(Imagem Ilustrativa)

Muitas Colunas atrás, comentei sobre um documentário do repórter da Globo Murilo Salviano que fez todo o trajeto da BR-101, do Sul ao Nordeste, para vivenciar as diversidades da população ao longo da rodovia, o que retrataria um pouco do que é o Brasil.

Ele encerrava o documentário afirmando que há um abismo separando “Brasília” do restante do país. Quando afirmava isso, falava daqueles que governam, legislam e julgam, sentados em suas confortáveis poltronas e negociam o futuro dos brasileiros em restaurantes e outros sofisticados ambientes, sem conhecer ou sem procurar conhecer o que realmente pensa e sente a população.

Pelo jeito, quem experimenta o poder não quer perdê-lo e vive em função da projeção de como se comportarão as urnas na próxima eleição, como se as urnas tivessem vida própria e não querem enxergar que por trás de uma urna há eleitores e a dura realidade para a grande maioria deles.

Há alguns dias, um amigo fez um comentário sobre o trabalho dos agentes funerários ou mesmo dos legistas. É claro que eles não têm apego, sentimento aos corpos que manipulam, nem deveriam, sob pena de estresse profundo. Os corpos podem parecer apenas pedaços gelados de carne em decomposição, cortados ou costurados para uma rápida exposição num velório.

Acho que é assim que muitos dos que atuam nas esferas do poder federal e até mesmo estadual nos veem. Apenas um número que afeta os custos da previdência ou que sobrecarrega os serviços de saúde. Talvez apenas um pedaço de carne, com vida, sendo manipulado. Precisam entender que nós não somos o problema.

Precisamos de muita coisa? Sim, precisamos. Mas foram eles que se candidataram ou prestaram concurso público, passaram por processos seletivos para atuar, com o nosso mandato, com o nosso custeio. Assim, encontrar maneiras de atender, proteger, preservar a população é obrigação. Se não são capazes de fazê-lo, não deveriam estar nos cargos e funções que ocupam.

O texto desta Coluna é uma espécie de desabafo de mais um brasileiro que assiste, com tristeza, os embates políticos, legislativos e judiciais em torno das vacinas preventivas à COVID-19. Posições individuais não podem prevalecer em relação ao interesse nacional e mundial. Ignorar a lógica, a ciência por teimosia, para buscar um embate político, além de desumano e irresponsável, também é ilegal.

Neste momento de crise, onde, na minha visão, os dois principais problemas do mundo são a necessidade de recuperação econômica e o combate ao Coronavírus, jamais um pretendente a um cargo público nas próximas eleições deveria deixar a população a própria sorte. As demais instituições também não poderiam fechar os olhos para tais questões.

Tudo seria mais fácil se todos se unissem para resolver o problema. A cada dia que passa, mais um pedaço de carne gelado e em decomposição é depositado numa urna e descartado.

Mas este pedaço de carne ignorado por muitos fez parte da vida de alguém, amou, foi amado, odiou, foi odiado, fez parte da história e merece respeito.

Um país, uma nação, não é formada por números e sim por pessoas, de carne e osso, que querem viver da melhor maneira possível. Recolhem seus impostos, escolhem seus governantes, pagam os salários do funcionalismo e o que mais querem em troca é o mínimo de consideração.

Adnelson Borges de Campos
Últimos posts por Adnelson Borges de Campos (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Oportunidades
Fugindo da mediocridade
Highlander