Histórias de Terra e Céu

A Justiça é do Povo!

Na última segunda-feira (16), estive na Câmara de Vereadores, realizando uma palestra sobre o prédio que abrigou o primeiro Grupo Escolar da cidade e também o Fórum. Já fiz aqui alguns relatos sobre o Grupo Escolar São Matheus, mas você sabe como a escola se tornou Fórum? Embarque comigo nesta história!

Na final da década de 40 o prédio em U na esquina da Dom Pedro II com a Barão do Rio Branco acabou ficando pequeno para o Grupo Escolar. A entidade precisou migrar para outro local, onde funciona até hoje (atual Colégio São Mateus). A situação do Fórum da cidade também era complicada. Conforme um jornal da época: “A instalação da sala de audiências e do júri era desesperadora. Funcionava numa sala emprestada da prefeitura, onde chovia, cujas paredes do edifício estavam borradas pelas frequentes goteiras”. As cadeiras do local “largavam pedaços, tão estragadas que estavam. Não havia gabinete para o Juiz, nem tampouco para a Promotoria Pública”.

No início da década de 50, o Juiz Luiz Silva Albuquerque fez reuniões com o Governador do estado e protocolou um requerimento para que o Fórum fosse transferido para o prédio do Grupo Escolar, que já estava desocupado. Para isso era necessário que fosse feita a reforma e comprado mobiliário novo. Apesar de ter ouvido muitas promessas do governo, o tempo passou e nenhum recurso foi destinado ao Fórum de São Mateus do Sul. E o mesmo aconteceu com fóruns de várias outras cidades, pois o Governo, focado em construir o Centro Cívico, simplesmente cortou os recursos do Judiciário. Houve protestos de juízes em vários locais do Paraná e todas as obras de fóruns foram paralisadas, mas o Juiz de São Mateus optou por uma solução diferente: reuniu a população e expôs o problema.

As palavras do juiz foram registradas em um discurso seu: “Em face da má vontade dos auxiliares do Governo, confessei aos amigos daqui que nada podia fazer…”. Mas os são-mateuenses surpreenderam o dr. Luiz Albuquerque. Iniciaram uma campanha de arrecadação de recursos e, em pouco tempo, o prédio estava reformado e totalmente mobiliado, somente com doações do povo. Os jornais de Curitiba estamparam convites para a “Inauguração das Novas Instalações do Fórum de São Mateus do Sul”, surpreendendo até o governo do estado. O Juiz, por sua vez, ainda mandou um ofício ao Governador, dizendo que não precisava mais da ajuda do estado.

No dia 22 de fevereiro de 1952 o Fórum foi inaugurado, com discursos acalorados alfinetando o governo e exaltando a ação do povo de São Mateus que “escreveu uma belíssima página de civismo (…) graças às doações e contribuições de tanta gente generosa”, segundo palavras do próprio juiz. Outro orador da cerimônia, Manoel Cunha Bittencourt, ressaltou que o povo “sem qualquer cor política, colocou-se ao lado deste Juízo e hoje São Mateus do Sul goza a primazia de possuir um fórum original, luxuoso e melhor equipado do que o de Ponta Grossa, Paranaguá, Rio Negro, Lapa, Palmeira, Irati, Mallet, São João do Triunfo e Morretes”.

A festa de inauguração foi concluída no dia seguinte, com um casamento comunitário no fórum. Nove casais realizaram sua união civil na presença do Juiz Luiz Albuquerque. A foto que ilustra essa coluna foi tirada no dia da inauguração, mostrando as instalações e o mobiliário, mais uma prova da força do povo de São Mateus.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza

Gerson Cesar Souza

Gerson Cesar Souza atua de forma amadora como astrônomo e historiador. É sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul. Autor dos livros A Estrela de Jacó e O Imortal Coronel Bodziak, que resgatam a história da imigração polonesa em nosso município, e redator do projeto Dois Minutos de História.
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