No canto esquerdo da foto, Nhô João, acompanhado da esposa Francisca, sua companheira durante uma vida inteira. (Foto: Acervo Familiar)

O interior do município de São Mateus do Sul está recheado de histórias inspiradoras em muitos sentidos. Isso se torna ainda mais significativo, quando contemplamos o modo de vida adotado pelos antepassados de muitas famílias, assentadas e estabelecidas nos rincões produtivos de nossa extensa zona rural. Esse é o caso de João Afonso Vieira, um homem que dedicou a vida ao estudo profundo e à evangelização através da fé católica, cuja atuação comunitária e valores são modelos para as gerações mais jovens.

Primeiros anos

O Nhô João da Terra Vermelha, como ficou popularmente conhecido ao longo da vida, nasceu no dia 21 de setembro de 1910, na localidade da Água Azul de Baixo, pertencente ao município da Lapa-PR. Oriundo de uma família humilde de trabalhadores rurais, mas especialmente dedicados à religião católica, seu João estudou apenas o equivalente ao primário daquela época. Ambrosio Afonso Vieira é seu filho e forneceu informações detalhadas sobre o modo de vida do pai. “Desde os 12 anos ele já era ajudante de capelão na Igreja Nossa Senhora Aparecida de Água Azul. Aos 18, foi servir ao Exército Brasileiro e passou por lá um ano, na época em que as estradas eram construídas manualmente com pás e picaretas. A estrada em que ele trabalhou liga os estados do Paraná e São Paulo”, observou ele.

Retornando à terra natal

Após 1 ano de experiência no Exército, seu João retornou à terra natal, casando-se com sua prima Francisca Afonso Vieira em 1935. A partir disso, eles passaram a residir nas terras do pai de Francisca, na localidade da Terra Vermelha, que pertence ao município de São Mateus do Sul. A região faz divisa com a comunidade da Barra da Cruz, que já faz parte dos limites de Antonio Olinto.

Nhô João registrou as atividades financeiras da Igreja Sagrada Família de
Terra Vermelha durante 37 anos.

Ambrosio comentou sobre as atividades executadas pelo pai ao longo da vida. “ Meu pai viveu praticamente sua vida inteira na comunidade da Terra Vermelha, até seu falecimento em 1985, aos 75 anos de idade. A principal atividade de sobrevivência praticada por ele foi a agricultura. Mas a sua maior missão se concretizou a partir de 1938, quando ele assumiu o comando da Igreja Sagrada Família de Terra Vermelha. Ele ocupava o cargo de capelão, que seria equivalente ao ministro atualmente”, comentou ele.

A missão de evangelizar

A presença do padre nas capelas comunitárias era coisa rara e motivo de muita celebração. Isso acontecia apenas duas vezes ao ano, na localidade da Terra Vermelha. Seu João começou a protagonizar a atuação em prol da fé na comunidade. Conforme acervo familiar, constam em um livro-caixa utilizado por ele, registros da movimentação das contas da capela. As anotações eram realizadas com caneta-tinteiro, sendo o primeiro registro datado de 1º de maio de 1938. O último registro consumado pelo Nhô João, ao longo de uma vida inteira dedicada à fé católica, data de 4 de janeiro de 1975. Os serviços prestados à comunidade e ao cristianismo de maneira geral, ficam perenemente registrados na memória popular.

O cotidiano de nossos antepassados

Seu filho também comentou sobre a rotina do pai, muita diferente daquela observada através do frenético ritmo social no qual estamos inseridos. “ Ele levantava todos os dias as 5h da manhã, tomava chimarrão, tratava das criações e ordenhava as vacas. As 7h tomava um chá de erva-mate com bolinhos de farinha de milho, tudo feito artesanalmente no monjolo de socar milho. O almoço era constituído em sua maioria por produtos da propriedade dele, com exceção do sal”, explicou ele.

Dedicação à fé católica

Nhô João era um estudioso inveterado dos livros relativos ao Cristianismo e à fé católica. “Meu pai foi um homem muito estudioso, tendo ele e minha se dedicado à questão espiritual até a morte. Eles rezavam o terço diariamente e uma de suas orações prediletas, era para o Divino Espírito Santo. Ele dizia que o Divino esclarecia tudo em sua vida”, comentou Ambrosio.

Os registros eram realizados através da utilização da caneta-tinteiro, através dos anos de colaboração comunitária executados pelo Nhô João da Terra Vermelha.

A morte de seu João é marcada por certo simbolismo religioso. No dia 27 de outubro de 1985, ele, sua esposa e outros fiéis se deslocaram da Terra Vermelha, até a comunidade do Santana, para a realização de um culto na Igreja local. “A ministra daquela celebração pediu para que meu pai fizesse uma mensagem final, o que foi prontamente aceitado por ele. Ele pregou falando da importância da Bíblia em nossas vidas. Em determinado momento da explanação, quando falava que devemos seguir os ensinamentos bíblicos e ter fé, ele caiu ao lado do altar e faleceu”, finalizou Ambrosio.

O legado de seu João ultrapassa as dezenas de anos dedicados por ele à propagação da fé católica. Em tempos de desmotivação e preocupação constante por parte de todos, esse registro de espiritualidade e lucidez nos inspira a sempre nos tornarmos indivíduos mais plenos e amorosos, tornando a existência comum mais serena.

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