Mentes Inquietas

As virtudes

O camelo, o leão e a criança. Estas são as três transformações que o espírito deve passar para que se torne livre e cheio de si.

Mas o que tem a ver uma coisa com a outra? Obviamente Nietzsche não se refere a qualquer tipo de transubstanciação literal, mas sim de um processo de “renascimento” do indivíduo. O autor quer chegar, com isso, em um processo de libertação do homem, que encontra-se enclausurado nas normas, nas morais que não o deixam fresta para a liberdade do espírito.

Ser camelo é ser resistente, e isto é necessário. O camelo é um animal forte, capaz de carregar peso e atravessar o deserto sem a necessidade de auxílio. Entretanto, é ainda subserviente. Entrega-se, dobra os joelhos com facilidade perante àquele que lhe ordena. Não raro é domesticado e feito de cargueiro.

Aí a necessidade de ser leão. É um animal que representa domínio e ferocidade. Ataca qualquer um que atente contra sua liberdade ou que lhe faça quaisquer ameaças. Vedes? Não basta ser manso e, como um monge, aceitar sobre si um martírio. Faz-se necessário reagir, atacar para se ver livre. Ser dono de sua própria liberdade significa, para Nietzsche, renegar regras pedagógicas: seguir estatutos que pretendem universalizar um agir humano, e considerar como desvirtuado aquele que transige a isto. É sabido que a prática pedagógica é falha por este mesmo viés: toda imposição de regras de conduta (atualmente até ditas “inquestionáveis”), nada mais é do que a manifestação de uma força reativa; aquela que enclausura, secciona, amarra toda a criatividade da força criativa. Uniformizam-se as crianças para que não tenham a possibilidade de se diferenciar, de ser quem são.
E a criança? É preciso virar criança para ter novamente a inocência, desconhecer regras, reinventa-se a cada dia no exercício de uma liberdade desconexa com a aceitação de preceitos morais. Ser criança é ser puro: não porque se tem pouca idade, mas porque ainda não se é contaminado com as restrições do mundo.

Na mesma linha de argumentação, busca-se refletir sobre o que somos. Assim, vem à tona a antiga dicotomia entre corpo e alma (mundo sensível e mundo inteligível). O filósofo refuta isto. Para ele, somos apenas corpo e a alma não seria nada mais do que uma palavra que se refere a algo no corpo. “O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor”. (NIETZSCHE, 1891).
Assim, o pensador afere que que pensar o mundo de forma dualista é risível. Vivemos o período de nossa existência e somos tudo o que temos. A razão está no corpo e, enquanto dizemos ser quem somos, este faz de nós o que somos. As potências do corpo encontram-se mais em si do que na vulgar consciência do eu. Logo, aquilo que se passa pelo crivo da consciência (pequena razão) é advido primariamente das relações dos sentidos com o mundo, e daquele emanam os estopins para a consciência do eu.

“Meu irmão, se tens uma virtude, e se essa virtude é tua, então não a tens em comum com ninguém”. Com isto, Nietzsche elucida o porquê das morais não poderem ser aceitas como fatos válidos a todos os viventes.

Saibamos que cada um difere-se por suas relações que têm com o mundo da vida, e é por conta disso que as virtudes de um não são respostas às potencialidades do próximo. A elevação do homem por seu próprio ser, indica que suas virtudes são também elevadas, de modo que resplandecem por conta própria. E pelas virtudes também poderá o indivíduo alcançar sua elevação.

Por Alexandre Stori Douvan. Acadêmico do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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