Na vida, as pessoas muitas vezes enfrentam dificuldades ou passam por situações desconfortáveis. É a essência da existência, momentos de prazer e alegria alternados com situações nas quais as virtudes humanas são exigidas ao máximo. Em muitos momentos adotamos uma postura pessimista com relação ao futuro, sem considerar as consequências que isso carrega. A história de Cláudia Gawlik e sua alegria de viver inspiram uma maneira mais jovial e bem-disposta de seguir em frente.

Nascida em União da Vitória, mas residente em São Mateus do Sul durante a maior parte da vida, Cláudia Gawlik já viveu as mais variadas experiências profissionais no município. Formada em Pedagogia e também em Design de Interiores, já trabalhou com a confecção de doces, floricultura, cerimonial de festas e também na empresa de pneus do marido, Igor. Desde o ano passado, ao lado da irmã, coordena e atua em uma escola voltada ao suporte à crianças e adolescentes com dificuldade de aprendizado. O modelo de aprendizado praticado por ela busca deixar os estudantes mais à vontade. “Trabalhamos numa casa, com cozinha e outros cômodos nos quais o aluno pode circular e se sentir mais confortável para realizar as atividades”, diz Cláudia.

As experiências profissionais vividas por Cláudia sempre foram voltadas para desafiar o seu lado criativo. No ano passado ela descobriu um câncer de mama, que ao contrário do que muitos podem pensar, só serviu para estimular ainda mais suas potencialidades e seu amor pela vida. A postura adotada por ela perante a situação serve de exemplo para as pessoas que enfrentam histórias semelhantes.

A descoberta do Câncer de Mama

A descoberta ocorreu através do exame de toque, cuja realização periódica é muito importante para o diagnóstico da doença. “No começo o câncer assusta, depois que eu descobri os nódulos, comecei a verificar panfletos de propaganda da Rede do Câncer, mas o jeito que ele se apresentou não se encaixava em nenhum dos exemplos”, relembra Cláudia. É um processo de autoconhecimento, como ela destaca. “Mesmo me conhecendo, eu demorei um mês, através do toque, pois ficava na dúvida se era ou não era um nódulo”.

Após constatar que havia um nódulo e que ele poderia representar alguma coisa diferente, Cláudia procurou o obstetra Dr. Luís Antonio Manfroni, que cuidou da gestação de seus dois filhos, Lívia de 5 anos e Max de 1 ano e 9 meses. No dia 11 de maio de 2019, na data de seu aniversário, Cláudia e seus familiares tiraram um dia de folga para passear na capital Curitiba. Ela aproveitou a viagem para realizar uma bateria de exames. “No diagnóstico lá, as enfermeiras se entreolhavam, o que já gerou uma impressão em mim. Quanto a isso eu estava tranquila, afinal tiramos aquele final de semana para passeio e eu saí sem desespero e não falei nada aos meus familiares”, conta Cláudia.

Ao retornar para São Mateus do Sul, o médico responsável analisou os exames e realizou um ultrassom, encontrando dois nódulos não-benignos. Quinze dias depois, ocorreu a primeira cirurgia de retirada desses nódulos, amparada e conduzida por Manfroni. “Toda cirurgia representa um certo medo, mas minha cabeça ativa não parava. Pouco antes de realizar a cirurgia eu ainda estava trabalhando e respondendo mensagens sobre o trabalho”, comenta Cláudia. O processo de recuperação foi tranquilo e os nódulos foram encaminhados para biópsia.

As situações vividas durante o tratamento

O tratamento teve sequência em União da Vitória. Cláudia ressalta que a confiança nos profissionais envolvidos foi muito importante durante o processo. “Eu evitei de pesquisar demais na internet sobre os possíveis significados do meu caso, o excesso de informações desencontradas só faz com que a pessoa fique mais ansiosa sobre as perspectivas da situação”, ressalta ela. Após a realização de uma cirurgia para análise do Linfonodo Sentinela (maneira pela qual se constata se o câncer está se disseminando pelo órgão) se observou que havia risco de irradiação. Uma terceira cirurgia foi realizada para a retirada de todos os linfonodos presentes. “Essa foi uma cirurgia mais debilitante, pois precisei utilizar o dreno durante o pós-operatório”, rememora ela.

Sobre esses momentos difíceis, Cláudia revive a tranquilidade com a qual reagiu. “A parte mais difícil para mim não foi encarar a doença, mas sim as pessoas. No começo meus familiares mais próximos achavam que eu não dava a devida importância para a situação, mas na verdade eu via tudo de uma maneira bem tranquila”, ela observa. O apoio da família foi essencial para que a recuperação ocorresse da melhor forma. “O carinho de mãe é uma coisa que às vezes fica meio adormecida. Eu pude recordar como esse amor é forte e lembrar de cuidados que minha mãe tomou comigo no banho e que hoje eu reproduzo com meus filhos. Esse carinho e cuidado da família são essenciais”, salienta Cláudia.

Em outubro do ano passado, ela iniciou o processo de quimioterapias. “Nessa época muita gente descobriu que eu estava doente, pois não associavam meu comportamento dedicado ao trabalho com o estereótipo de se entregar. O que mais me impressionou foi perceber que a vida não parava, isso não dependia apenas da minha existência ou não.”

O paradigma do cabelo

Ao falar sobre outro paradigma relacionado ao câncer, Cláudia relembra de maneira bem-humorada sobre a queda do cabelo. “Nessa loucura de artesanato, decidi que iria fazer minha peruca, o que até assustou meu marido. Brincávamos sobre diferentes maneiras divertidas de fazer isso, já nessa ideia de desmistificar o fato de ficar careca”, resgata ela. Ela ainda recorda que essa ideia alimentava um sentimento sobre como usar uma peruca pode ser apenas uma satisfação que a sociedade cobra dos pacientes de câncer. Cláudia optou por raspar o cabelo enquanto dava sequência aos procedimentos de quimioterapia. “Muitas pessoas me olhavam com olhar de pena, como se a situação já estivesse concluída e o fim dado como certo”, ela disse. Em contrapartida, o apoio dos familiares e amigos próximos continuou sendo um forte combustível. “Todos os funcionários da empresa do meu marido rasparam o cabelo em solidariedade, o que acabou virando uma grande diversão com um raspando o cabelo do outro”, lembra Cláudia com bom-humor.

Cláudia e seu marido Igor,
a filha Lívia e o filho Max.

As várias mensagens de apoio recebidas também se encontram presentes na memória de Cláudia. “Recebi uma mensagem que dizia para eu não sentir raiva da situação e essa foi uma postura que eu nunca tive. Nunca me revoltei e busquei aprender com os eventos que estavam acontecendo comigo”, evoca ela. O processo de quimioterapias prosseguiu, e algumas alterações no dia-a-dia foram percebidas, como o paladar e o olfato mais aguçados e sensíveis. Apesar disso, Cláudia comemora o fato de não sentido tantas anormalidades o quanto esperava.

A primeira sessão de quimioterapia assustou um pouco, em decorrência do medo gerado pelo desconhecido, que ela ainda recorda. “Antes das primeiras sessões, eu expliquei para minha filha que a mamãe iria tomar um remédio que cai o cabelo. Ela me respondeu dizendo que isso não existia e eu respondi ainda bem que existe, filha! É graças a esse remédio que muitas pessoas podem permanecer vivendo aqui na Terra”, percebe Cláudia. Igor, seu marido e apoiador em todos os momentos, até chegou a comprar uma peruca para ela, mas a o processo de aceitação do novo visual foi bastante importante para que Cláudia se sentisse confiante. “Agora que meu cabelo já cresceu um pouco eu fiz até uns risquinhos nele, estou bem adaptada ao novo visual”.

A energia em prol do bem-estar

Cláudia caminha agora para as duas últimas sessões do tratamento. Ela comenta que sempre foi uma pessoa muito ativa e que de certa forma o câncer pode ter representado um respiro que precisava tomar. “Isso também mudou a maneira com a qual eu vejo as coisas. Hoje se encontro uma pessoa careca na rua, fico feliz e contente pois é um sinal de que está se tratando e prosperando”, ela destaca. “Mesmo levando em conta as peculiaridades de cada caso, as coisas dependem muito da maneira como agimos perante elas. A energia boa que manifestamos serve de alimento, assim como as mensagens e visitas que recebi durante essa caminhada”, ela observa com gratidão.

Quais são os próximos passos? Com alegria e um sorriso gigante no rosto, Cláudia aconselha. “Me concentro em viver cada dia, não pensar em coisas que ainda estão por vir e aproveitar o amor da minha família e dos meus amigos. A vida passa muito rápido para todos, então precisamos nos concentrar no presente e aprender com as situações que a vida oferece”, conclui ela com força e confiança.

Cláudia encerrou as sessões de quimioterapia nesta terça-feira (24). Confira a sua publicação no Facebook:

Hoje foi uma mistura de sentimentos…Encerrei as quimios com chave de ouro…Acabou… fim… mas o sentimento em…

Publicado por Cláudia Gawlik em Terça-feira, 24 de março de 2020

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