(Montagem feita em cima de imagem do acervo de Luiz Carlos Kloster)

O baile era improvisado, quase escondido, afinal não é certo que se dance na quaresma. O endereço da festa permanecerá no sigilo das memórias, não porque tenha ocorrido alguma ilegalidade, mas porque os acontecimentos importantes da noite ocorrem na rua, em março de 1983.

A adolescência nos anos 1980 era um pouco diferente. A rede social era construída nas “festas americanas” (aquelas em que cada convidado levava alguma comida ou bebida), saídas de missas, jogos de futebol e bailes e o mais comum era o deslocamento a pé até o local porque eram raros os jovens que possuíam carro.

Às 3 da manhã ele saiu do baile, depois de alguns quilômetros de Vaneirão e muito samba. Não! Ele não dança samba, a referência é a uma bebida preparada basicamente com uma parte de cachaça e um de refrigerante Coca-Cola. Chegar em casa depois da meia noite já “dava ruim” num dia normal, mas na quaresma era gravíssimo. Uma ofensa às tradições religiosas e aos costumes dos mais velhos. Ah os mais velhos e seus costumes sempre tão sem sentido para os mais jovens. Trocam as gerações e isso não muda. O caminho até o lar era longo, talvez 5 km, mas serviria para pensar na desculpa para chegar a essa hora da madruga.

O silêncio na Ozy Mendonça só era quebrado por risadas embriagadas vindas do bar que recebia os boêmios para aquela saideira. Muitos lembrarão desse bar. Passar em frente à banca do Romeu era um vício, ainda que a essa hora obviamente não desse pra olhar a vitrine com o LP lançamento. Nenhum ruído! Pareciam mesmo que essas noites eram pra se ficar em casa. Em frente à “farmácia do seu Barros”, na esquina da Barão com a Paulino Vaz, dava pra ouvir o barulho das bombas da CBR1 (estação de bombeamento de água para a usina de xisto) nas margens do rio Iguaçu, ali no final da rua Guilherme Kantor. Não havia vento e ao entrar na rua David de Paula e Silva era possível ouvir o barulho dos passos no pavimento ecoando lá nas paredes da antiga cooperativa, nessa época já Ervateira São Mateus. Ele não acreditava em assombrações, mas por precaução achou melhor andar mais pelo meio da rua, afinal teria mais espaço caso algo acontecesse. E aconteceu!

Faltavam alguns metros para a Casa Bronze, lugar mágico para meninos que viviam na Vila Amaral pois ali a Dona Marlene e o Sr Egon vendiam peças de bicicleta, material de pesca e carabinas de pressão, artigos de primeira necessidade para piás que habitavam as “beiras” do Rio Iguaçu. Tudo corria bem e agora eram mais uns 15 minutos pra chegar em casa e ouvir o sermão.

Nos fundos da Casa Bronze, enraizado quase na divisa entre o jardim da Linda casa da Dona Marlene e a via pública havia um pessegueiro, já antigo cuja copada se projetava para a rua cobrindo toda a transversal da calçada. A luz do poste de iluminação pública era barrada pelo pessegueiro projetando densa sombra que cobria pelo menos uns 10 metros quadrados. Lá na várzea, no encontro do Rio Canos com o Iguaçu um uivo quebrou o silêncio da noite e o ritmo das passadas do vivente. Parou a 10 metros da esquina da Casa Bronze e ficou imaginado que, pelo uivo, o cachorro não deveria ser pequeno. O susto tomado com o uivo e a sensação de pecado por bailar na quaresma se misturaram instantaneamente. Já não eram mais os passos a serem ouvidos, mas sim a frequência cardíaca nos pulsos da jugular. Os arbustos da praça Paulino Vaz pareciam esconder algo.

Mais um uivo lá barranca do rio, cachorro lazarento porque não vai dormir? Imediatamente, ali na sombra do pessegueiro, outro uivo em resposta ao cachorro! Pernas o abandonaram naquele momento. O contraste entre a luz do poste e a sombra, somado ao efeito do cagaço, não permitiam ver direito. Mai um uvo lá no rio e nova resposta ali. 1,5 metro de altura, silhueta humanoide, uivando na penumbra. Só podia ser o lobisomem! E agora? Voltar e acessar a Vila Amaral lá pela Ulisses Faria seria o mais seguro, mas a distância era longa e quem garantia que o bicho não o emboscaria por lá? Dane-se! Pensou. – Vou pelo outro lado da rua e quando passar em frente corro tanto que esse bicho não vai me alcançar. Mas asa pernas trêmulas não achavam essa uma boa ideia. Foi caminhando sem desgrudar o olho do pessegueiro. Outro uivo e desta vez sincronizado com o início de uma pancada de chuva de verão. A temida criatura, além de responder, dessa vez se movimentou saindo da sombra.

Com o coração saindo pela boca e o cérebro tentando convencer as pernas de que era ele quem mandava, visualizou a criatura…

Era o pintinho. Um rapaz que ganhava a vida vendendo pipoca nas saídas dos bailes e festas da cidade. Talvez pela ociosidade causada pela quaresma ou porque havia bebido demais, ele empacou ali na sombra do pessegueiro e tentava se comunicar com o cachorro.

Já em casa, seguro, contou a história ao pai que, depois de ouvir atentamente disse:

  • E quem te garante que o tal pintinho não é um lobisomem?
Luís Ferraz
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