Mentes Inquietas

Amor cristão

Reprodução do rosto de Cristo feita por cientistas. (Imagem: Museu de Ciência Natural da Inglaterra)

A partilha do pão; o perdão aos que ofenderam; a vida humilde, baseada na caridade, tolerância e amor ao próximo são os principais pontos que constituem a filosofia de vida propagada pela figura do grande líder espiritual, Jesus, segundo consta na mitologia bíblica.

Ao passo em que o texto afirma que é mais viável, ao receber um tapa, oferecer a outra face do que tramar uma vingança, ou que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no “reino dos céus”, notadamente se percebe a seletividade daqueles que professam a doutrina com relação ao que seguir ou não. Salta-nos aos olhos tantas e quantas vezes pastores de determinadas seitas ostentando bens materiais de alto valor, enquanto pedem doações em seus cultos para fazer erigir a “obra” – que no fundo não passa de estelionato e lavagem de dinheiro. Ainda por cima, dizem-se os grandes difusores de boas-ações, e mostram orgulhosamente seus feitos mascarados em programas televisivos[1].

Quando pois deres esmola, não faça tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam seu galardão. (Mateus, 6.2)

Eis que a própria Bíblia contraria os donos das empresas religiosas, que mandam e desmandam na política e na ordem social, com pregações seletivas e largamente deficientes de coerência com a própria chama inicial da doutrina. O próprio Sermão da Montanha – uma das mais célebres passagens do livro –, indica que Jesus em momento algum pretendera ser tomado como base para o fideísmo avassalador que se propagou pelo mundo:

E, quando orares, não seja como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas para serem vistos pelos homens. (Mateus, 6.5)

Os valores cristãos, propagados há dois milênios, são a grande base para a proclamação dos Direitos Humanos, pois preveem que os homens se encontram em condição de igualdade diante aos olhos de “Deus”. Curiosamente, valendo-se dos ditames da moral cristã, políticos de correntes variadas defendem que os direitos humanos servem “para proteger vagabundo”, ou, então, são favoráveis aos atos de tortura. Enquanto o protagonista do Novo Testamento (o já citado Jesus, para aqueles que têm memória curta), recomendava amar ao próximo como a si mesmo, difundir o amor e perdoar aqueles que nos ofendem, um número crescente de religiosos atuais produzem discursos de ódio e violência nas redes sociais da internet. Falta-lhes compreender que amar ao próximo é amar o diferente, não apenas seus pares. Ameaçar interlocutores de orientação ideológica diferente com o “fogo do inferno” é confessar que não compreendeu o que leu – se é que leu. É provável que o Jesus da literatura bíblica, ao se deparar com uma piada sobre sua pessoa, desse risada ao invés de amaldiçoar aquele que a proferiu.

Os rumos atuais das seitas, onde há discussões ferrenhas entre seus membros, cada qual defendendo sua congregação como “superior”, nos leva a um caminho de concordância com o estudioso alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), que afirma no aforismo 39 do seu livro O Anticristo (1895), que “no fundo houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz”. A concordância se dá em virtude da subversão provocada pela própria igreja na instituição de seus ritos e atitudes hostis ao longo de sua história.

Como se não bastasse haver discussões que renunciam à lógica no campo da política – do que discordamos veementemente, mas damos a todos o direito de se expressar –, julgam seus preceitos imaginativos aplicáveis no campo das ciências objetivas. Alguns afirmam que as evidências encontradas a partir de fósseis não passam de artefatos “para testar a fé do povo”. Enquanto Dalai Lama afirma que a cada nova evidência científica, os budistas devem aceitá-la em detrimento de sua crença imaginária anterior, claramente nos parece que certas seitas islâmicas e cristãs fazem o caminho inverso. Em O Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche tenta explicar tal situação através do “instinto de causalidade”, isto é, há muito mais comodidade em aceitar uma proposta de fácil e rápida compreensão do que procurar averiguar os verdadeiros motivos do acontecimento estranho ao indivíduo. Sendo assim, “a memória reproduz a crença de que as representações, os fenômenos de consciência que acompanham o fato foram suas causas”.

Prega-se a palavra de um deus, constroem-se templos, fecha-se os olhos para o que financeiramente não interessa na doutrina; tudo é tomado como verdade, desde que não seja conflitante com seus interesses; as igrejas, o lucrativo comércio da fé, multiplicam-se; a caridade não interessa caso não possa ser útil para publicidade; os mandamentos são úteis, desde que não precise seguí-los; a vida é sagrada, exceto a dos gays, prostitutas, travestis, pessoas com ideologia política contrária e ateus; o Amor Cristão, na prática, é seletivo e propaga a destruição.

Por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) – membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Vale esta nota: não se trata de uma generalização. Líderes religiosos que realmente creem naquilo que professam e/ou pregam estão sem dúvidas em um patamar diferente daqueles que exploram a fé do povo.

Nós, Mentes Inquietas, somos um grupo de estudos independente. Buscamos a reflexão nas Ciências Humanas, utilizando dos pensamentos filosóficos de pensadores tanto da antiguidade como da modernidade, trazendo-os para a atualidade.

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