Histórias de Terra e Céu

As “viúvas” do padre e a prisão de Casemiro Witkowski

Quem atua na igreja sabe que quando chega um padre novo na comunidade, as “viúvas” dos padres antigos se manifestam. Quantas vezes nós já ouvimos “o Padre Caetano é que era bom!”, “Não! O Silvano era melhor”, “Ah, eu preferia o João Ari!” e assim por diante. Mas saibam amigos, que este sentimento de que “o padre anterior era sempre o melhor” é algo que já acontece em São Mateus do Sul há mais de um século. Embarque comigo nesta história!

O primeiro padre fixo de São Mateus do Sul foi Ladislau Smolucha, que chegou em julho de 1893, mas foi preso em dezembro do mesmo ano, por atuar na Revolução Federalista. Depois viria o padre Przytarski em 1895, mas também ficaria menos de um ano, por brigar com professores e com o bispo. Em outubro de 1896 chegaria o padre Stanislaw Fróg, que permaneceria apenas seis meses. A localidade seria atendida pelo capelão da Água Branca, Jakób Wróbel, até 1900, quando chegaria Joséf Fulinski, o padre que construiria a segunda capela.

Mas no dia primeiro de janeiro de 1900, durante a festa de virada de ano na Colônia Cachoeira, os imigrantes começaram a tradicional discussão sobre qual era o melhor padre. Parte dos colonos tinha saudades do padre Fróg, enquanto outros defendiam o padre Wróbel (foto desta coluna). Irrigada pela cachaça, a discussão ficou acalorada. Os argumentos deram lugar aos gritos, que se transformaram em socos e empurrões. João Agustinhak era um dos mais exaltados, e teve que ser imobilizado pois estava esmurrando um defensor do “padre oposto”. A muito custo, a turma da paz conseguiu separar os lutadores. Levaram parte dos brigões para dentro da casa de Casemiro Witkowski, enquanto João Agustinhak permanecia do lado de fora, esbravejando. De repente o burburinho da multidão foi calado por um estampido. Um tiro certeiro, vindo de dentro da casa, acertava João Agustinhak, deixando-o morto no chão.

Quando a população da cidade ficou sabendo que Casemiro Witkowski havia sido preso por assassinato, houve grande agitação. Casemiro era um homem bom, tinha sido um dos primeiros imigrantes a chegar na colônia e trabalhou no preparo da terra para os demais colonos. Sempre andava com seu sobretudo preto, e ajudava amigos e vizinhos. Mas a polícia não quis saber do histórico: o fato da arma usada ser de Casemiro e do tiro ter partido de sua casa foi o suficiente para mandá-lo preso para Curitiba. A chegada do prisioneiro foi assim registrada na capital: “Foi recolhido à cadeia (…) Casemiro Witkowski que segundo consta é autor do assassinato de João Agostinhak, ocorrido na Colônia Cachoeira”. Levou mais de cinco meses para que o verdadeiro assassino fosse descoberto: Mateus Karasiak era o brigão que enfrentou Agostinhak e que, ao ser levado para dentro da casa de Witkowski, usou a arma dele para matar o adversário.

João Agostinhak é o patriarca de boa parte dos Agostinhak e também dos Toporoski de São Mateus (sua filha Sabrina casou com um Toporoski). Morreu com 42 anos por causa de uma disputa sobre “qual era o melhor padre”. Vale lembrarmos disso quando discutirmos sobre nossos times, partidos políticos, religiões e, inclusive, padres de preferência.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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