Mentes Inquietas

Anúncio de uma tragédia

(Imagem Ilustrativa)

Este texto surge de um anseio em discutir falácias incessantemente reproduzidas nos debates políticos atuais. Poderíamos ser incisivos, com uma elaboração muito mais complexa e com checagem de cada fala do debate, mas se pretende conciso e acessível a todas as pessoas. Sabemos que não fará com que alguém mude de opinião sobre seu candidato, pois raramente isto ocorre, mas que se reflita minimamente sobre os rumos de nossa sociedade. Agora, mais do que nunca, urge deixarmos de lado conceitos previamente estabelecidos e pensar: quem está me dizendo isso? Qual a sua intenção? Quais os interesses que o fazem agir deste modo? Quem se beneficia com isto? Qual o arcabouço que eu tenho para julgar um discurso, um projeto, uma ideia?

Em teoria, debates políticos têm a função de confrontar ideias, projetos para o país, de maneira que prevaleça a busca pela verdade e coerência nos argumentos, embasados em fatos e despidos de interesses restritamente particulares. Mas acreditar que isso encontra correspondência na prática não passa de uma alucinação. São raros os debatedores dispostos a abrir mão de suas verdades de fé, de seus dogmas, frente a apresentação de evidências que o contradigam. É nesse caminho que se lança mão de estratégias discursivas para persuadir o público, ridicularizar o adversário e fazer de conta estar com a razão. Em linha paralela, seus eleitores não admitem a incoerência dos argumentos de seu candidato. Tratam a ignorância como uma virtude.

O filósofo polonês radicado na Alemanha Arthur Schopenhauer (1788-1860) produziu um livreto interessantíssimo chamado A arte de ter razão (Vozes, 2017). Interessante para compreender o atual momento político pelo qual passamos. No escrito, o filósofo apresenta estratégias discursivas facilmente identificáveis nos debates entre os candidatos e em vários outros momentos da vida em que ideias são colocadas em conflito.

Nem sempre quem está amparado nos fatos tem os melhores argumentos ou é reconhecido por tê-los. Em grande medida, o que interessa ao público é ouvir aquilo que lhe conforte, aquilo que esperava e que não vá de encontro às suas convicções, muitas vezes embasadas em uma visão  meramente fideísta do mundo. Há quem repita incansavelmente que armar a população e governar com mão de ferro é o único caminho para solucionar os problemas sociais. Outros creem na beleza e na harmonia da sociedade, sem atentar para as inúmeras intempéries desta visão. Há, ainda, os que se encontram em permanente viagem lisérgica, propagando o discurso de que todos se beneficiarão se certos grupos continuarem a receber regalias em nome do suor de outros. O que se observa nos debates entre candidatos aos governos estadual e federal televisionados é que, ao confrontarem-se ideias, pequena parcela se interessa por manter o nível racional de discussão. A fuga do tema e acusações a terceiros visando justificar a própria falha são recorrentes.

Schopenhauer afirma que os homens são naturalmente perversos. A vaidade, o desejo de sempre aparentar estar certo, no final das contas, prejudica a todos. Platão e Aristóteles também alertavam que a disputa pelo governo prejudica a todos. Mas em um mundo onde o que conta é a aparência, a superficialidade, este é o verdadeiro triunfo. Schopenhauer aponta que «se fôssemos essencialmente honestos, não buscaríamos em cada debate senão trazer a verdade à luz, totalmente despreocupados se ela está em conformidade com nossa opinião previamente apresentada ou com a do adversário: isso seria indiferente ou, pelo menos, algo completamente secundário. Mas agora é a coisa principal» (Vozes, 2017).

Dentre as principais artimanhas utilizadas pelos candidatos (e por qualquer pessoa ao discutir, vale frisar), está o princípio da generalização para ridicularizar a ideia de um adversário, bem como responder a questões diferentes das perguntadas, relativizar, fazer graça, insistir em argumentos que irritem o adversário, arrancar risos da plateia quando perceber que está em desvantagem etc. O confronto de ideias é prejudicado pela incapacidade de alguns em se portar como seres civilizados ou, então, pela própria ignorância sobre temas que deveria conhecer minimamente antes de se propor a debater. Como se percebeu no primeiro debate dos presidenciáveis de 2018, o candidato que alegadamente não entende bulhufas de economia, fez piada com uma proposta econômica, culpabiliza terceiros ao invés de assumir a responsabilidade de debater as próprias ideias; outro ancora-se na «popularidade» de um juiz para tentar ganhar votos de eleitores com a mente colonizada; outro faz uso de discurso ininteligível, reafirmando sua falta de capital intelectual a cada oportunidade de usar o verbo, propaga mentiras e informações desconexas, evoca a religião a todo momento, como se vivesse em um Estado Confessional.

Quanto mais ignorante é o indivíduo, maior a sua inclinação para ridicularizar um discurso que não compreende. “Remédio não é droga”, berrou. Enquanto o dicionário Oxford define «droga» como «qualquer substância ou ingrediente us. em farmácia, tinturaria, laboratórios químicos».

Apesar de incoerências se fazerem mais nítidas a cada dia, a reprodução de falácias persiste entre seus asseclas. O candidato moralista que defende suas atitudes imorais pela lei, aquele que trucidou a educação defendendo-a, ou aquele cujas medidas provocaram desemprego vangloriando-se. O eleitorado, de parcela desalentada e sem rumo, abraça a causa daquele mais berra. Há tempos escolheram seu voto e nem a lógica nem os fatos parecem ser capazes de convencê-lo de que está equivocado em suas ideias. Justamente porque não pensa no bem para a sociedade, mas nas vantagens que obterá em âmbito privado. Transparece que nada compreende da organização e das nuances do Estado, da complexidade que permeia a sociedade. Assim, procura um discurso que externe toda a sua ignorância, seus ódios e, principalmente, seu medo.

Por: Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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