Reinaldo Cardoso ao lado dos tratores produzidos com pneus que não teriam mais utilização. (Fotos: Éber Deina/Gazeta Informativa)

A vida apresenta algumas situações que nos fazem rever nossas práticas e comportamentos. Muitas vezes essa guinada ocorre em função de eventos os quais não podemos optar pela desistência ou pelo sofrimento, mas apenas senti-los e buscar a melhor maneira de seguir em frente. O câncer é uma doença cada vez mais presente no cotidiano e o senso comum muitas vezes estabelece que os pacientes estão sujeitos à condenação de não desenvolverem as atividades de sobrevivência e convivência no dia a dia. A história de Reinaldo Cardoso é um belo exemplo dos diferentes prismas que mesmo as adversidades podem oferecer.

Reinaldo é natural do município de São Mateus do Sul, residindo na região interiorana, mais precisamente na comunidade do Mourão. Ele tem 45 anos e assim como grande parte das pessoas que vivem no interior, dedicou sua vida ao cultivo da terra e às atividades agrícolas. Na região, o plantio de fumo é uma das práticas mais empregadas, em função do valor de mercado em comparação às demais culturas. A vida de Reinaldo prosseguiu normalmente até 2016, quando a descoberta de um câncer o fez mudar suas perspectivas. Ele acabou encontrando na arte uma maneira de seguir adiante.

A descoberta da doença

Após a realização de exames em função de sentir um grande mal-estar enquanto conduzia suas atividades diárias, Reinaldo descobriu que estava portando um câncer na região da cabeça. “Eu trabalhava normalmente e além de cultivar fumo também mexia com mudas de erva-mate em função da experiência que adquiri na área ao longo da vida. Quando descobri o câncer meu mundo desabou e o tratamento me debilitou bastante”, ele recorda.

A doença se desenvolveu rapidamente e Reinaldo acabou perdendo a visão de um dos olhos e também adquiriu complicações em decorrência do alastramento das células cancerígenas. O câncer acabou se espalhando até a região da garganta. “Passei pelas sessões de quimioterapia e precisei utilizar um colírio especial para os olhos. Perdi muito peso e cheguei a ficar com 45 kg. Além disso me sentia muito deprimido pois não podia me expor ao sol e conduzir as tarefas de agricultura que sustentavam minha família”, comentou ele.

Superando os obstáculos através da arte

Apesar do sofrimento e da rotina de quimioterapias, Reinaldo se recuperou e conseguiu enfrentar as adversidades, seguindo no convívio com os familiares e as pessoas que ama. A descoberta e a superação da doença também marcaram um novo recomeço para ele. “Quando os médicos me comunicaram que eu não poderia mais me expor ao sol com tanta frequência e que as atividades agrícolas seriam pesadas demais para mim, passei por um longo período em que ficava trancado no meu quarto, completamente depressivo. O apoio da minha família foi a maior força que encontrei para aos poucos seguir adiante”, relembra ele.

Os objetos produzidos com pneus também podem se transformar em vasos para diversos tipos de plantas.

Após esse primeiro momento de reclusão, Reinaldo passou a aceitar com maior tranquilidade as mudanças propostas pela vida. Um dia ao observar seu depósito de ferramentas, lhe acorreu a ideia de produzir artesanato com os pneus que estavam em desuso e armazenados no local. Isso marcou o início de uma nova atividade que hoje lhe proporciona se sentir mais colaborador com aquelas pessoas que ele ama. “Tive a ideia de começar a produzir uma série de artesanatos com os pneus que não poderiam ser utilizados mais. A arte surgiu na minha vida de maneira inesperada, mas foi muito importante porque passei a ocupar mais o tempo e a mente, além de vender meus produtos e contribuir para a sobrevivência dos meus familiares”, afirmou ele.

A produção dos artefatos

O processo de montagem das artes leva em torno de três dias e meio. Hoje em dia ele também utiliza outras matérias-primas, como os purungos. Reinaldo opera várias ferramentas de corte para produzi-las, como o machado e lixadeiras. Além disso, ele também ressalta os cuidados que toma para que os artefatos não acumulem água parada. “Tomo todos os cuidados necessários e furo os pneus para que eles não armazenem água e sirvam de foco para o mosquito da dengue. Quando necessário também os preencho com areia e faço uma pintura especial”, salienta ele.

A arte, além de um ofício, é também uma ferramenta de transformação da realidade das pessoas. “Muita gente já me ajudou e comprou as coisas que produzo com muito amor. O artesanato demanda criatividade e aprimoramento, isso também me faz muito bem para continuar vivendo a vida normalmente. Uma doença não representa necessariamente o fim, mas pode significar um novo começo”, ele aponta. Reinaldo segue feliz com esse caminho diferente que adotou. Seus serviços de artesanato podem ser solicitados através do seu telefone pessoal (42) 98803-3693.

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