Augusto Stable e o cavalo que o acompanha nas cavalgadas praticadas no interior do município. (Fotos: Éber Deina/Gazeta Informativa)

O interior do município de São Mateus do Sul guarda muitas histórias e retratos das pessoas que sobreviveram cuidando da terra e do campo. Ao longo dos seus 5,6 mil quilômetros de estradas rurais é possível observar vários fragmentos de um modo de vida bastante tradicional, intimamente ligado às raízes de várias famílias que ainda hoje residem em nossa cidade. A história de Augusto Stable e seus 91 anos de existência é um desses exemplos que enaltecem a fibra e a força de todos os trabalhadores rurais.

Augusto nasceu na comunidade do Guabiroba, localizada no interior da cidade de Teixeira Soares. Oriundo de uma família cuja principal atividade era o trabalho com madeira e serraria, logo nos primeiros anos de sua vida ele se deparou com a rigidez através da qual os pais educavam seus filhos naqueles anos. Aos 7 anos de idade, ele e os familiares se mudaram da terra de origem, a fim de prosperar em um novo recanto, passando a viver e desenvolver as atividades de subsistência na região do Mourão, interior do município.

Paiol para armazenamento de utensílios e carroça antiga utilizada como meio de transporte de pessoas e cargas pela região.

O trabalho de seu pai consistia na utilização de um equipamento praticamente extinto atualmente, mas que durante muitos anos foi a força motora que transportava os insumos e a produção das famílias de agricultores que habitam as diferentes comunidades de nossa região. Os chamados carros de bois foram introduzidos no Brasil pelos portugueses e difundiram-se por todo o país. Eles ainda são utilizados no meio rural nordestino e em nossas comunidades eram chamados de carretões e comumente eram puxados por cavalos e burros. Augusto relembra com prazer o início de seu trabalho ao lado do pai conduzindo os carretões. “Logo aos 13 anos eu comecei a ajudar meu pai. Naquela época não existia muita cerimônia entre os pais e filhos e mesmo à contragosto de minha mãe eu comecei a ir com ele tocar os animais. Segundo ela, era um serviço muito pesado para uma criança fazer, mas pensando na sobrevivência dos meus familiares eu passei a trabalhar com prazer”, ele recorda.

Após alguns anos enfrentando as duras geadas e também os dias áridos de calor, Augusto se lembra de uma viagem que fez à São Luiz do Purunã, conduzindo o carretão de burros de seu pai. “Passei 3 dias viajando até chegar ao meu destino. Naquela época os verdadeiros motores eram a força dos burros que transportavam as cargas por todos os lados. Eu particularmente preferia os burros e mulas por sua vitalidade e porque viviam muitos anos, apesar da dificuldade para amansá-los”, rememora ele. Aos 18 anos, Augusto interrompeu esse auxílio prestado aos familiares e se dirigiu ao quartel da Lapa, onde serviu durante um ano ao Exército Brasileiro.

O retorno à casa dos pais marcou a diversificação das atividades da família ao longo dos anos. A prática dos carretões com o passar do tempo foi entrando em extinção, apesar de ter perdurado por um longo período enquanto a modernidade e as condições dos produtores não permitiam a utilização de maquinário ou equipamentos mais sofisticados. Aos 34 anos, Augusto mudou-se novamente, agora para a comunidade da Estiva dos Vidal, localizada próxima à sua antiga residência. Essa transição marcou também uma mudança no enfoque de seu trabalho. “Iniciei a lida com a lavoura para continuar a manter minha esposa e meus cinco filhos, além de tentar deixá-los com algumas pequenas posses para que continuassem plantando. Eu não sabia nem pegar no arado, mas fui determinado e comecei a plantar milho”, relembra ele.

Cocho rústico de madeira construído há muitos anos para dar de beber aos animais de carga de Augusto.

A lavoura e a agricultura, o acompanharam até os 80 anos de idade, quando ele plantou sua última roça. “Não me habituei a trabalhar com o fumo, plantava principalmente milho e feijão. Tenho muito orgulho das minhas origens e por ter conseguido deixar um pedaço de terra para cada um dos meus filhos”, conta Augusto. A companhia dos burros e mulas permaneceu com ele, pois muitas pessoas da região o procuravam para amansar os animais e torná-los aptos ao trabalho de carga.

Hoje, aos 91 anos, Augusto Stable continua amando os animais de montaria. Ele é o cavaleiro mais experiente de um grupo que se reúne e percorre várias comunidades do município. Há 5 anos, ele se juntou aos cavaleiros que atravessam as estradas rurais do município em direção às igrejas nos dias de festa e celebração. São aproximadamente 130 pessoas que se ligam e carregam juntas a chama da união entre as diferentes localidades. “Percorremos vários locais, desde a comunidade de Monjolos, Dois Irmãos, Caetá e muitas outras. Para nós, isso significa a manutenção das amizades e dos laços entre a gente forte do interior, que através de seu esforço produziu tantas coisas ao longo dos anos. E também marca nossa fé, uma coisa que sempre me manteve forte em meio ao rígido caminho da vida no campo”, ele encerra.

(Foto: Tobias Kricheski)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Lídia Truchinski Gralak deixa legado cultural para São Mateus do Sul
Projeto Família Resgate Gaúcho completa 5 anos de atividades em São Mateus do Sul
Save Ralph: curta-metragem faz crítica a testes em animais na indústria da beleza