrar fortunas para enterrar pessoas em covas coletivas. Os coveiros também entraram em greve, reivindicando reajuste de salário. Desta forma, o exército assumiu os cemitérios e obrigou presos a sepultarem os mortos”.

O site da Zero Hora, em reportagem deste mês de março de 2021, relata que em Porto Alegre “os alimentos e a lenha, principal combustível da época, dobraram de preço. O limão, o quinino para baixar a febre (chegou a usar o nome comercial de Grippina, uma espécie de Cloroquina da pandemia do século passado), o óleo de rícino para limpar o doente internamente rarearam e encareceram. Até o frango que se criava no quintal das casas e servia para preparar a canja, alimento tradicional dos doentes, ficou com o preço nas alturas. O governo queimava alcatrão na rua, com a falsa ilusão de que mataria esses micro-organismos invisíveis. Por puro desespero, pessoas colocavam naftalina no nariz para filtrar o ar, outro erro, que levou algumas à morte por intoxicação.” Tal qual na Capital Federal, cadáveres passaram a ser jogados nas calçadas. “Presos de Porto Alegre, escoltados por policiais, recolhiam os corpos à noite com um carroção e os levavam para o cemitério da Santa Casa de Misericórdia”.

Hoje, nossas respostas, com pesquisa científica são mais rápidas e as formas de tratamento evoluíram. Porém, estamos adotando medidas primitivas, medievais de quarentena por conta do desconhecido, até que todos sejam vacinados. Mas a população ainda é resistente ao uso de máscaras, maior higiene, isolamento e distanciamento social. Alguns não querem a vacina.

No caso da Gripe espanhola, rapidamente ela diminuiu sua intensidade de transmissão e os momentos de crise duraram em torno de três meses no Brasil. No caso da Covid, já estamos há mais de um ano em guerra e não há uma estimativa de quando teremos uma trégua.

Precisamos encontrar novos ou trilhar antigos caminhos. Se não o fizermos, quem sabe não voltemos a encontrar cadáveres jogados pelas nossas ruas. Pode parecer um exagero, mas nosso sistema de saúde, já precário, está à beira do colapso.

Não bastasse a doença, no Brasil os preços sobem e se prioriza o mercado externo com a alta do dólar e o aumento nos preços dos combustíveis. A poupança interna se degrada. Acabei de ler uma notícia de que a energia elétrica ficará em torno de 15% mais cara. O Governo Federal parece perdido ou é ineficaz em mostrar à população os esforços feitos para minimizar os efeitos da pandemia sobre a vida das pessoas e sobre a economia.

Não há nada pior do que a sensação de abandono, falta de esperança e falta de crença em dias melhores.

Adnelson Borges de Campos
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