Máquina do Tempo

A primeira engenheira negra do Brasil, que foi professora em São Mateus do Sul

– Em homenagem ao Dia da Consciência Negra (20 novembro) –

Em 2016 durante a realização de um trabalho na universidade, deparei-me com a figura de Enedina Alves Marques. Uma mulher, descendente de escravos da área rural paranaense, que exerceu o magistério em São Mateus do Sul. Depois de fazer esta descoberta, contatei meu amigo Gerson de Souza Cardoso, para irmos atrás de registros que atestassem a estada de Enedina em solo são-mateuense. Dando continuidade à pesquisa, o Gerson encontrou fotografias que mostravam Enedina como professora de uma das primeiras escolas de São Mateus. No mês passado, ele escreveu uma coluna aqui no jornal, contando um pouco sobre a trajetória dela, para o leitor que não viu, vou contar um pouco sobre a história dessa mulher singular.

Enedina era filha de um casal de negros provenientes do êxodo rural após a abolição da escravatura em 1888, a família chegou a Curitiba em busca de melhores condições de vida. Ainda na infância, ajudava a mãe nas tarefas domésticas na casa do militar e intelectual republicano Domingos Nascimento em troca de instrução educacional. Foi alfabetizada aos 12 anos e em 1926 ingressou no Instituto de Educação do Paraná, sempre trabalhando como doméstica e babá em casas da elite curitibana para custear seus estudos. Recebeu seu diploma de professora em 1932. Entre 1932 e 1935, Enedina lecionou em várias escolas públicas no interior do Paraná, entre elas, no grupo escolar São Matheus em 1932, atual colégio São Mateus, escola a qual eu estudei boa parte da minha vida escolar.

Contudo, Enedina tinha um sonho, ela queria se tornar engenheira civil. Retornou à Curitiba e com muitas dificuldades, em 1945, se graduou no curso de Engenharia Civil na Universidade do Paraná, atual Universidade Federal do Paraná, local onde atualmente, curso História. Enedina, disciplinada e inteligente, enfrentou todos os obstáculos que uma sociedade no início do século XX apresentava à uma mulher negra e pobre. Nessa época, era destinada às mulheres, principalmente, o papel de dona de casa, no mercado de trabalho tinham poucas opções de escolha, em sua grande maioria empregos em fábricas ou como professoras, com salários abaixo dos salários masculinos. Enedina era a única mulher de sua turma. Vivia em uma sociedade pós abolição, que não instituiu políticas públicas e nem ofertou oportunidades educacionais e profissionais com expectativas de ascensão social à população negra, escravizada durante séculos. Diante de tudo isso, também enfrentou o preconceituoso pela sua cor, vivendo numa região do país com população predominantemente branca de descendência europeia.

Mas tudo isso não fez com que ela desistisse. Enedina se tornou a primeira mulher a obter um curso superior no Estado do Paraná, e a primeira mulher a ser engenheira no Brasil. Como engenheira participou de diversas obras importantes no Estado, como a Usina Capivari-Cachoeira e a construção do Colégio Estadual do Paraná, o qual eu também frequentei quando me mudei para Curitiba. Ela morreu aos 68 anos, e seu túmulo é um dos principais pontos da visita guiada pela pesquisadora Clarissa Grassi no cemitério Municipal de Curitiba. Já foram publicadas reportagens, escrito livros e feito trabalhos acadêmicos e documentários a seu respeito. A nós, são-mateuenses, nos resta os registros fotográficos de sua passagem por aqui, a mim em particular, além de uma admiração pela sua trajetória de vida, uma empatia por estarmos conectadas através de três instituições educacionais. Com certeza, a visitaria se eu tivesse uma máquina do tempo! Hoje, vou ficando por aqui, até a próxima viajem pessoal…

Jéssica Kotrik Reis Franco
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