As novas gerações, criadas no mundo “high-tech” onde filmes e jogos de computador mostram imagens tão realistas que ficamos convencidos de que são reais, onde o telefone celular permite consultar qualquer assunto, de qualquer lugar do mundo em segundos, são naturalmente menos crédulas nas magias e lendas. A iluminação artificial sepultou muitos medos, comuns nos tempos da iluminação com lampiões a querosene ou outros. Mas num passado não muito remoto, histórias fantásticas eram contadas e por mais absurdas que fossem, causavam algum medo quando uma estrada escura era o único caminho pra casa.

Dentre essas lendas, uma que recebe diferentes versões dependendo da região do país é a do “Gritador”. Em algumas regiões é “Bradador”, no nordeste brasileiro é “Vaqueiro Gritador”. Vou resumir aqui aquela contada por minha mãe, a do Gritador, que é a mesma contada nas serras gaúcha e catarinense onde provavelmente nasceu a versão no sul do Brasil:

Numa região isolada no sul do país existia um homem muito maldoso, capaz de atos de crueldade extremos. Com pouco mais de 20 anos já tinha cometido vários crimes entre espancamentos, roubos e assassinatos. Andava cavalgando sem destino pelos campos cometendo maldades. Vivia num pequeno sítio com sua mãe viúva à qual tratava muito mal. Era tão ruim que nem do cavalo ele cuidava. O pobre animal sofria diariamente passando fome e sede durante as longas horas de cavalgadas.

Num sábado esse homem decidiu ir a um baile que aconteceria numa vila próxima e por isso foi pra casa mais cedo pra se arrumar. Chegou e foi logo dizendo pra sua mãe que iria a um baile e que era pra ela escovar bem o cavalo e limpar bem os arreios enquanto ele se arrumava. O pobre animal estava com tanta sede que bebeu um balde de água em poucos segundos. A barriga sangrava com marcas das esporas afiadas. A mulher limpou as feridas, alimentou e fez um carinho no pescoço do cavalo, como que a pedir desculpas pelo comportamento de seu filho único, de cuja maldade ela não sabia explicar a origem.

O homem demorou no banho e depois decidiu tirar um cochilo para aproveitar melhor a noitada. Enquanto isso a mãe esperava do lado de fora com o cavalo encilhado. As horas passaram e a pobre senhora teve medo de acordar o filho e ele não gostar. – Decerto resolveu não ir mais – pensou a mulher. – Vou soltar o cavalo para o campo para que se recupere. – E assim o fez, para alegria do pingo.

Meia hora depois, o homem acordou, ordenou à mãe que lhe trouxesse o cavalo, afinal já estava atrasado para o fandango. A mulher, já trêmula de medo do próprio filho, informou o ocorrido, sabendo que a reação não seria boa. – Maldição! Como vou ao baile agora, mulher idiota? Não serve pra nada! Mas deixa estar, você vai aprender a não me contraria mais. – Entrou no galpão, pegou os arreios e ordenou que a mãe ficasse de quatro. Como ela demorou a obedecer, levou o primeiro golpe de relho e caiu. O homem arrastou a mãe campo afora colocou sela na pobrezinha e montou como se fosse ela fosse um cavalo, surrando à vontade e a mulher assim foi carregando o filho e entrando no mato, até que não aguentou mais o suplício e caiu, já enxergando a morte chegando.

Como nessa vida, até amor de mãe pode ter limite, a mulher em últimos segundos de vida amaldiçoou o filho – Você nunca mais haverá de encontrar o caminho de casa. Vai vagar pelos campos e matos agonizando pela eternidade. – O filho, que pela primeira vez na vida havia percebido que passava dos limites, viu a mãe dar seu ultimo suspiro e morrer, mais por desgosto do que pelos cortes do açoite. De fato, ele nunca mais encontrou o caminho. Morreu gritando no meio do mato e seu corpo nunca foi encontrado e de acordo com a lenda, às vezes seus gritos são ouvidos e aquele que responde ou imita seus gritos está convidando o gritador para levar sua alma com ele.

Em São Mateus do Sul, existem muitos relatos de pessoas que juram que ouviram o gritador. Contam até sobre conhecidos que um dia responderam aos gritos e depois desapareceram, sofreram acidentes estranhos ou enlouqueceram. Mas a maioria conta que ao ouvir os gritos se ajoelhou e pediu proteção divina e então os gritos foram se fastando e desapareceram.

Nos anos 1980, vieram para a cidade muitos trabalhadores de várias regiões do país, para trabalhar nas obras de ampliação da usina de xisto. Dentre estes, o “Claudio Mineiro”. Era chamado assim porque havia outro Claudio na equipe e ele era de Ouro Preto, histórica cidade mineira, então recebeu o apelido pra facilitar a comunicação.

Claudio Mineiro era um rapaz divertido, conversador, supersticioso e medroso. Em pouco tempo fez amizade com quase todos e passou a participar de churrascos e pescarias combinadas para as folgas do trabalho. Um desses amigos era João, morador da Vila Amaral que se tornou parceiro de Claudio, seja para jogar truco, tomar cerveja ou pescar.

Para aquele final de semana haviam combinado uma pescaria. Acampariam nas margens do Rio Iguaçu e passariam dois dias pescando, churrasqueando e bebendo. Estava tudo combinado. Na sexta-feira se encontrariam no boteco que frequentavam para dali irem para o as margens do rio. Mas como ninguém combina com o destino, naquela tarde o S.r. Armindo, dono do boteco teve um ataque cardíaco fulminante. – Mineiro, vamos ter que cancelar a pescaria, em respeito ao velhinho que sempre nos atendeu bem. – Disse João ao amigo, que concordou meio contrariado, e propôs uma alternativa – Vamos ao velório e de madrugada saímos devagarinho pra ninguém notar e vamos pra barranca do rio. Ele não há de se ofender pois também gostava disso, não é mesmo? – João concordou.

Naquele tempo ainda era costume que o corpo do finado fosse velado em sua residência. O caixão do velho bodegueiro foi arrumado na sala e por ali passaram os amigos e parentes para as despedidas. Claudio se recusou a entrar na sala. Fez o sinal da cruz lá na varando e rezou, de longe. Dali foram para os fundos onde numa roda vários amidos do finado mateavam, bebiam cachaça e contavam histórias. Sim! Ali alguém lembrou e contou com detalhes a lenda do Gritador, jurando que ele mesmo ouviu o grito medonho quando voltava tarde da casa de uma namorada. Claudio ficou apavorado e achou melhor saírem dali e assim foram saindo, passaram mais uma vez na porta da sala, como que para avisar o morto que cumpriram sua obrigação e se mandaram para rio.

Velórios sempre nos deixam pensativos e aquela história de gritador não saía da cabeça de João, que decidiu tocar no assunto com o amigo: – Diz aí Mineiro, na tua terra tem gritador? – Olha, se for começar com isso eu volto daqui. Com essas coisas não se brinca! – disse com voz firme, para encerrar o assunto. Nesse momento, ouviram vindo lá da encosta do outro lado do rio, latidos de cachorro e um barulho de algo caindo na água. Claudio ligou uma lanterna e apontou o facho no rumo do barulho na água. Era uma capivara das grandes que conseguiu fugir de caçadores e atravessava o rio fugindo dos cachorros. A noite certamente não estava tranquila como os dois amigos haviam imaginado.

João e Claudio armaram o acampamento, mas a essa altura, todo barulho no mato era uma descarga de adrenalina. Posar na barranca do rio já havia se tornado uma tortura psicológica e o medo de assombração já dominava o pensamento dos dois, contudo, nenhum queria admitir e pedir pra ir embora. Armaram uma rede e algumas varas e enquanto João procurava nervoso o frasco de repelente, Claudio brigava com a fogueira que insistia em apagar porque a lenha estava úmida. – Que inferno! – disse João.

Os dois amigos ouviram um grito melancólico, triste, quase um pedido de socorro, vindo talvez de uns 100 metros dali. – Meu Deus do céu! É o gritador. Ele veio nos buscar. Pelo amor de Deus não responda. Por favor não faça isso. – disse Claudio Mineiro enquanto olhava para os lados e apontava a lanterna em todas as direções. João estava paralisado, as pernas estavam trêmulas e ele nem ouvia direito o que o Mineiro dizia. Novamente o grito, dessa vez bem mais perto. – Pare de falar Mineiro! O Gritador tá achando que você tá respondendo ele. Vamos rezar!

-Rezar uma ova. Eu vou-me embora desse mato – Mineiro saiu correndo com a lanterna na mão, seguido por João e só pararam quando chegaram nas ruas da Vila com postes de iluminação pública.

Deixaram lá nas barrancas do Rio Iguaçu, linhas, varas, anzóis, mochilas, rede armada e o temido gritador, que no caso era um mãe-da-lua, ave que em nossa região chamamos de Urutau. A ave, confiando plenamente em sua eficiente camuflagem, permaneceu inerte no galho do velho branquilho cuja copa avançava sobre a água.

Os dois “corajosos” amigos juraram nunca mais foram vistos em velórios ou pescarias.

Luís Ferraz
Últimos posts por Luís Ferraz (exibir todos)

Comentários

MATÉRIAS RELACIONADAS
O punhal escondido
A vingança do gambá
Contratempo