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A participação de São Mateus do Sul na Guerra do Contestado (1912-1916) – Parte II

José Maria, Monge do Contestado. (Imagem Ilustrativa)

Apesar de São Mateus do Sul não ter atuado diretamente na Guerra do Contestado, ou seja, não houve aqui, na nossa cidade, nenhuma batalha e nenhum conflito armado, sem dúvida alguma, diante da importância que a revolta teve, muitas influências do conflito ecoaram na história local. Exemplo disto, é a figura do Monge José Maria, líder religioso dos sertanejos. O monge foi a personagem que caracterizou o Contestado como uma guerra messiânica, ele foi o sucessor do Monge João Maria, denominado por seus devotos, como São João Maria. Seus seguidores o consideravam um profeta e santo, e nos dias atuais, persiste a devoção e milagres atribuídos à sua figura, cercada de histórias e polêmicas. Quem nunca ouviu falar deles em São Mateus, principalmente pelos entes mais velhos da família? A história destes dois se confundem, e por vezes, eles acabam virando a mesma pessoa. Conta-se que São João Maria passou pela nossa cidade, e dizem que há, nesses locais de sua passagem, cruzes que ele mesmo colocou.

Ainda sobre esse contexto, apesar de São Mateus não ter sido um reduto de fuga para os caboclos do Contestado, a cidade fez parte das linhas de comunicação que os sertanejos, revoltosos contra os desmandos dos coronéis, utilizavam para se organizar. O tropeirismo, também demarcou o local, os faxinais de São Mateus e região, alimentavam o sistema tropeiro com a criação de porco crioulo, portanto, muitos tropeiros passavam pela cidade ou aos arredores dela, vindos ou indo em direção ao Contestado. Ainda no viés econômico, não esqueçamos que nessa época, os barcos a vapor eram um dos principais meios de transporte de cargas e pessoas no vale do Iguaçu, e São Mateus fazia parte dessa rota hidroviária. O coronelismo, poder político concentrado nas mãos de uma elite agrária, foi um dos fatores que promoveu a guerra do Contestado, tal componente, era também característico na nossa região. Ou seja, apesar de não fazer parte diretamente da guerra, tais elementos que a circundavam, faziam parte também do contexto histórico do nosso município. Histórias sobre a luta armada iam e vinham a todo momento.

Contudo, há alguns dias atrás, fui contatada pelo João Felipe, bisneto do senhor João Baptista Pinheiro, que residiu na região do Turvo, e produzia erva-mate por lá. O senhor João, falecido há 50 anos atrás, contava à sua família, que participou da Guerra do Contestado, e que nessa participação foi designado para lutar nas tropas governistas. O que faz muito sentido, uma vez que, como pequeno produtor, temia o fato dos sertanejos invadirem suas terras. Ele dizia ainda, que alguns entes de sua família, acabaram lutando ao lado do Monge José Maria. O que também nos faz pensar na projeção que a imagem do monge tinha, a ponto de pessoas da mesma família, lutarem de lados opostos. Pois, a pobreza, as desigualdades sociais e o poderio dos coronéis locais, faziam que com esse tipo de liderança religiosa, fosse a única esperança para caboclos, sertanejos, sujeitos à margem da sociedade junto à população menos favorecida. Tal fato, demonstra a importância de se conhecer a história do Contestado e a história local. Pois muitos problemas sociais da época, persistem na nossa sociedade. Hoje vou ficando por aqui, deixando um agradecimento especial a todos que colaboraram com essa coluna, em especial a geógrafa Drª Alcimara Foetsch e ao estudante João Felipe Pinheiro. Até a próxima viagem pessoal!

Jéssica Kotrik Reis Franco
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