Jornal de São Mateus do Sul (PR) e região

A preservação da história local através de tombamentos

Igreja Centenária, localizada na comunidade de Água Branca. (Foto: PMSMS)

Você já percebeu os detalhes e a arquitetura ainda presente do período da imigração em nosso município? Mesmo hoje, com a maioria das casas sendo de alvenaria, ainda encontramos a presença da arquitetura europeia, trazida pelos imigrantes na época das navegações em São Mateus do Sul.

Lambrequins (recorte de madeira usada na arquitetura, bastante visível em telhados), cores vibrantes, madeiras detalhadas e materiais específicos de construções são características vivas de que por aqui, os primeiros habitantes se preocuparam com a estética e beleza do nosso município.

Usada também para relembrar o país de origem, essas peculiaridades empregadas na hora de construir, juntamente com o clima frio, remetiam o passado e também ao cotidiano no exterior.

Pensando em manter viva essas construções, e principalmente, garantir a conservação desses pontos que fizeram parte da história de São Mateus do Sul, no ano de 1995, foi criada a Lei nº 1120/95, que estabelece normas para o tombamento de bens, móveis e imóveis de interesse histórico, cultural e ambiental em nosso município.

Aprovada por Argos Fayad, prefeito da época, a lei reforça em seu artigo 6º, que em nenhuma circunstância o bem tombado poderá ser destruído, demolido, mutilado ou modificado.

O município poderá tombar, total ou parcialmente, imóveis de propriedades privadas ou públicas existentes em seu território. Os pontos que são levados em consideração são o valor histórico, cultural, artístico, arquitetônico, documental, bibliográfico, religioso, urbanístico, museográfico, topomínico, ecológico e hídrico, que ficam sob a especial proteção municipal.

Algo que merece destaque, é que os bens tombados não passam a pertencer para a Prefeitura Municipal. Os proprietários do imóvel são notificados com toda documentação necessária para o tombamento. Eles terão o prazo de quinze dias para manifestar a liberação, ou não, do ato. Para o tombamento de lugares públicos, quem responde pelo local é o Prefeito da cidade.

Se o imóvel privado for vendido posteriormente, os novos proprietários recebem a notificação de que o local é tombado pelo município, e toda e qualquer restauração deverá ser notificada a Prefeitura Municipal.

O artigo 7º destaca que todo bem tombado só poderá ser reparado, pintado ou restaurado com prévia autorização do órgão municipal, que repassará a orientação necessária para o restauro.

Caso isso não aconteça, o proprietário será multado pelo descumprimento das obrigações previstas na lei. A multa varia de acordo com as medidas que foram tomadas pelos arrendadores.

Mas afinal, reformar é restaurar?

A Gazeta Informativa entrou em contato com Ricardo Guth, arquiteto da Prefeitura Municipal de São Mateus do Sul, que esclareceu algumas dúvidas sobre essas duas medidas usadas na arquitetura: a reforma e o restauro.

Segundo Ricardo, é bastante comum essa confusão entre os dois termos e a sua prática. “Pode-se dizer que a diferença básica entre ambos, reside nos valores culturais, sociais e históricos que aquele espaço desempenha”, destaca.

Ricardo explica que a reforma, trata de uma intervenção em um espaço que não apresenta tais valores, portanto, não “conta uma história” para a população.

O restauro, por sua vez, conta com diretrizes que querem, e devem preservar essas características, pois naquele espaço, (entenda o espaço como uma série de construções, não somente edifícios, mas também, praças, monumentos, conjuntos de fachadas, etc.), aconteceram eventos, ou foram construídos com materiais que hoje em dia não se encontram mais.

“Um espaço que merece ser restaurado, ‘conta uma história’, desde seus métodos construtivos até o seu uso”, informa o arquiteto. Ele específica que deve-se levar em consideração uma gama de fatores na hora de realizar um restauro, e destaca que o único profissional que tem competência para fazer o projeto de restauro arquitetônico ou intervenção, é o arquiteto.

Na hora do restauro, precisa existir o cuidado para que a intervenção não interfira negativamente na estrutura original do espaço. “Uma das principais intenções do restauro é proporcionar a evidência entre as diferentes épocas, valorizando assim a história do período em que o espaço foi construído, contrapondo-se à intervenção atual.”

Espaços tombados pela Prefeitura Municipal de São Mateus do Sul

Carvalho do Umbenau que ficava localizado na Praça do Carvalho, ao lado da Prefeitura. (Acervo Casa da Memória)

No município existem 7 pontos arquitetônicos, ambientais e religiosos tombados. A Gazeta Informativa entrou em contato com Dalva Vaz de Almeida, diretora cultural da Fundação Cultural de São Mateus do Sul, que disponibilizou a listagem completa de todos os espaços já tombados pelo município. Confira:

Carvalho do Umbenau, um símbolo da imigração polonesa de São Mateus do Sul, que ficava localizado na Praça do Carvalho, ao lado da Prefeitura. A árvore morreu por causas naturais em 2011, mas permanece na listagem de tombamentos do município.

Igreja Centenária localizada na comunidade de Água Branca. A igreja foi construída por imigrantes poloneses e possui uma grande representatividade para a cultura polonesa local.

Igreja Centenária, localizada na comunidade de Água Branca. (Foto: Divulgação)

Cruz dos Pica-paus e Maragatos, localizada na comunidade do Rosas. Ela possui um valor histórico durante a Revolução Federalista (1893 – 1894). Na ocasião do episódio, morreram 40 homens que foram sepultados naquela localidade. A população demarcou o espaço com uma cruz para homenagear o acontecimento.

Cruz dos Pica-paus e Maragatos, localizada na comunidade do Rosas. (Foto: Hilda Jocele Digner)

Cruz de Imbuia construída por motivos religiosos em 1899 por João Bugay, imigrante austríaco. A cruz está localizada na Colônia Taquaral.

Cruz de Imbuia que fica localizada na Colônia Taquaral. (Foto: Hilda Jocele Digner)

Imóvel em madeira, estilo europeu, localizado na Rua Barão do Rio Branco, 150. Ela foi construída em 1902, e hoje pertence a Rui Eduardo de Paula e Silva.

Imóvel de arquitetura europeia em madeira, localizado na Rua Paulino Vaz da Silva, 324. Pertence a herdeiros da família Walter.

Imóvel de madeira, localizado na Rua Paulino Vaz da Silva esquina com a Rua Doutor Paulo Fortes, 409. Trata-se de uma casa estilo colonial tendo como primeiros moradores a família Amaral.

Essa residência possui o tombamento apenas de sua fachada, e atualmente ela passa por reformas internas, liberadas de acordo com a lei. Segundo os atuais proprietários, Sonia Drozda e Rodrigo Golombieski Siben, desde sua inicial construção, o imóvel sofreu com o tempo algumas alterações, e após a família ter deixado de utiliza-la para moradia, o imóvel passou a ser locado para vários pontos comerciais, entre escritório de contabilidade, restaurante, escola infantil, etc., até que por fim foi locado ao Município de São Mateus do Sul, para sediar a Biblioteca Municipal, que lá permaneceu desde abril de 2013.

Após tramitação legal, os atuais proprietários adquiriram o imóvel, e planejam montar seu escritório de advocacia no espaço. A aquisição do local se deu pelo apreço do casal por casas antigas e pela importância do patrimônio histórico para o município.

Atualmente, a reforma interna está sendo efetuada por conta de infiltrações e pragas indesejadas, mas Sonia e Rodrigo garantem que a propriedade e sua fachada estão sendo preservadas de acordo com seu valor histórico não só como patrimônio cultural polonês de São Mateus do Sul, mas também do estado do Paraná.

Imóvel em madeira, localizado na Rua Barão do Rio Branco, 150. (Foto: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Imóvel de arquitetura europeia em madeira (Foto: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Imóvel de madeira, localizado na Rua Paulino Vaz da Silva esquina com a Rua Doutor Paulo Fortes, 409. Atualmente está passando por reformas internas. (Foto: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Cláudia Burdzinski

Cláudia Burdzinski

Estudante de Jornalismo que adora escrever e conhecer um pouco sobre a vida e a história de cada pessoa envolvida. Preza pela essência que é repassada na produção de cada matéria, valoriza os pequenos gestos e apoia o ativismo ambiental. E-mail para contato: claudia@gazetainformativa.com.br
Cláudia Burdzinski
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