Prismas

A modernização das ordálias

(Imagem Ilustrativa)

Acredito que muitos já tiveram a oportunidade de assistir a um quadro do Fantástico, revista semanal da Rede Globo, que parece uma brincadeira inocente: o Detetive Virtual. Nele, telespectadores enviam vídeos estranhos ou curiosos e se tenta descobrir se são verdadeiros. Sempre com a ajuda de um especialista se busca a “verdade”.

Hoje, os vídeos, imagens e textos multiplicam-se rapidamente nas redes sociais e nem sempre retratam a realidade e estão longe de ser um simples divertimento, pois muitos conseguem influenciar pessoas, decidindo até eleições de um país, teoricamente, menos vulnerável como os EUA.

Como encontrar a verdade? A humanidade tem tentado isso ao longo dos séculos, sem sucesso. A mentira tenta parecer verossímil e encontra formas de disfarce. A disseminação de boatos e mentiras busca vantagem estratégica para quem as cria. As facilidades oferecidas pela Internet acentuam este problema e há uma ansiedade muito grande em compartilhar informações das quais não temos segurança quanto a fonte, aí nos apressamos, temos como verdadeiras e as compartilhamos.

Segundo Demi Getschko, um dos pioneiros da Internet no Brasil, nossa época batizada de “sociedade da informação” poderia ser melhor retratada como a “sociedade do ruído”. No exemplo dado por ele, nos equipamentos de som, se mede a relação sinal/ruído como um dos indicadores para se avaliar a qualidade acústica. Qual seria a relação sinal/ruído da Internet? Como seria possível diminuir os efeitos dos ruídos de uma mentira e melhorar a qualidade das informações veiculadas?

Getschko apresenta algumas alternativas: impedir que surja; detectá-la rapidamente e removê-la; tornar o receptor menos suscetível a ela. Eu também fico com a última, como a de maior eficácia.

Para as outras alternativas, tentando a redução dos efeitos de uma mentira, precisaríamos encontrar um meio de detectá-la, de forma neutra. Também se pressupõe que haja uma verdade conhecida para ser usada com o parâmetro, porém há o risco de que seja uma versão “higienizada” da verdade. Outro ponto a considerar é de que, segundo Nietzsche “as convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras”.

Alguns poderiam sugerir, nesta época de intolerância exacerbada, que voltássemos a utilizar os ordálios, similares aos praticados na idade média, quem sabe agora digitais.

Ordálios ou ordálias, também conhecidos como juízo de Deus, eram a prova judiciária usada para determinar a culpa ou a inocência do acusado. Ocorria por meio da participação de elementos da natureza. O acusado se submetia a um desafio, para que ele provasse sua inocência. Se fosse inocente, Deus intercederia como em um milagre e a pessoa não sofreria as consequências do desafio imposto.

Assim, por exemplo, pessoas seguravam brasas nas mãos ou colocavam suas mãos em água fervente e se, depois de algum tempo, as feridas começassem a cicatrizar eram inocentes, senão, culpadas. Também pessoas eram amarradas e jogadas em lagos e se flutuassem eram culpadas, pois a água, pura, não as aceitava.

Numa versão digital do ordálio, não seria mais o fogo, mas um programa que examinaria a afirmação, decidindo sobre sua veracidade, aplicando filtros ou algo parecido.

Quem hoje consegue pôr a mão no fogo por uma notícia veiculada? Da mesma forma, quem arriscaria a mão no fogo por um ordálio digital?

As habilidades humanas, o senso crítico, alicerçado numa boa formação me parecem continuar indispensáveis para o discernimento.

Adnelson Borges de Campos
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