Mentes Inquietas

A inibição do pensamento nas escolas

(Imagem Ilustrativa)

As escolas de ensino fundamental e as instituições de ensino superior possuem uma função, em tese, primordial na sociedade contemporânea: as primeiras, preparam o indivíduo para encarar de forma crítica os encontros com o mundo, bem como lhe dão bases elementares para que consiga desenvolver a faculdade de julgar e aprimorar conhecimentos técnicos para doravante retirar seu sustento a partir do próprio trabalho; as segundas, por sua vez, atuam na produção de novo conhecimento, isto é, produzem ciência em todas as áreas e especificidades, buscando soluções e maneiras de contornar as adversidades com que a sociedade se depara, além de formar profissionais de conhecimento superior que retornarão à sociedade cumprindo um papel específico no quadro social.

Bom seria se o discurso encontrasse fundamentos na prática. Por melhores que sejam os resultados de uma ou outra instituição isolada, nossas críticas ao atual modelo de ensino são várias e encontram seu início justamente nas assertivas sobre o modelo ideal projetado por diretores e governantes. A começar, falemos do modelo de infraestrutura que se apresenta bem como o seu uso. Para que servem os muros e grades das escolas se não para evitar a fuga dos alunos? A necessidade de muros para garantir a permanência de uma criança na escola é um claro sinal que que falhou o projeto sócio-educacional. O monitoramento por câmeras nas dependências das instituições de ensino dão um panorama da constante vigilância a que os indivíduos estão condicionados[1]. Age-se da maneira como se espera, não por uma concordância racional, mas pelo medo da punição que se imputará. Há quem possa objetar que os muros têm a função de evitar que se furte ou deprede o patrimônio da escola e que as câmeras lá estão pelo mesmo motivo. Daí surge um importante ponto a ser debatido: não se incentiva os alunos a pensar? A faculdade crítica e os julgamentos dos encontros com o mundo são desvalorizados em detrimento do aperfeiçoamento técnico? Para rememorar Foucault, constitui-se um sistema de constante vigilância e punição.

Os questionamentos anteriores indicam o caminho que percorre o modelo de ensino estruturado e comungado por todo o país, com exceções em um ou outro canto. Como bem elencou Darcy Ribeiro, a crise da educação brasileira não é um acaso, mas um projeto. Em sinceridade: a quem interessa que os sujeitos questionem as ordens que lhes são dadas e levantem-se contra qualquer imposição? Não forneço uma resposta a esta questão pois é evidente aos olhos do leitor.

Em classe, desde que o indivíduo inicia sua caminhada à concentração, aprende sobre a autoridade do professor, que deve ser obedecido. O grande problema é que não se demonstra a esse aluno o porquê de respeitar seus mestres – e em muitos casos, os próprios educadores não se dão as condições humanas e sociais de serem respeitados.

Em outra seara, observa-se a supervalorização das disciplinas técnicas sobre as de caráter humano e social. A mensagem passada por essa lógica é simples: não se deve pensar, deve-se obedecer. Mesmo com o fracasso do projeto de alfabetização técnica, com apenas 8% dos brasileiros sendo proficientes (de acordo com dados do Instituto Paulo Montenegro), isto é, com capacidade de ler e interpretar textos de diferentes graus de complexidade.

A sub-valorização do educador primário culmina na baixa procura por formação acadêmica que dê o reconhecimento necessário para se trabalhar nos primeiros estágios da formação escolar das crianças, em decorrência, não se exige alto grau de capacidade de abstração para que se atue na área; o resultado dessa política é notado nos marcadores do índice de alfabetização – até mesmo nas universidades, 38% dos estudantes não dominam habilidades básicas de leitura e escrita de acordo com o Inaf.

Deixando de lado a argumentação que todos já conhecem sobre a precariedade das condições de trabalho dos professores brasileiros, tomemos agora a reprodução da estrutura de dominação simbólica promovida pelo professor quando adentra a sala de aula. Tanto no ensino fundamental/médio quanto no superior, percebe-se o ímpeto de muitos professores – não todos, vale frisar que a generalização é perigosa e sempre há aqueles que demonstram seu valor frente às adversidades do cotidiano – em impor aos discentes suas linhas de pesquisa, podendo haver divergência de concepções, mas com a manutenção da linha de pesquisa/ensino. Em muitos casos, indivíduos reativos, que produzem um peso moral sobre o ambiente, impedindo o progresso e a elevação pessoal de seus alunos. À luz de Max Weber (1864-1920), em sua obra Ciência e Política: duas vocações (Cultrix, 1967) tomo o embasamento que nos dias correntes ainda se demonstra muito atual. No caso universitário, Weber adverte que “é possível ser, ao mesmo tempo, eminente cientista e péssimo professor”. O estudioso alemão não poderia estar mais correto. Em muito os professores do meio acadêmico preocupam-se muito mais com seus trabalhos individuais do que com sua responsabilidade didática em comparecer em sala de aula e ofertar ao aluno uma aula que lhe possa servir de base para o próprio desenvolvimento intelectual. É nítido que em boa parte das vezes isso fica longe de ocorrer, tendo em vista que sequer o docente apresenta preparo psicológico para se portar em sala de aula. Urge que se reveja a política adotada com relação aos professores universitários que, em certos casos, acomodam-se em sua condição de titularidade e parecem esquecer que a sociedade está em constante trânsito e que uma aparente baixa frequência sináptica deve ser analisada por um profissional competente antes que prejudique toda a estrutura de ensino e pesquisa. Vale frisar que aqui não se pretende defender o fim dos cargos efetivos em instituições de ensino públicas (muito pelo contrário, há de se levar em conta que é um cargo de suma importância), mas sim que se precisa verificar de maneira efetiva as condições de aula que o docente oferta, muitas vezes encobertado e protegido pela burocracia das instâncias universitárias.

Vale para todas as instâncias de docência a advertência que Weber faz sobre formas de proselitismo político em sala de aula. Para Weber, o docente deve tratar a política de maneira científica, não o cabe fazê-la em classe. É certo que existe todo um aparelho de autoridade que aqui já foi tratado; por esta via, é mister observar que a posição tomada pelo docente será mantida não importa o peso ou a quantidade de argumentos elaborados pelos discentes, uma vez que o professor se encontra blindado pelo aparato institucional da autoridade e faz prevalecer sua opinião sobre a dos demais de forma mesquinha e medíocre. Ao professor cabe, logicamente, apresentar referencias aos seus alunos e mostrar-lhes evidências contraditórias aos seus discursos e, da mesma maneira, contextualizar o aparato teórico apresentado para que o aluno tenha a maior independência possível em sua progressão intelectual. Cabe-nos a observação do próprio Weber sobre o assunto:

Tanto ao profeta quanto ao demagogo cabe dizer: “Vá à rua e fale em público”, o que vale dizer que ele fale em lugar onde possa ser criticado. Numa sala de aula, enfrenta-se o auditório de maneira inteiramente diversa: o professor tem a palavra, mas os estudantes estão condenados ao silêncio. (WEBER. Cultrix, 1967).

Escolas e universidades são ambientes para a convivência e crescimento de diversas linhas de pensamento. É a partir do conflito, da contraposição de ideias que se atinge o crescimento intelectual. Nenhuma inovação científica acontece com zona de conforto e tapinha nas costas.

A lógica de uma “escola sem partido”, é uma gigantesca pantomima. O projeto confunde a discussão e a explanação sobre temas pertinentes à sociedade com doutrinação. Todas as pessoas possuem um arcabouço cultural idiossincrático e é certo que em suas escolhas e modos de agir haverá completo embasamento em algo, mas a ideologia da “escola sem partido” é a de uma escola apática, não crítica, que apenas segue os rumos de um ensino tecnicista e instrumental, que ignora as múltiplas realidades que compõe o espectro cultual e sua única utilidade é fazer prosseguir o modelo de ensino baseado na dominação e subserviência – que é exportado das salas de aula para os demais meios de relação social. Há de se ter em mente que argumentar de acordo com a lógica e fatos não se pode chamar de proselitismo ou qualquer coisa do tipo; demonstrar as intempéries de sistemas absolutistas e afins não é um posicionamento meramente político, mas um posicionamento lógico. Weber bem alerta que ao professor cabe apresentar a necessidade de escolha, a vastidão de nuances que o mundo comporta, mas que não deve deliberar paternalmente pelo aluno.

As instituições de ensino em todos os seus níveis se apresentam como aparelhos ideológicos do Estado – nas instituições superiores há declarada tentativa de fuga desse ornamento; o estudo de filosofia no ensino médio e superior é uma conquista irrevogável que permite questionar o próprio meio em que se insere – e a precarização de infraestrutura e oferta de meios para que se desempenhem trabalhos de excelência. Mas devemos levar em consideração que não é apenas o Estado que falta com suas obrigações, mas os membros do microcosmo do sistema corrompem a si mesmos, seja quais motivações tenham. Há aqueles docentes que se comportam como “enfermeiros superiores”, como nos dirá Nietzsche, que proferem suas palestras e fazem do meio acadêmico local de campanha para a promoção pessoal; e há aqueles alunos que adentram a academia com convicções, que não aceitam a contradição, não estão preparados para o conflito de ideias e sua única ambição é conseguir um diploma pensando que se dará bem no mercado.

Dissemina-se nas escolas e universidades a ideia de que estas servem unicamente para a formação profissional, que o que vale é ser aprovado para que consiga uma vaga no mercado de trabalho. Não à toa multiplicam-se as instituições de ensino privadas, que nada mais fazem além de mercantilizar o conhecimento e pouco criar de novo. Eis que dar bases para refletir tornou-se um empecilho aos que pretendem uma formação rápida e técnica, que vão às instituições não pelo conhecimento, mas pelo diploma. A mesquinhez se reproduz vertiginosamente. “Aprender a pensar: em nossas escolas se perdeu completamente a noção disso.” (Nietzsche. O Crepúsculo dos Ídolos, p.70).

[1] E aqui me refiro às instituições que contam com condições financeiras suficientes para o uso de tais sistemas. Brasil adentro, um sem-número de instituições de ensino não conta com condições básicas de respeito à dignidade humana.

2 de junho de 2018

Por Alexandre Stori Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas

 

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