Mentes Inquietas

A indústria da moda e do agrotóxico

(Imagem Ilustrativa)

O filme documentário francês The True Cost, produzido por Andrew Morgan e Michael Ross, em 2015, busca explorar a lógica e o mercado de industrialização dos bens culturais e de consumo.

Em meio a um processo de apuração que investiga os meios de fabricação de produtos – roupas, calçados etc. – e qual é a mística criada em tornos desses produtos pela propaganda e por seus consumidores, reforçam a noção de espetáculo de Debord. A cultura da “glamourização” de bens de vestuário, majoritariamente irracional, e a atribuição de valor a determinados produtos por conta da marca que carregam, por mais que estes sejam produzidos com materiais similares ou inferiores a diversos outros produtos disponíveis no mercado e, ainda, pelos mesmos instrumentos (e pessoas) que confeccionam as peças.

A indústria da moda não está sozinha no diagrama da valorização simbólica. As indústrias alimentícia e de agrotóxicos, por mais que de maneiras distintas, também utilizam fortemente a ferramenta da propaganda, da criação de um ideal sobre seus produtos.

Todo o processo de produção em larga escala demonstrado no documentário, implica – e não poderia deixar de ser – em um processo de demasiada exploração da mão de obra em detrimento da otimização do tempo em favor do detentor dos meios de produção. As condições muitas vezes insalubres dos sujeitos responsáveis pelo processo de confecção dos produtos da indústria chama a atenção. Uma mulher, mãe de várias crianças, passa a maior parte do dia na linha de produção, recebendo um salário ínfimo, útil somente para a subsistência em condições precárias. Os consumidores, por sua vez, têm uma pseudo-revolta: “minha nossa, como que podem as autoridades deixar uma coisa dessas acontecer?”, dizem enquanto calçam um tênis produzido no Taiwan, uma calça da Índia e uma camiseta chinesa.

O panorama sofre leve mudança – leve por conta dos números – no momento em que os consumidores são afetados pelos produtos que adquirem, como é o caso do câncer causado por agrotóxicos em uma fazenda de algodão. O documentário explora a história de um fazendeiro que faleceu vítima de câncer provocado por um agrotóxico da Monsanto; sua viúva, agora, demonstra indignação com o comércio indiscriminado de produtos que podem causar tamanho mal à saúde humana. Indignação no mínimo curiosa de uma pessoa que passou décadas como pequena financiadora do gigantesco negócio dos produtos agrícolas.

A Indústria Cultural: O enfoque do documentário é justamente virar os holofotes para o verdadeiro cenário da produção, sem as mitificações criadas pela própria indústria (que faz uso constante da mídia), onde não raro lança campanhas de “conscientização” e “humanitárias”, enquanto faz exatamente o contrário do que prega na produção de seus materiais.

A indústria da moda tem traços característicos. A propaganda de seus produtos trabalha diretamente com a estética, com um ideal de corpo, sempre padronizado; o produto, a vestimenta, por vezes acaba relegado a um plano de fundo. O que de fato vende-se é um modelo de vida ideal: o que come aquela modelo? Quantas horas de sono por noite? Pratica exercícios? O que não pode faltar em seu guarda-roupas? Há um bombardeamento de informações – irrelevantes, diga-se – que são aceitas e consumidas com voracidade. A moda é amplamente explorada no documentário, mas é apenas um dos diversos campos de uma enorme indústria que se vale de todos os nichos que encontra.

Traçando um paralelo com o tema explorado no documentário, temos como bom exemplo a entrevista a Antônio Abujamra, no programa Provocações[1], concedida pela Monja Coen, que  discorreu sobre o movimento e a cultura hippie dos anos 1960. Conta que um dos marcos do movimento, a calça jeans rasgada era fruto de uma luta contra o consumismo: as pessoas tinham apenas uma calça, que rasgava com o excesso de uso e lavagens. Julgava-se que era algo impossível de tornar produto da indústria. É justamente o que aconteceu: cobra-se, nos dias correntes, valores exorbitantes por uma calça rasgada – por vezes tem valor mais elevado do que uma calça intacta. A questão é: o que faz com que os indivíduos comprem uma peça de roupa rasgada (o que não se faria em outros tempos) de determinado fabricante? Não se compra apenas a peça, com ela vem o status que é criado por meio da propaganda da própria marca – e aqui entram as modelos e celebridades –, que é legitimado através da compra massiva do produto, que tende a ser substituído em breve, assim que a expectativa de lucro for batida.

O mesmo ocorre com os produtos da mídia. A razão é instrumentalizada, produz-se não para a contemplação, mas para comercializar. Músicas, programas radiofônicos e televisivos, livros etc., são lançados em grande quantidade para atender às vorazes demandas de consumo.

A propaganda: As propagandas são destinadas a abarcar o maior número de pessoas dentro de um determinado segmento; tanto é que são feitas de modo com que criem uma relação identitária com o receptor, que se vê representado, seja por conta de preconceitos, de desejos, de relações cotidianas ou qualquer outra coisa. O marketing sobre o produto se encontra nos sentimentos despertados pela propaganda, trata-se de passar a imagem de uma vida idílica associada ao produto.

O caso da multinacional de Agricultura e Biotecnologia Monsanto representada no documentário é por si explicativa. Uma empresa que está associada ao grande capital agrícola, produzindo químicos – muitas vezes nocivos à saúde humana – em larga escala e introduzindo  no mercado sementes geneticamente modificadas sem tomar as devidas precauções sobre os efeitos que terá sobre a produção de bens alimentícios, publica propagandas que buscam construir uma imagem que represente a empresa como um exemplo de bem à humanidade. Em 2008, a Monsanto veiculou em algumas redes de televisão do Brasil uma propaganda em favor dos transgênicos com o nome “Mundo Melhor”. “Pense em um mundo livre dos agrotóxicos”, dizia a propaganda, que atendeu várias demandas étnicas, utilizando a figura de crianças negras, pardas e brancas, de uma mulher grávida e da típica imagem da “família feliz” – com a canção Wonderful World, de Louis Armstrong, ao fundo – para passar a imagem de uma empresa preocupada com o meio ambiente e com a qualidade de vida dos seres humanos.

A propaganda da Monsanto é contrariada pelas próprias ações da empresa, não diferente do que ocorre em outras indústrias, como a da moda e a alimentícia. A exploração da mão de obra em países menos afortunados, ou a deterioração da saúde dos próprios consumidores praticamente não é questionado; o modelo de organização capitalista passou a ser uma “religião” no Ocidente. Pode-se questionar a presidência do país, políticas públicas, a vida privada, mas falar dos problemas inerentes ao capitalismo soa como uma ofensa.

O ideal de vida burguês, o mito (Barthes) de uma sociedade livre e próspera com um mercado sem regulamentação é difundido pelos meios de comunicação mantidos pelas próprias pessoas a quem interessa difundir tais ideais. Sem querer entrar na definição de agulha hipodérmica de Harold Lasswell, pois a problemática tem mais nuances do que apenas essa definição, devemos citá-la para referenciar o processo pelo qual é incutido no “senso comum” o pensamento que respalda as ações da elite.

Por: Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=FSqJUJzzVhQ

Mentes Inquietas
Últimos posts por Mentes Inquietas (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Neodualismo Platônico: mundo real x mundo virtual
Programa de Mestrado da Universidade do Contestado em desenvolvimento regional alcançou conceito 4 na CAPES
A justiça-espetáculo