Chegada dos primeiros 125 km. (Lucas Felipe)

Difícil definir a sensação daquilo que vivemos com tanta intensidade e sobre condições extremas, quem sabe essa foi a tônica do Desafio Pedal de Ferro Etapa Anila.

Tudo começou com um convite da Karina Bruning, atleta de provas Endurance que conheço há muitos anos e que tem experiência e currículo extenso com provas de 50km a 600km.

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Como parte da nossa preparação para Haka 300, que irá ocorrer dia 16 de junho, aceitei o desafio com apenas um objetivo, que era bem claro, ou seja, não desistir em hipótese alguma e finalizar a prova, independente da hora.

A prova iniciou às 2h da manhã do dia 21 de maio, numa madrugada gelada, 4º graus e sensação térmica negativa, mesmo estando na base da prova, mas com clima agradável sob o ponto de vista do desafio.

Com atletas vindos de três estados e vinte sete cidades e uma boa dose de coragem alinhamos para largar, e após dez minutos largamos rumo à cidade de Imbituva, por estradas de chão e uma pequena parte de asfalto, tanto eu quanto a Karina largamos com roupas de frio, mas não as convencionais de bike e sim para frio extremo, mas não passou muito tempo e já sentimos a natureza nos avisando que nossa jornada não seria nada fácil e até um pouco tortuosa.

Karina com o amanhecer. (Luiz Fabiano – Íbex Imagens)

Rodamos cerca de 28 km até o primeiro ponto de controle, onde tínhamos uma régua com vários postos como este e em cada tínhamos que receber dos staffs um adesivo que corresponde ao km de prova, neste como dito era o de 28km, isto é feito para que todos os atletas sejam monitorados e tenham suas passagens registradas, com adesivo e passagem devidamente checados fomos em frente, e poucos quilômetros adiante a natureza veio de forma implacável, nos deixando com dos pês a cabeça, lembro que olhava no horizonte e só via a neblina abaixando e ficando cada vez mais intensa, a ponto de entrarmos nela e sentir deixar de sentir as pontas dos dedos, tanto das mãos quanto dos pés, como estratégia de prova mantemos o nosso ritmo para não sermos cortados, pois tinha um tempo limite para atingir os 125 km de 250 propostos pela organização, nesse ponto a Karina falou que estava com muito frio, mas ambos já sabíamos que seria dessa forma até que o sol viesse e nos dessem um pouco de conforto pelo calor.

Chegamos no PC 02 com os 56 quilômetros de prova, e dela até o final dos 125 eram mais 69 quilômetros, fomos aos poucos ganhando terreno e vencendo as inúmeras subidas, que antes tínhamos certeza de que nos aqueceria, pois em situações como esta o corpo gera mais calor por conta do aumento dos batimentos, mas na prática isso não ajudou em nada, pois a neblina era intensa e impecável, no sentido de acumular umidade, mas como bem disse acima isso estava nos planos e sabíamos que seria assim.

Lembro que rodamos muitos quilômetros e passamos a ver a troca das estrelas pelo alaranjado do céu, isso era próximo das 5h da manhã e eu já tinha dito a Karina antes da largada que o pior estaria por vir assim que o dia ganhasse a noite (Foto 01), pois a umidade passa a subir e criar alguns bolsões de neblina nas áreas mais baixas, que só se dissipa após as 10h da manhã, então tínhamos muito chão pela frente e de forma incrível aquela neblina que já era problema se tornou um tormento, pois essa umidade que ela gera acaba bloqueando qualquer chance das nossas roupas de baixo ficarem secas, então passamos a sentir mais frio, e não era só nas extremidades… Lutamos muito para avançar na prova, e não tínhamos sequer alternativa se não ir adiante, pois em alguns momentos em que resolvemos parar literalmente congelamos, além da retomada que era ruim se tornou muito dolorosa, pois o frio que já era intenso se maximalizava a ponto de voltarmos a não sentir os dedos das mãos e pés.

Depois de quase 9 horas de prova chegamos no checkpoint 125 (Foto 02), que teoricamente era a metade da prova, como tivemos alguns problemas com a alimentação no início isso se refletiu em nossa parada, pois o que era para ser algo rápido demorou um pouco a mais, enfim, nos abastecemos de comida e bebidas para nossa próxima jornada de mais 125 quilômetros.

Saímos do Anila de Fernandes Pinheiro em direção à cidade de Rebouças, determinados e de alma mais aquecida, pois o sol estava forte, nos deixando mais confortáveis e com menos roupas para pedalar, mas que por estratégia levamos em nossa jornada, pois tínhamos mais 125 quilômetros para enfrentar.

Não demorou muito e já tínhamos andado 25 quilômetros, totalizando 150 quilômetros de 250 propostos pela organização, e é nesse ponto que encontramos a maior serra da prova, com um desnível muito forte, que me pensar muito em toda a noite gelada e nos desafios que já havíamos vencido, enquanto eu pensava a Karina seguia forte um pouco a frente, lembro que olhei para trás e vi o horizonte e suas milhares de cores, ali agradeci a Deus pela oportunidade de contemplação e por me permitir estar com saúde para enfrentar esse desafio.

Já passando dos 160 quilômetros notei que estávamos em nossa melhor fase de pedal e que em todas as subidas subíamos forte e nos planos no limite do coração, já nas descidas felizes como nunca, pois para baixo o ditado já diz.

Chegada com 265km de bike. (David Mantoan)

(Arquivo pessoal)

(Arquivo pessoal)

Chegamos no km 195 no final da tarde, ali nos equipamos para enfrentar o frio que mais tarde nos atrapalharia, compramos coca cola e vitamina. Saímos abaixo de fogos de artifício porque estava ocorrendo um casamento, muito boa essa sensação…

Como tínhamos cerca de 55 quilômetros pela frente decidimos manter o ritmo para não congelar novamente como ocorreu na madrugada anterior, vencemos aos poucos cada subida e nos planos mantemos uma boa média, até chegar próximo da cidade de Rebouças, onde iniciaria nossa saga rumo a chegada, que a cada quilômetro para frente parecia estar mais distante que nunca, pois a progressão às vezes é lenta e a cabeça já dá sinais de cansaço, logo o físico passa a também dar alguns sinais de que a jornada está sendo longa e desgastante.

Depois de diversas subidas veio um mar de esperança com nossa detecção de onde estávamos, no caso alcançamos a estrada que liga São Mateus do sul a Irati, cidade que tínhamos como objetivo, andamos muito tempo pelo asfalto até chegar, entramos a direita sentido Irati, ali a fome bateu forte e resolvemos parar para pegar comida na mochila, e aquele chocolate que acabamos escolhendo e parecia um churrasco de tão bom, é engraçado como o corpo reage a coisas básicas ou comuns, no caso do chocolate depois de mais de 200 quilômetros a sensação é inigualável, mágica e transformadora.

Seguimos até chegar a Irati, com a maior vontade de concluir o desafio, mas para nossa preocupação a cabeça já não estava tão determinada, e os quilômetros finais mais pareciam os de início, fomos aos poucos vencendo as subidas e nas descidas embalando até o limite para que o embalo nos levasse para mais perto da subida, o que foi uma boa estratégia, mas que pelo frio que estava era sofrido, rodamos alguns quilômetros a mais e já conseguimos ver o clarão do Anila, que seria nosso destino… Metro após metro e subida após subida fomos retomando o ânimo até chegar na rua onde nos localizamos e sabíamos que não faltavam mais que 500 metros.

Após muitas horas de frio, neblina congelante, ventos árticos e muita determinação, cruzamos a linha de chegada, felizes pelo feito e com sentimento de dever cumprido, sentimos muitas sensações diferentes e pensamentos, mas a maioria sem dúvida é de que o caminho pode ser ruim, difícil, o clima pode ser implacável, mas que com um bom plano se executa algo extraordinário.

Para esta jornada tanto eu quanto a Karina não estávamos nem ficamos sozinhos, pois Deus esteve conosco em todos os melhores momentos e nos piores nos mostrou o caminho, nos ensinando que a vida é essa, que o momento é este e se vivendo se tem o melhor dele.

Agradecimento especial a nossos patrocinadores, Elephant Sports, Amanda Junho, Japa Bike São Mateus do Sul, Pedal de Ferro pelo desafio, e nossas famílias que nos apoiam independente da montanha a ser trilhada, sem vocês estes mais de 250 quilômetros de bike não seriam possíveis.

Bora que nosso próximo desafio é dia 16 de junho, na HaKa Expedition 300km, com as modalidades bike, trekking, canoagem e navegação com carta cartográfica e bússola.

Por Luiz Fabiano Pinheiro (fotógrafo e atleta)

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