Fiquei a imaginar o que diriam Copérnico, Newton, Galilei e outros físicos do mesmo nível, se ouvissem o discurso dos terraplanistas. Talvez gargalhassem até passarem mal, mas provavelmente se irritariam com tamanha bobagem.

Não sei se a história que conto a seguir é verdadeira. Li uma versão nos anos 1990 num jornal de bairro em Curitiba. Tentei localizar o autor, mas a empresa (jornal do Bacacheri) fechou há algum tempo. No entanto, considerando que há quem acredite poder refutar uma informação científica fundamentada com uma opinião baseada em conversas de rede social, acredito ser possível encontrar um vivente capaz disso. Conto na primeira pessoa, como na versão que conheci:

O longo noivado foi importante para juntarmos a grana necessária para a obra. Quem casa quer casa, não é assim o ditado? Pois é, a uns dois meses do casamento ficou pronta a obra. Fizemos aquela limpeza final e deixamos tudo pronto. Restou uma caçamba de entulho, algumas tábuas de pinus e 150 tijolos.

A lua de mel foi um sonho! Tudo correu bem e até o sol, que andava sumido naquele mês chuvoso, nos brindou com presença constante. Mas era hora de voltar ao trabalho e à nova rotina. Como ainda restavam uns dias de folga, aproveitaríamos para organizar a nova casa. E assim, enquanto ela arrumava armários, desempacotava presentes e decidia a decoração, eu ajeitava as coisas de fora. – Meu bem, você viu que a empresa não levou as sobras de tijolos? Tem que ligar lá pra ver quando eles vem buscar. – disse ela lá da janela da cozinha. – Fui eu quem pedi pra deixarem os tijolos. Já pagamos mesmo. Seria um desperdício! – Ah meu benzinho, mas isso vai virar um criadouro de aranhas e ratos. Eu não quero esses tijolos no quintal! – Neste momento ficou claro quem seria o gestor da empresa. Mas como não tá morto quem peleia, tive uma ideia pra não perder os tijolos. – Não se preocupe meu amor. Vou guardar esses tijolos e você nem vai ver eles mais. – Falei cheio de razão! E assim, como a casa estava ainda bagunçada transferi os tijolos pra cima da laje pelo alçapão de acesso que ficava no corredor.

Alguns dias depois começaram as visitas. Sogros, cunhados, amigos e padrinhos do casamento e numa tarde um dos padrinhos chegou trazendo uma caixa. – Vocês dois trabalham o dia todo e esta casa não pode ficar assim sem ninguém. É perigoso. – Abriu a caixa e soltou no pátio um filhote de cachorro Boxer. – Tá pançudo, mas eu já dei desverminante, podem sossegar. Vai cuidar da casa pra vocês!

Em alguns meses aquele pequeno filhote se transformou num cão enorme com muito apetite para devorar ração, fazer buracos no jardim e cocô em todo o pátio. Também não gostava do carteiro, do funcionário da Sanepar e do rapaz da Copel. Mas gostava da vizinha fofoqueira. Parecia até fazer por gosto! A gota d’água foi o dia em que comeu o chinelo da sogra quando ela foi nos visitar. – Dá um jeito neste cachorro! Assim não tem condições – disse completamente tomada pela ira. Verdade! Com sangue nos olhos! – Não se preocupe. Vou fazer um canil com aqueles tijolos que guardei. Viu como foi bom guardar?

Eu já havia descido uns 30 tijolos da laje quando ela chegou furiosa. – Pode parar! Veja a sujeira que está descendo com estes tijolos! Tem até teia de arranha e os cacos vão riscar todo o chão. Interrompi a tarefa, mas já havia decidido que os tijolos iriam descer de alguma forma. Capaz mesmo que eu ia perder os tijolos. Custaram dinheiro. De repente veio aquela ideia maravilhosa! Junto com os tijolos eu havia guardado as tábuas de pinus. Estava ali a solução.

Abri um buraco no telhado retirando algumas dezenas de telhas e por ali retirei as tábuas com as quais construí um caixa e também uma estrutura tipo mão francesa que fixei na tesoura do telhado. Na ponta dessa estrutura que se projetava para fora do quadro da casa, fixei uma roldana. Depois prendi uma corda nas bordas da caixa e passei pela roldana. Foi muito fácil o içamento da caixa até a altura da laje. Depois foi só amarrar a ponta da corda na grade da cerca. Estava pronto o mecanismo que utilizava apenas uma roldana, portanto não reduzia a força necessária, apenas mudava a direção de aplicação da força. O correto seria utilizar polias móveis para produzir redução da força necessária, como veremos logo.

Subi na laje e transferi os tijolos, em torno de 120 unidades, para a caixa. A esposa observava e de vez em quando dizia: – Isso tá perigoso. Acho que vai dar merda! – Sossega! Está tudo sob controle. – Desci, dei uma última olhada para a caixa e soltei a amarra da corda. Me lasquei! A única polia fixa só mudou a direção. Eu teria que aplicar à corda força correspondente ao peso da caixa com os tijolos. Uns 140 kg, mas eu não tinha nenhum apoio e meu peso era 70 kg. A caixa desceu rapidamente e eu subi porque o cachorro curioso parou embaixo. Seu eu soltasse matava o cusco esmagado! Há uns 3 metros de altura mais ou menos encontrei a maldita caixa. O impacto no meu ombro foi muito forte e devo ter fraturado ali a clavícula. A dor era imensa, mas ainda consegui ouvir a vizinha fofoqueira chamando a filha pra ver o vizinho louco! Velha lazarenta! Pois se tornou uma questão de honra. Não largaria aquela corda!

A caixa continuou descendo e eu subindo. Ao chegar lá em cima, batia cabeça na roldana de aço. Isso me custou uma sutura de 14 pontos. Mas não larguei a corda infernal! Só que a caixa, chegando chão, com o impacto soltou o fundo e restou as tabulas laterais presas à corda, talvez uns 10 ou 12 quilogramas, portanto muito menos do que meu peso. A caixa subiu e eu desci. Nos encontramos novamente a uns 3 metros do solo e com a pancada quebrei o braço. Mas não larguei a corda! Cai em cima dos tijolos, alguns quebrados e sofri vários cortes e escoriações. As forças me abandonaram e soltei a corda maldita. Mas as tábuas estavam lá em cima e se deslocaram em queda livre acelerando (desprezando-se o atrito com o ar e com a maldita corda na roldana) a 9,8 m/s2, conforme a lei dos corpos em queda.

Nem sei aonde fui atingido, acho que já estava desmaiado quando as tábuas chegaram ao chão. Acordei no hospital todo engessado, suturado e enfaixado. Olho par ao lado e vejo quem? A esposa? Não! A vizinha fofoqueira, que se oferecera me cuidar enquanto a esposa resolvia umas questões burocráticas no hospital. Ao me ver acordar disse: – O cachorro ficou a assustado e acho que tá com saudade de você porque anda triste. – Enfermeira! Enfermeira! Um remédio pra dormir pelo amor de Deus!

Luís Ferraz
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