Não é fácil afirmar qual seria a mais antiga imagem de nossa cidade. Temos relatos de viajantes com equipamentos fotográficos em 1892… Temos fotos mostrando imigrantes em 1895… Mas sempre ficamos na dúvida: haveria algum registro anterior? E essa dúvida aguçou ainda mais minha curiosidade ao descobrir um relato que sugere a existência de uma imagem anterior à imigração polonesa, “retratando” nossa terra há mais de 140 anos… Embarque comigo nessa história!

Costumamos contar a história da colonização em São Mateus a partir da chegada de Rodolfo Wolff, em 1885, com a posterior imigração espanhola, alemã e tcheca (início de 1890) e finalmente o grande contingente polonês (a partir de novembro de 1890). Mas a verdade é que nossas terras presenciaram uma tentativa anterior de colonização: a Kittolândia. Através do decreto 5.271 de 26 de abril de 1873, o imperador Dom Pedro II autorizava o inglês Charles Kitto a criar uma colônia para imigrantes da Inglaterra. As terras recebidas por Kitto, às margens do Iguaçu, cobriam a região que vinha de Porto Amazonas até São Mateus do Sul. Mas um mapa da Kittolândia, de 1876, mostra claramente o rio Iguaçu, e os ribeirões da “Canoa”, “Cachoeira” e “Emboque”, além do “Caminho de S. Matheus”, deixando claro tratar-se da futura colônia São Matheus.

As propagandas da Kittolândia publicadas nos jornais ingleses diziam ser “um novo assentamento inglês na província do Paraná, no Sul do Brasil, no qual mecânicos, trabalhadores agrícolas e outros podem, por fim, esperar encontrar aquela súbita riqueza e felicidade sem nuvens que douram os devaneios das almas simples” (Fonte: The Spectator, 1876). Temos os registros de vários imigrantes que acreditaram nestas propagandas, como William Rodboard, Benjamim West, Richard Palmer entre outros… Entre estes colonos, havia um capitão da marinha inglesa, chamado Haughton Forrest. Nascido na França em dezembro de 1826, Haughton era de família inglesa e adquiriu 24 hectares na Colônia Kitto. Embarcou para nossas terras em novembro de 1875, mas passou apenas dois meses aqui, o bastante para ver que as promessas eram totalmente falsas.

Haughton (foto desta coluna) voltou para a Inglaterra e, na sequência, acabou imigrando com a família para a Austrália. Homem de grande cultura, fluente em inglês, francês, português e alemão, o Capitão Haughton era mestre na arte da pintura. Seus quadros conquistaram fama mundial, sendo reconhecido com um dos principais pintores da Austrália, pátria na qual faleceu em 20 de janeiro de 1925.

Não sabemos ao certo como a curta experiência nas terras são-mateuenses ficou gravada na lembrança deste gênio. Mas chama a atenção o fato de que, no catálogo de suas obras, há uma que ele nominou como “Brazilian Scene”. A tal “cena brasileira” é um óleo sobre tela, de 21×15, que atualmente encontra-se na Austrália, na coleção de Geoffrey Garrott, um dos biógrafos de Haughton Forrest. Ela foi pintada em 1876, exatamente quando Forrest estava em nossas terras… Seria ela a mais antiga imagem de São Mateus?

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza

Gerson Cesar Souza

Gerson Cesar Souza atua de forma amadora como astrônomo e historiador. É sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul. Autor dos livros A Estrela de Jacó e O Imortal Coronel Bodziak, que resgatam a história da imigração polonesa em nosso município, e redator do projeto Dois Minutos de História.
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