(Foto: Reprodução/Redes sociais)

Vivemos tempos complicados, pra dizer o mínimo. Talvez parte seja impressão, causada pela alta velocidade da propagação de informação. Tudo é quase instantâneo. Se acontecer, segundos milhões de pessoas já sabem. O problema é que às vezes nem aconteceu, mas milhões de pessoas pensam saber.

Neste ano, no qual teremos eleições presidenciais complicadas devido ao momento político do país, o que já é suficiente para gerar muita preocupação, ainda temos que lidar com uma pandemia insistente e letal e como se não bastasse, parece que algumas pessoas decidiram jogar gasolina no fogo que já não é pequeno. Falemos aqui de dois exemplos apenas, porque é impossível dar conta de falar de todos os absurdos que viraram notícia no país nos últimos dias.

A morte de um jovem congolês num quiosque no Rio de Janeiro foi tão brutal que parecia cena de filme de baixo orçamento sobre mafiosos do tráfico de drogas. Hoje, com a liberação do vídeo inteiro, é possível ver que enquanto o rapaz era espancado até a morte com um taco de beisebol, a vida ao redor seguia normalmente. No dia seguinte e nos subsequentes, a história do assassinato ficou ainda ao mostrar o possível envolvimento de outras pessoas e talvez até policiais. Revoltante.

Essa revolta foi usada como justificativa para outro ato absurdo. A invasão de uma igreja por um grupo liderado por um político. A desculpa era de que se tratava de um protesto contra o assassinato do congolês. Dentro da igreja? De quem foi essa ideia idiota? Não duvido de que entre frequentadores da igreja existissem cidadãos cuja conduta mereça ser alvo de protesto. Vemos ideias e atitudes absurdas serem originadas em igrejas infelizmente, mas foi um ato covarde. Se queriam entregar uma mensagem aos membros da referida igreja, que se reunissem em frente e abordassem as pessoas que entram ou saem da igreja.

E para ferver de vez a, já assustada sociedade, um jovem comunicador, sócio num dos Podcast mais visualizados do país, decidiu fazer uma defesa do direito de as pessoas serem nazistas em nosso país. Sim, ele defendeu que fosse possível a criação de um partido nazista. Foi demitido depois que a repercussão negativa incomodou, mas hoje já temos muitos defendendo esse cidadão. Pediu desculpas alegando estar bêbado no horas das frases “infelizes”. Sim, ele bebe durante o programa, fuma, diz palavrões e defende o indefensável.

Hoje recebemos a notícia da demissão de outro jovem comunicador, por fazer uma saudação nazista no encerramento de sua participação em um programa. Este também negou se tratar de um gesto nazista, mas o constrangimento nas feições de colegas do programa, não deixam dúvida sobre isso. Mais uma demissão justa e necessária. Não podemos tolerar que sequer seja cogitada a ideia de aceitar o nazismo. Devemos isso aos milhões que morreram de forma horrenda no holocausto. Da mesma forma não podemos aceitar nenhum tipo de racismo, xenofobia ou preconceito. Mas como identificar e separar o que é apologia a um crime de uma simples opinião? Quais seriam os critérios? Podemos realmente dizer tudo o que pensamos?

Não, “essa tal liberdade” não nos autoriza a dizer o que quisermos. Se tivéssemos essa abrangência de liberdade de expressão, não haveria sentido a punição para injúria, perjúrio ou falso testemunho. Mas no caso do comunicador demitido o assunto fica ainda mais complexo porque o trauma do nazismo é muito grande e a sociedade não pode permitir nenhum ensejo que vislumbre o ressurgimento dessa crueldade ou de outras como a escravidão.

Um problema que surge quando alguém abusa de seu direito à liberdade de expressão é que isso reforça argumentos de grupos que desejam reprimir a liberdade de opinião. É o velho problema do extremismo em nome da liberdade. Todos queremos ser livres e justamente por isso precisamos respeitar os limites da liberdade.

Tramita no congresso uma proposta de modificação da lei da aviação civil. O motivo é que, em nome da liberdade, alguns cidadãos têm causado grandes transtornos em aeroportos, durante embarque ou desembarque e até mesmo em altitude de cruzeiro. Muitos voos já tiveram que fazer escalas em aeroportos não previstos para conter algum cidadão alterado por bebidas alcoólicas, por brigas a bordo, por se recusar a cumprir as normas estabelecidas. Atualmente em quase todos os voos tem alguém brigando por não querer usar máscara, tudo em nome da liberdade de opinião, de expressão, de ir e vir.

Será que na vida em sociedade existe uma liberdade plena e irrestrita ou precisamos de limites? O que você pensa sobre isso?

Luís Ferraz
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