Todos temos boas recordações dos tempos de escola. Na maioria das vezes, estão direcionadas às amizades, aos professores, ao tempo que dispúnhamos para nos concentrarmos no estudo. Aquela vivência descontraída, de amadurecimento e de troca de conhecimento que levamos para vida toda.

Dentre essas boas lembranças, recordo-me de um Concurso promovido pela Superintendência da Industrialização do Xisto – SIX – em parceria com as escolas, cujo objeto de premiação seria a apresentação de um trabalho sobre o xisto. Naquele tempo eu estudava no Colégio Duque de Caxias e, como desde sempre gostei de pesquisar e de escrever, empenhei-me no assunto. Sabemos que naqueles idos anos 80 ainda não tínhamos o Google na palma da mão, então o destino certo de todo aluno era as bibliotecas. No entanto, ali pouco havia sobre o assunto. Acabei por encontrar mais conteúdo em minha própria casa, por uma vantagem especial de que meu pai era então funcionário da empresa. A maioria das fontes se constituíam de folhetos explicativos e de alguns livros mais técnicos, mas o que mais me chamou a atenção foi uma obra, de capa simples, que falava de Roberto Angewitz, o Perna de Pau. Surpreendeu-me o fato de ele ter sofrido uma picada de cobra e, com apenas 8 anos de idade, ter perdido a sua perna, produzindo ele próprio a sua “prótese de madeira”, a qual substituía de tempos em tempos conforme crescia. Entre idas e vindas de sua vida que, por sinal, não foram nada fáceis, chegou em São Mateus do Sul, no início dos anos 30, para iniciar aquela que talvez tenha sido a sua maior aventura: tirar óleo de pedra de xisto.

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Angewitz foi pioneiro no Brasil em produzir combustíveis de forma contínua. Tal sucesso tem seu mérito nos estudos que ele empreendia desde pequeno, quando mesmo sem poder frequentar a escola lia todo livro que encontrava. E, para dar conta de construir uma usina e fazê-la funcionar de forma tão rudimentar, se aperfeiçoou em siderurgia, mecânica, engenharia e eletricidade. Aliado a sua forma autodidata de estudo, estava também o seu elevado espírito empreendedor, que seguia em frente apesar das dificuldades que surgiam, como os dois incêndios sofridos pela usina.

Em plena Segunda Guerra Mundial abasteceu o mercado local com o combustível que produzia. Infelizmente, seu empreendimento foi estatizado pelo governo de Getúlio Vargas, em 1942, ano em que o Brasil se declara na guerra contra a Alemanha. Recebendo 200 contos de réis pela indústria que criara, imagino o quanto esse fato tenha afetado o seu ânimo. Difícil termos uma noção de valores, mas deve ter sido muito pouco, o que afinal de contas não importa. O maior golpe foi a tomada da sua liberdade de empreender, que até então usufruíra, para ter o fruto de seu trabalho, dedicação e estudo, subtraído pelo Governo. Faleceu cinco anos mais tarde.

Hoje, ao retomar esse assunto, fica nítido que, de fato, são as pessoas que marcam a história. O Perna de Pau marcou aquele meu trabalho escolar. Não foi o xisto ou a tecnologia desenvolvida, foi a pessoa de Angewitz: corajoso, estudioso, pioneiro e empreendedor que, por assim dizer, falou ao meu coração. É por isso que ele está nestas linhas: não haveria outra história mais digna de admiração para homenagear a SIX pelos seus 68 anos, comemorados no dia 1º. de junho. Parabéns a todas as pessoas que construíram a história da empresa: são elas que realmente importam!

Um cordial abraço e até a próxima coluna!

Ingrid Ulbrich
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