Jornal de São Mateus do Sul (PR) e região

A originalidade da arquitetura são-mateuense – Parte IV

A casa protagonista dessa semana antes era situada em outra localização. (Fotos: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

No decorrer de nossa linha especial de reportagens sobre a arquitetura são-mateuense, nos deparamos com um resgate histórico do início das residências de madeira no município, mais precisamente nas obras do começo do século XX. As grandes construções remetiam ao poder aquisitivo de seus proprietários, e com essas peculiaridades, o estilo se torna destaque pelas ruas até os dias de hoje.

Algo de grande importância para o estilo da arquitetura trazida pelos imigrantes são os lambrequins, recortes de madeira decorados, sempre encontrados na parte de cima das casas. De acordo com a história, com a vinda dos novos moradores para o sul brasileiro, a abundância de árvores como pinheiros e imbuias permitiam a fabricação dessas decorações típicas.

Mas você sabia que o lambrequim também é considerado um importante símbolo de proteção? Segundo a pesquisadora Luciana do Rocio Mallon, existia uma lenda que incentivava a produção desse tipo de ornamento. Acompanhe a lenda:

“Eslovenka era uma velha curandeira medieval da Europa, que morava no meio da floresta e fazia o bem para muitas pessoas do povo. Um certo dia, um conde invejoso resolveu acusá-la de bruxaria e os guardas foram procurá-la. Porém, apareceu um anjo na casa desta mulher e disse que para tornar sua casa invisível contra os inimigos, ela devia colocar proteções decoradas nas beiras da sua residência. Assim, ele ensinou esta curandeira a fazer lambrequins de madeira. Depois que Eslovenka colocou estes enfeites na sua casa, ela ficou invisível para os seus inimigos que queriam queimá-la pela falsa acusação de bruxaria.

Então, a partir daquele dia, esta curandeira ensinou as pessoas a fazerem lambrequins nas suas casas para se protegerem dos inimigos”, conta a lenda.

É perceptível então que alguns lambrequins também formam em seus desenhos e recortes as imagens de objetivos angelicais.

A “Toca do Tio”

Quem transita pela movimentada Rua Tenente Max Wolff Filho e percebe a agilidade de pessoas entrando e saindo de lojas, bancos e restaurantes, não deve parar para imaginar como era essa realidade no século passado. Hoje contaremos a história da casa que foi construída primeiramente nessa localização, mas que hoje está situada na Rua Guilherme Kantor, ao lado do Batalhão da Polícia Militar. Os lambrequins também estão presentes nessa casa!

Imagem feita da “Toca do Tio”, local de origem da casa que atualmente está localizada ao lado do Batalhão da Polícia Militar. Antes a casa estava situada na Rua Tenente Max Wolff Filho, terreno do atual Mercado Móveis. (Foto: Acervo Ademir Gonçalves Rocha)

A casa alta e espaçosa, hoje de cor bege, passou por muitas histórias e pessoas que compartilharam de momentos importantes em seu interior. Vamos relembrar um pouquinho sobre a antiga república “Toca do Tio”, que abrigou na residência novos moradores para São Mateus do Sul.

De acordo com Ademir Gonçalves Rocha, presidente da “Toca do Tio”, a locação da casa como república iniciou nos anos 70. Natural de uma cidade do interior de São Paulo, um de seus primeiros contatos com o espaço foi no dia 5 de agosto de 1971. “Existiam muitas repúblicas que abrigavam pessoas vindas de outras cidades para trabalhar na Petrobras aqui em São Mateus”, diz. Mas por que o nome “Toca do Tio” para identificar essa república? Isso tudo faz referência com o morador mais velho do local. “Morávamos em seis pessoas, e a maioria dos homens da casa eram jovens, mas existia o Adroaldo Pinto Âncora da Luz, o morador mais velho que apelidávamos de ‘tio’, por isso o tome ‘Toca do Tio’”, explica Ademir.

Antes localizada onde hoje encontra-se o Mercado Móveis, a casa era da cor verde, com acabamento de madeira nos portões. Os homens da “Toca do Tio” conviviam com amigos e realizavam confraternizações entre eles no interior da casa. Cada morador tinha um quarto específico e era responsável pela mobília do espaço. “Foram épocas de muitas histórias dentro daquela casa”, afirma. Os anos se passaram, e alguns moradores da república foram embora do município. “Mas eu casei e me aposentei nessa cidade”, diz Rocha.

Para José Nelson Chaves de Souza, que ajudou na mudança da casa para a atual localização, quando ele era criança, sempre tinha a curiosidade de conhecer a casa por dentro. “Tinha uma mercearia na esquina, e sempre que eu passava por aquele caminho para fazer compras, ficava admirando a casa”, relembra.

A atualidade da casa

“Quando meus familiares vieram visitar a casa depois de nossa mudança, eles disseram que se sentiram como uma formiguinha aqui dentro”, comenta Silvia Ap. Teixeira Araszewski, nova proprietária da famosa residência. Silvia e seu esposo Luis Carlos Macuco Araszewski, recepcionaram a equipe da Gazeta Informativa, e contaram como foi o primeiro contato com a casa.

O casal morou fora do município por alguns anos, e no final de 2016, estavam procurando uma nova casa localizada na área central. “Confesso que eu nunca me interessei em morar nessa casa. Passávamos por aqui e sempre observávamos a placa de vende-se. Eu me recusava a entrar”, diz Silvia. Até que um dia uma amiga da família decidiu apresentar o espaço para o casal. “Quando entrei aqui tive o sentimento que essa casa foi feita para mim! Ela foi construída do jeitinho que eu sempre imaginei!”, afirma. Antes da compra, a residência pertencia a família Krinski.

Ambientes amplos, lambrequins e janelas com detalhes que hoje são difíceis de serem feitos se unem ao aconchego de uma família que encontrou o seu lugar especial para viver. “Sempre fui apaixonada por coisas antigas, então sempre buscamos trazer essa nossa paixão para a casa”, admite Silvia. Após passar por algumas reformas por questão de segurança, a proprietária admite que tem vontade de voltar ainda mais com a originalidade da obra.

Cláudia Burdzinski

Cláudia Burdzinski

Estudante de Jornalismo que adora escrever e conhecer um pouco sobre a vida e a história de cada pessoa envolvida. Preza pela essência que é repassada na produção de cada matéria, valoriza os pequenos gestos e apoia o ativismo ambiental. E-mail para contato: claudia@gazetainformativa.com.br
Cláudia Burdzinski
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