Gosto de abrir a porta da sala de casa e sentir o calor que vem de dentro. Não é só o calor do fogão a lenha, mas sim do coração das pessoas que vivem aqui. Em época de inverno é até engraçado a disputa para sentar na cadeira ao lado do fogão – e pode se sentir privilegiado quem também consegue o lugar na caixa de lenha.

O pinhão na chapa e o barulho da água fervendo na chaleira é a deixa para a hora de passar mais um bule de café; e o som do cachorro lá fora é o anúncio que algum familiar ou amigo está chegando para também se aquecer dos corações quentinhos.

Mesmo com uma dorzinha de cabeça aqui, ou um desconforto nas juntas nos dias de muito frio, a minha avó não consegue dizer não para os pedidos dos netos ou dos primos que vêm de fora. Ela busca a bacia, enche de trigo, ovo e – saiba lá o que mais –, para fazer os famosos bolinhos “pançudos”, que é especiaria da casa. É claro que acontece aquelas famosas fotos e vídeos para deixar todos com vontade no grupo de família. “Que dó do pessoal de fora, vão ficar ‘triste’ com essas fotos”, sempre diz a minha avó, que mesmo com o coração apertado por ter alguns filhos e netos morando fora, ainda faz pose para as fotos.

Com tantas fatalidades dos últimos dias – a morte do Seu Ferraz, da jovem e crianças no carro submerso na água e do médico Antônio Carlos –, parei para pensar na importância das memórias. Imagina só quantas histórias e momentos em volta ao fogão a lenha o Seu Ferraz e seus filhos e netos viveram? Fico triste em pensar que as crianças que faleceram não terão a oportunidade de apreciar dias como esse. Dói o meu coração escrever um texto como esse, mas me sentiria culpada se não compartilhasse com vocês isso tudo.

Às vezes esquecemos quem está do nosso lado né? Eu sei, eu também faço isso. Mas percebo que – infelizmente – é preciso acontecer tragédias como essas, envolvendo pessoas cheias de vida, para nos darmos conta do quão inesperada é a nossa própria vida. Aproveite sua família e quem você ama! Abrace, beije, compartilhe histórias e aprenda a fazer aquela famosa receita da sua avó. Somos e construímos memórias.

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