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A história da Flor de José: Dona Duliria a mulher que curou e salvou vidas

Foto: Arquivo Pessoal/Diego Vaz

Foto: Arquivo Pessoal/Diego Vaz

Descendente de índios com negros a mulher guerreira que criou seus filhos com muito esforço e luta é um dos símbolos do interior de São Mateus do Sul, por ser uma das curandeiras mais procuradas pelo povo e por ter uma história de amor, digna de ser contada.

Duliria Bueno Vaz é o nome dela, nascida na década de 30, filha de Etelvina e Joaquim, ambos lavradores, que juntos com muito esforço criaram seus filhos na escola da roça. Duliria era a mais velha dos irmãos e tinha como obrigação ajudar seus pais a criar os demais irmão, por isso, nem escola chegou a frequentar, para se dedicar somente ao trabalho, na lavoura e em casa. Com o passar dos anos foi se tornando uma mulher forte, e batalhadora, e entre seus 18 e 20 anos de idade se casou com o grande amor de sua vida José Vaz da Silva, um homem trabalhador e honesto, sem nenhum tipo de vício. Ambos construíram sua vida juntos, e criaram seus sete filhos de maneira digna e com muito amor. Um dos seus filhos relata a situação em que eles viviam: “morávamos em uma casinha de chã batido, com fogão de tijolos, nas noites frias dormíamos perto do fogão, porque não existia cobertores e precisávamos nos aquecer para poder aguentar o frio”, relata Antônia Vaz uma das filhas do casal. Com muito esforço, respeito, amor e parceria José e Duliria construíram sua história de vida e exemplo as demais gerações. Como era uma grande dificuldade para o povo do campo se dirigir até a cidade em busca de médicos, muitos procuravam a solução dos males do corpo e da alma em curandeiros, benzedeiras e no caso das gestantes, em parteiras (mulheres responsáveis no auxílio das mães no momento de dar à luz).

Havia na comunidade de Turvo de Cima um grande curandeiro muito conhecido e responsável por muitas curas na região, porém segundo a tradição, em determinado momento da vida, a pessoa que possui tais dons, deve “passar” todos os ensinamentos para outra pessoa que acredite seguir o caminho destinado por Deus, e assim foi com Duliria, ela recebeu grandes ensinamentos do curandeiro da comunidade que pediu para que ela seguisse com o caminho de cura e ajudasse todo povo dali. E assim foi, dona Dulia como era conhecida pelo pessoal, foi ficando cada vez mais conhecida, por seu carisma e por suas curas. A população de todas as comunidades da redondeza de Turvo de Cima a procuravam, muitas pessoas vinham de Irati ou do município de Rebouças para procurar a solução para seus problemas. Com seu altar e seus santinhos dona Dulia, segundo a população, fez milagres, alcançando muitas vezes a cura imediata naquele momento, procuravam pessoas com dor de dente, dores nas costas, problemas com vermes e tantos outras causas que só ela mesmo sabia, e mais especial disso tudo é que ela nunca cobrou nada pelo que fazia, um dos netos dela relatou uma vez o que ela dizia sobre não cobrar nada: “minha missão é fazer o bem para as pessoas, sem nunca cobrar nada, pois quem vai me recompensar é Deus e Nossa Senhora”, relatou o neto Diego que presenciou a avó falar muitas vezes tal depoimento.

E além de ser conhecida por suas curas, e sua simpatia, dona Duliria também era conhecida, porque mesmo com seus 70 e tantos anos, trabalhava na roça e segundo os moradores da localidade ganhava de muita “gente nova”, a senhora estava presente na colheita de feijão, milho, erva-mate e batata, e não tinha medo de serviço, dizia que quando parasse de trabalhar era pra morrer, pois trabalhava porque gostava não por obrigação. E assim foi a vida de Duliria que além de trabalhar, e ajudar os outros, cuidava de seu esposo José, que tinha um problema respiratório, adquirido por tantos anos de trabalho em dia de chuva, em manhãs frias de inverno sem ao menos se agasalhar. O casal era muito conhecido na comunidade de Turvo de Cima e sempre recebiam visitas de suas grandes amizades conquistadas ao longo da vida dos dois.

Porém, toda história de amor e luta, chegou ao fim, mas um fim digno de uma história de cinema. Dona Duliria com o passar dos anos foi adquirindo sem saber um câncer, que aos poucos foi se espalhando pelo seu corpo, e não tinha mais forças para cuidar de ninguém, pois chegou a hora de ser cuidada, e como se tratava em Rebouças, ficava na casa de uma filha para que o acesso ao hospital não ficasse tão complexo, e para que seu José não ficasse sozinho, outra filha foi cuidar dele, nos dias em que dona Duliria estava se tratando. Mas a distância e a saudade foi muito grande, e seu José não aguentou e no dia 23 de setembro de 2015 seu José faleceu dois dias depois de rever sua amada, e terem uma longa conversa, que segundo os filhos parecia uma despedida. Dona Duliria permaneceu sobre os cuidados de médicos e de seus filhos, mas exatamente duas semanas depois, no dia 07 de outubro de 2015 dona Duliria veio a falecer, um choque para a família, pois perderam em menos de um mês o patriarca e a matriarca da família Vaz. Mas a justificativa segundo um dos netos é a seguinte: “o vô e a vó viveram cerca de mais de 60 anos juntos, compartilharam lutas, vitórias, decepções e alegrias, e quando chegou a hora do vô descansar a vó precisava cuidar dele, onde for que ele estivesse, e por isso a flor de José se junto com o herói do chapéu de palha” relata Diego.

Essa foi a história de uma mulher guerreira e do seu grande amor, que ficaram separados apenas por duas semanas, para que pudessem ficar juntos para sempre, vivendo o grande amor que um tinha pelo outro, Duliria Bueno Vaz e José Vaz da Silva, deixaram sete filhos, quinze netos, seis bisnetos e uma história de amor que segue de exemplo para todos os casais digna de ser contada: A HISTÓRIA DE AMOR DA FLOR DE JOSÉ E DO HERÓI DO CHAPÉU DE PALHA.

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