Alana e Bisteca, o cãozinho resgatado. (Fotos: Alana Pietrala Chincoviaki/Gazeta Informativa)

Nesses tempos duros em que estamos vivendo, é um alento saber que um triste acontecimento com um cãozinho despertou o que existe de melhor nas pessoas.

Bisteca era mais um dos muitos cães de rua que existem por São Mateus do Sul e no domingo, dia 14 de março, começou a protagonizar uma bela história, que nem ele sabia. Alana Pietrala Chincoviaki (colaboradora do jornal Gazeta Informativa), que sempre que possível trabalha em prol dos animais, principalmente aqueles em situação de rua, seja procurando um lar para eles ou realizando resgates, teve sua história cruzada com a do cãozinho.

Fazia duas semanas que o animal perambulava pela Vila Buaski após ser abandonado e ele já havia sido notado por ela, que tentava conseguir um lar temporário até encontrar um definitivo. “A rua é um local muito perigoso para se deixar os animais, eles podem ser atacados, podem ser envenenados ou até mesmo causar acidentes”, comentou ela. Alana já tinha colocado algumas fotos em sua rede social, na esperança de que alguém pudesse cuidar do – então nomeado – Bisteca até que fosse, finalmente, doado.

Momentos logo após o acidente.

Foto antes do acidente, usada no pedido de lar temporário.

Domingo tinha tudo para ser um dia tranquilo e de descanso, pois ela já havia publicado o pedido de lar temporário em suas redes sociais e neste momento aguardava ajuda. Era final de tarde, todos em casa, até que ouviram um som alto de carro acelerando, houve o barulho da batida seguido de gritos fortes e latidos de dor. Ao olhar pela janela, foi possível identificar um Siena azul escuro dobrando a esquina e fugindo do local.

Ao correr para fora, foi possível ver o Bisteca estendido na rua. Pensando no pior, Alana foi até o animal que, num pulo, se levantou assustado, demonstrando um estado de choque enquanto seus olhos sangravam. Ele começou a tossir sangue e, a partir desse momento, o susto de Alana foi enorme, pois nunca havia visto aquilo em nenhum resgate realizado. Sendo assim, ela imaginou lesões graves nos órgãos internos.

Alana comentou que, no dia seguinte, fez um comentário no espaço do Livre, do Lucas, na Rádio Difusora do Xisto e comentou o ocorrido. A partir disso, várias pessoas entraram em contato relatando que o mesmo carro, Siena azul escuro, estava aparentemente apostando uma corrida com outros carros e que quase provocou um acidente com outro veículo, momentos antes de atropelar o Bisteca e fugir. Infelizmente, a placa não foi identificada.

Bisteca internado.

Na tentativa de fazer uma maca com um cobertor e levar o cão até sua casa, Alana acabou o assustando, o que fez com que ele finalmente se levantasse – agora para fugir.

Com ajuda de amigos, conseguiu localizar o Bisteca e ele foi levado ao plantão veterinário em pleno domingo, onde foi atendido pela veterinária Valcieli Orlowski, da Clinipet, a qual deu atendimento primário e o deixou em observação. Na terça-feira, ele foi encaminhado para a Clínica Animalia, onde faria uma radiografia para avaliar possíveis fraturas. Como estava muito debilitado, esperaram estabilizar seu quadro de saúde para que pudesse realizar os procedimentos.

Começando a se alimentar e beber água sozinho, além de outros sintomas que foram amenizados, este era sinal de melhora. O exame radiográfico apontou uma fratura na altura da bacia, por isso ele não apoiava a pata no chão e sentia dor. A indicação era a realização de uma cirurgia. O custo desta, com um desconto por se tratar de um animal de rua, ainda ficaria em R$ 1.500,00, muito acima do orçamento que Alana nem tinha. Além deste valor, tinha mais a radiografia, internamento e atendimento em plantão. O valor total foi de R$ 2.085,00. Segundo ela, era um valor que nunca tinha ocorrido em seus socorros, mas uma amiga veterinária confirmou a necessidade, explicando que se calcificasse o osso assim, o animal teria muitas dores e uma cirurgia no futuro seria mais dolorosa e custosa.

Alana autorizou a cirurgia, mas, explicando e provando que se tratava de um animal de rua, conseguiu alguns descontos. Sua maior preocupação nesse quesito era a de que o valor da conta ainda assim era maior que seu ganho mensal. Pensou na realização de uma campanha para arrecadar o dinheiro, imaginando que levaria três ou quatro meses para conseguir arrecadar a quantia. Como é conhecida pelas clínicas e veterinários aqui de São Mateus do Sul nesse trabalho voluntário de resgate, tem maior flexibilidade quanto as datas de pagamento. Mesmo dessa forma, a preocupação quanto ao valor era grande, assim como a necessidade de cirurgia para o Bisteca.

Bisteca se recuperando após a cirurgia.

Incentivada pela amiga, Marina Siben, também envolvida na causa animal, Alana criou um perfil no Instagram para divulgar a história do Bisteca e conseguir ajuda para custear o atendimento e a cirurgia. Mais do que apoio e incentivo, Marina ajudou fazendo um vídeo com as fotos do cãozinho, o qual divulgou em seu perfil pessoal. Dessa forma, começa a arrecadação para o animal, no dia 18.

Segundo Alana, iniciada a campanha que ela imaginava durar – ao menos – três meses, seu celular começou a receber diversas notificações do banco, anunciando transferências destinadas ao caso do Bisteca. As doações iam de valores mais baixos, como 1 real, chegando aos mais altos, como 200 reais. Era muita gente ajudando e, em apenas 37 horas, o valor total foi alcançado e a campanha encerrada, sendo a mais rápida já vista na região, se tratando de animais. A maior parte da ajuda veio de moradores de São Mateus do Sul, mas tiveram de outras cidades e estados também.

A cirurgia foi um sucesso. Ao mesmo tempo, Alana agradeceu e contou um pouco dessa história no perfil do cão, mostrando que, ao mesmo tempo que temos criaturas que arriscam a vida dos outros, que conseguem atropelar um animal e fugir sem dar assistência, também tem muita gente com um coração de ouro, capaz de ajudar essa bela campanha em prol de um animal indefeso.

Alana, emocionada, agradece a cada real doado e a cada um que, mesmo não podendo ajudar financeiramente, ajudou na divulgação. Foram quase 19 mil visualizações no vídeo e 76 doadores. Para um final feliz completo, o Bisteca conquistou seu lar definitivo, onde a sua nova dona já comprou caminha, ração, sachês, biscoitos, shampoos e tudo que o Bisteca – em situação de rua – jamais imaginou ter. Agora, com muito carinho, ele se estabelece em uma nova família, enchendo a casa e a vida de todos com sua alegria contagiante.

Serviço

Arrecadado: R$ 2.158,73.
Cirurgia: R$ 1.500,00.
Atendimentos + radiografia: R$ 585,00.
Remédios: R$ 73,73.
A Animalia não cobrou R$ 550,00 referente as diárias.
A Clinipet ofereceu desconto no valor do atendimento.

Alana, o que te motiva nesse trabalho de resgate de animais?

Sendo bem sincera, eu não sei…

Desde pequena sempre tive um apego muito grande com os animais, lembro de um dia que jogaram uma mochila com 2 filhotes de cachorro dentro de um carro abandonado ao lado da minha casa. Eu comecei a correr atrás de ajuda para eles e daí eu me envolvi com a ONG 4 Patas, da qual fiz parte por 3 anos. Hoje não faço mais parte. Nesse ponto, é importante falar que a ONG nunca fez resgates, apenas castra e doa os animais. Eu resgatava por fora, sozinha ou com amigos. E assim foi indo.

Confira e acompanhe o Instagram do Bisteca.

Desde o primeiro resgate eu me senti muito conectada aos animais em geral. Acredito que não consigo ver ele sofrendo e “seguir em frente” ou repassar para outra pessoa a responsabilidade, como muitos fazem. Infelizmente há muita gente ruim no mundo, as que abandonam ou machucam os animais. E também há aquelas pessoas passivas que veem a situação e não fazem nada. Eu, sinceramente, não quero fazer parte de nenhum desses grupos. Ajudo da maneira que posso, nem sempre é o suficiente, mas me esforço bastante.

Cada animal que passa pela minha vida me traz um aprendizado maior, tanto sobre o mundo, quanto sobre as pessoas e até mesmo sobre mim. Eu vejo que isso me ajuda muito a evoluir. E eu realmente não consigo “parar”, mesmo não tendo apoio de todos. Sigo em frente.

Hugo Lopes Júnior
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