(Foto: cfa.org.br)

“A teoria orienta, a estatística prediz, a prática decide!”. Ouvi essa frase em 2008, dita pelo professor Airton Martins, do departamento de química da UFSM, não lembro as palavras com exatidão, mas a ideia é clara e permite variações. A verdade contida nessa frase tão curta é impressionante. Por isso acredito que mereça reflexão sobre o que é dito nela.

Como já comentei no texto “vaccinae”, disponível na homepage do Jornal Gazeta Informativa, a estatística é uma ciência desconhecida para a maioria das pessoas, embora esteja presente no cotidiano de todos. É a única forma eficaz de predição em qualquer área. A estatística não falha. Quando uma previsão estatística não se confirma, o erro foi de quem modelou ou alimentou o modelo estatístico com os dados. Fora do campo da estatística, qualquer previsão é um “chute” e não permite avaliação racional. Fica no campo da superstição ou da religião, cuja discussão é sempre carregada de fé e não de lógica.

Nos anos 1990, Benedicta Finazza, a “mãe Dináh”, ficou nacionalmente famosa quando ficou com os créditos de ter previsto a morte dos integrantes da banda “Mamonas Assassinas” num acidente de avião. Não se falava em outra coisa no Brasil nos primeiros dias após a morte dos artistas no terrível acidente. A autoria da previsão nunca foi realmente comprovada, mas ela se tornou uma celebridade instantaneamente, passando a ser convidada para programas de entrevistas em rádios e TVs. Até hoje, pessoas daquela geração lembram dela e é comum citarem a mãe Dináh quando o assunto é a previsão de alguma coisa. No entanto, são raras as pessoas que lembram que Benedicta previu que Airton Senna ganharia a corrida do grande prêmio de Ímola, na Itália, no dia 1º de maio de 1994. Ele morreu nesse dia ao bater o carro a quase 200km/h contra o muro da curva Tamburello.

Predizer que Airton Senna, o gênio brasileiro das pistas de automobilismo ganharia uma corrida era um chute com chances muito reais de acerto. Ele era tricampeão de Fórmula 1 e famoso por corridas fantásticas, ganhas no talento e no braço. Quem poderia dizer que havia chances reais de ele morrer? A estatística! Na mesma curva Tamburello, Nelson Piquet já havia se acidentado em 1987, e Berger em 1989. Os números indicavam que ali, se não fossem feitas modificações na pista, alguém iria morrer. A Mãe Dináh também previu que Fernando Collor de Melo faria um excelente governo!

Adequar modelos numéricos para representarem realidades futuras não é uma tarefa fácil, pelo contrário, é muito difícil. Requer dados confiáveis, no tempo certo, robustos. Um bom exemplo são as previsões acerca de eleições. As pesquisas vão sendo aperfeiçoadas a cada ano, mas sempre correm riscos de grandes erros, porque não é possível aferir a confiabilidade dos dados. Quando um entrevistador faz uma pesquisa de campo e preenche uma ficha com a intenção de voto de uma pessoa, não tem como saber se ela está sendo sincera nas respostas. Se ela é representativa no grupo em que foi inserida ou se mente dizendo o contrário do que pensa.

É claro que o próprio modelo já deve trabalhar esse fator, mas não é tarefa fácil porque as pessoas são influenciadas diariamente pelas mídias, pela percepção que possuem da vida no país e do conhecimento que possuem sobre os fatos novos ou históricos. É uma predição que precisa de grande número de entrevistas em todas as regiões do país com um custo muito elevado, mas ainda assim, a cada ano os resultados ficam ainda mais confiáveis. Nas últimas eleições para presidente, os modelos erraram ao não considerarem o poder das redes sociais. A informação já existia, mas não foi considerada, embora ainda em julho daquele ano, especialistas já dissessem que a campanha do atual presidente era a única que estava investindo pesado na influência das redes, imitando o que já havia ocorrido nos EUA. Neste ano é esperado que este não seja um fator de erro nas predições.

A teoria orienta? Sim, tudo que programamos para fazer no futuro, próximo ou distante, está de alguma forma baseado em alguma teoria. Ou seja, em toda informação prévia que pudemos obter sobre aquilo. A qualidade dessa informação também precisa ser confiável, no tempo certo, robusta! Se vamos trabalhar numa coisa nova, a primeira providência é consultar toda a teoria de qualidade que pudermos sobre o tema. Basear decisões e/ou opiniões sobre um assunto baseados em teorias mirabolantes obtidas gratuitamente de redes sociais é um dos erros hodiernos mais comuns. É impressionante que hoje, quando temos a informação fácil, barata, acessível a quase todos, as pessoas ainda fazem coisas sem estudar a teoria relacionada ao propósito de suas ações. Não falamos aqui de formação acadêmica, mas de conhecimento essencial, simples e objetivo que pode ser obtido gratuitamente em aulas disponíveis no Youtube. Me tornei um razoável marceneiro assistindo aulas no Youtube e assim economizei mais de 15 mil reais ao fazer os móveis da casa, por isso não aceito que um pedreiro, que vive com celular nas mãos olhando vídeos diversos, não acerte o esquadrejamento de uma edificação. Não é necessário que ele me diga quem foi Pitágoras nem me fale sobre catetos e hipotenusa, mas errar o esquadro por não ter formação acadêmica não é aceitável. Existem centenas de vídeos no Youtube mostrando diversas formas de aferição do esquadro.

A prática decide? Sim, somente a prática encerra o assunto. Depois que um modelo matemático predisse o que iria acontecer, baseado em dados obtidos com orientação da teoria sobre um assunto, a prática vai decidir. Um exemplo sensacional disso é a atual vacinação para prevenção contra Covid 19. As teorias de conspiração que alimentaram o imaginário popular e geraram calorosas discussões não se confirmaram na prática. Já são bilhões de doses aplicadas ao redor do mundo, inclusive em milhões de crianças e não tivemos reações adversas importantes. Pelo contrário, a pandemia está sendo vencida exatamente como a teoria dos infectologistas fundamentou e a estatística previu. Além disso, em nosso país, o número de mortos por Covid se aproxima de 700 mil pessoas, valor muito próximo de um milhão, como indicava o modelo citado pelo infectologista Atila Iamarino, lá no início da pandemia. Lembro que foi chamado de louco no dia em que disse que, se não fossem tomadas providências, em torno de um milhão de brasileiros seriam mortos pela doença.

Portanto, a prática confirmou que vacinas funcionam, que máscaras são importantes para prevenir o contágio, que lavar as mãos com frequência é saudável e que a ciência não pode ser substituída por crendices ou teorias de conspiração sem fundamento.

Seja responsável. Ofereça aos seus filhos a oportunidade da vacinação!

Luís Ferraz
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