(Imagem Ilustrativa)

O aplicativo apresentou-lhe as sugestões de amizade. O nome chamou-lhe a atenção, associou-o a uma doce lembrança. A face minimizada lhe era estranha, mas bela. Impulsivamente tocou a tela para examinar, detalhadamente.

Como Richard Collier em Algum lugar do passado, ele sentiu que a sua Elisa McKenna olhava para ele, posou para a fotografia olhando para ele. O brilho em seu olhar o cativou. A dona do rosto tornava pública não mais de meia dúzia de fotos e vagas informações sobre suas preferências.

Tratou logo de aceitar a sugestão de amizade, porém a espera por uma resposta foi longa. Nas madrugadas voltou várias vezes, como quem volta à sala e admira o retrato na parede. Começou a fantasiar uma possível relação. “Mora em Sydney”. Não era Nemo quem ele procurava, mas era uma informação importante para a busca. Voltou às aulas de inglês, precisava economizar para uma possível viagem.

Nas redes sociais, ele falou da vontade de conhecer Sydney, deu sinais de que tinha uma nova paixão. Afirmou que faria tudo por um momento ao lado da pessoa que admirava.

Certo dia, ela, a garota da imagem, postou um vídeo com cenas do filme Em algum lugar do passado. A música The man of my dreams ao fundo. Depois, num português cheio de defeitos, junto a uma imagem do Pão-de-Açúcar, ela anunciou uma viagem ao Brasil.

Logo que recebeu a confirmação de aceite de amizade, seu coração disparou. Sim, para ele o Cupido moderno tinha nome: Algoritmo. O amor deixou de ser passional, tornou-se lógico. O aplicativo iria os unir – ansiava. Entre bilhões de pessoas no mundo, ele foi o escolhido – pensava.

Buscou novas informações na página dela. Nada. Resolveu acionar o sistema de mensagens do aplicativo. Arriscou algumas palavras em inglês. Rapidamente recebeu um aceno, só isso. Horas depois, a frase “See you!”.

Não dormia, esperando por notícias. Três dias depois, o alerta do mensageiro, soou cedo. Ela explicava que em sua viagem econômica, numa parada num país africano, no hotel, foi roubada. Tiraram-lhe o cartão de crédito, o passaporte e o pouco que carregava. Foi abrigada por um casal de sul-africanos que conhecera no aeroporto. Precisava de ajuda financeira para continuar a viagem.

Não pensou muito. Ela estava se sacrificando para encontrá-lo e lhe poupando de uma longa viagem, prova do que sentia. Transferiu o que tinha para a conta da senhora que abrigara a jovem.

Depois, recebeu uma mensagem de agradecimento. Em seguida um aviso de mudança no perfil dela. Na imagem, um sujeito de origem africana, de lábios fartos, fazia biquinho.

Sim, o Cupido moderno tem nomes. Poderia chamar-se Bandido, Hacker ou qualquer sinônimo destes. Talvez tenha se apropriado de um algoritmo para localizar sua presa, não precisava muito, nosso amigo apaixonado deixou todas as pistas na sua lista de preferência em sua página na rede social.

Nesses tempos em que enganar para se conseguir dinheiro fácil virou modo de vida, todo cuidado com seus dados na Internet é pouco. Algumas vezes a inteligência é tão artificial, que também é falsa.

Quem sabe inventam um aplicativo de proteção contra falsos interesses e que evite corações partidos e bolsos vazios.

Adnelson Borges de Campos
Últimos posts por Adnelson Borges de Campos (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
O que não tem remédio, remediado está
Biombos
Lendo com mais qualidade