Reflexão com Padre Marcelo S. de Lara

A Pobreza que nos enobrece

Imagem Ilustrativa

Imagem Ilustrativa

Estamos longe de sermos pessoas melhores, de transformarmos o mundo em um lugar melhor para viver, de melhorarmos as condições de vida dos menos favorecidos, de sermos pessoas mais livres, felizes e realizadas. Enquanto não nos desprendermos de situações, coisas que acrescentamos a nós, mas que na origem não fazem parte de nós, não conseguiremos nos realizar totalmente, porque vivemos e manifestamos, em muitos momentos, aquilo que não somos, mas aquilo que vamos adquirindo ao longo de nossa vida e que vamos sobrepondo ao nosso ser.

Se queremos saber quem somos, devemos sempre nos remeter à nossa origem. É lá que iremos perceber o verdadeiro tratamento que devemos ter com o nosso próximo, por que percebermos que vindo da mesma origem, temos a mesma natureza, somos todos iguais e por isso veríamos o outro como nosso semelhante, porque viemos da mesma origem.

Aquilo que vamos adquirindo na vida, que vamos possuindo: em bens, títulos, cargos, pode nos distanciar do nosso semelhante porque nos nivelamos, nos comparamos uns com os outros. Na verdade, sendo algo externo à nós, aquilo que vamos acrescentando ao nosso ser ao longo da vida deveria servir para ajudar o outro a também se realizar, e não vê-lo como um concorrente à nós. Eis o erro que nos torna infelizes.

As palavras de Jesus, ao ensinar seus discípulos e à cada um de nós, tem o objetivo de nos fazer descobrir nossa natureza original, de nos encaminhar para redescobrirmos a nobreza da nossa igualdade, expressando isto em nossos relacionamentos.

A pobreza do evangelho que Jesus orienta é a expressão autêntica de quando o ser humano descobre um valor maior que os valores externos que vai adquirindo e acumulando ao longo da vida. Segundo o padre Antonio José de Almeida, “[…] a pobreza de Jesus não é a privação de um valor, mas a soma dos valores da sua vida. A pobreza é condição para amar. Quem tem coisas pode dar coisas; quem não tema mais nada, só pode dar a si mesmo. Assim, enquanto não nos tornamos pobres, todo ato de dar pode ser gesto de poder. A pobreza com efeito é a verdade: não somos aquilo que temos, mas o que damos; é só se não temos nada, podemos dar a nós mesmos e ser nós mesmo!” (Subsídio O Pão Nosso de Cada Dia; edição 115; Julho/2015).

Imagem Ilustrativa

Imagem Ilustrativa

No fundo, temos esse sentido guardado dentro de nós, percebemos em vários gestos de solidariedade esta identificação com o nosso próximo. Porém, o “mundo” com sua mentalidade nos empurra para outros rumos, nos faz entrar na onda da competição, da rivalidade, da aparência, da luta pelo lugar de destaque. Certamente há por traz disto uma promessa de felicidade, mas, quem reflete aos menos um pouco sobre sua vida percebe que é uma felicidade que tem um prazo de validade, é passageira e ilusória.

Com suas palavras, sua proposta da “vida boa”, da felicidade que preenche, Jesus nos reorienta para o verdadeiro caminho da vida feliz. O desapego das coisas externas a nós, o não aprisionamento naquilo que adquirimos, a pobreza evangélica é aquela que nos faz olhar para o outro como irmão(ã).

É isto que nos enobrece, é no relacionamento solidário, fraterno que melhor nos realizamos, pois percebemos ali nossa igualdade, nossa origem comum. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27), disse Jesus.

Últimos posts por Pe. Marcelo S. de Lara (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
A Identidade da Igreja
Mobilização política e internet
Semana Santa: expressão do verdadeiro amor