Cheguei ao meu apartamento em Curitiba e encontrei um pacotinho de plástico me esperando… Eu sabia que ao abri-lo encontraria memórias centenárias… Sabia que um pedaço do passado da minha amada São Mateus do Sul residia naquele embrulho. Abri lentamente e viajei no tempo… Você quer saber qual o tesouro que o pacote guardava? Embarque comigo nessa história!

Na década de 1910, um jovem explorava o interior do Paraná com seu aparato fotográfico. A fotografia ainda era algo raro, mas rara também era a habilidade do rapaz. Filho de imigrantes alemães, Arthur Wischral nasceu em 1894 e foi um especialista em registrar as paisagens e o cotidiano de vários locais do Brasil. Por seus mais de 50 anos de trabalho na área, foi considerado um pioneiro da fotografia documental e um dos maiores fotógrafos do Paraná.

Wischral teve várias passagens por São Mateus. Algumas de suas fotos ainda grafam o nome da cidade como “São Matheus”, enquanto outras já registram “São Mateus do Sul”. Passeando pelas fotografias parece que podemos entrar no passado da cidade… Homens a cavalo e casebres às margens do rio… As casinhas enfeitadas de lambrequins com seus telhados de tabuinhas… O Pery aguardando um carregamento de madeiras… Outros vapores e lanchas na movimentada orla do Iguaçu… A criançada se divertindo na inauguração de um clube… E a qualidade das fotos é tanta que, ao ampliar, é possível ver detalhes magníficos… Parece que estamos olhando o passado através de um telescópio…

Mas toda essa beleza poderia ter se perdido no tempo. A coleção de fotos de Wischral ficou “adormecida” após sua morte, em 1964. Na década de 90 a prefeitura de Curitiba adquiriu cerca de 7.000 fotos do acervo, mas escolheu apenas as que mostravam a capital do estado. Outras 6.000 fotografias ficaram à espera de um guardião, correndo o risco de ser compradas por um daqueles colecionadores que guarda o tesouro exclusivamente para si. Mas quis o destino que o material fosse parar nas mãos do grande Paulo José da Costa, da livraria Fígaro, de Curitiba. O “Paulo da Fígaro” é ex-funcionário do Banco do Brasil e já morou em São Mateus no passado. Quem o conhece sabe que a história do Paraná tem uma dívida gigante com ele. É um garimpeiro do passado, alguém que tem o faro para encontrar raridades, mas, principalmente, alguém que faz questão de compartilhar as descobertas.

Após catalogar o material e expor parte do tesouro nas redes sociais, Paulo decidiu vender fotos duplicadas do acervo, e nestas fotos havia algumas relíquias de São Mateus. Rapidamente meus amigos me avisaram sobre as fotos (Obrigado Sandro! Obrigado Íris!), e falei com o Paulo, com quem já tinha contato desde que recebi sua ajuda para o meu livro sobre o Coronel Bodziak.

O pacote plástico que me esperava, guardava esse tesouro: as fotos originais de um gênio da fotografia. Tesouro produzido por Arthur Wischral, que passou por São Mateus… Tesouro recuperado por Paulo José da Costa, que morou em São Mateus… Tesouro que agora está nas mãos deste amante da história local, e que, comigo, voltará para São Mateus…

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza

Gerson Cesar Souza

Gerson Cesar Souza atua de forma amadora como astrônomo e historiador. É sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul. Autor dos livros A Estrela de Jacó e O Imortal Coronel Bodziak, que resgatam a história da imigração polonesa em nosso município, e redator do projeto Dois Minutos de História.
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