(Foto de São Mateus antiga do acervo de Nelson Chaves)

A disposição que adolescentes e jovens têm para buscar diversão é mais uma prova da má distribuição da energia ao longo da vida. Mesmo entre aqueles que cuidam muito bem da saúde, a idade tira o ânimo para algumas aventuras que na juventude eram prática constante. Hoje falaremos disso.

Com todo respeito aos que ficam longe desses ambientes pelas mais diversas razões, mas uma cerveja, um jogo de sinuca e jogar conversa fora são atividades muito prazerosas! E foi pensando nisso que me veio à memória os “botecos de samas”. Me refiro aos antigos. Os atuais eu não conheço, mas sei que estão lá, aguardando o arrefecimento da pandemia para dar espaço à boemia.

Essa forma de interação social, o boteco, é muito antiga, milenar. Vou deixar a informação de qual foi o primeiro bar de São Mateus do Sul para as discussões que possam surgir com essa leitura. Na Inglaterra, oficialmente o mais antigo “boteco” é do ano 905. Isso mesmo! A boemia é milenar no velho mundo!

Em “samas” o “Bar do Vadico” é muito antigo, mas neste, as atividades se encerravam ao anoitecer e portanto não se classificava como boêmio. No entanto, precisa sempre ser mencionado por sua importância histórica. E do Bar do Dori, quem lembra? Ponto de partida e retorno do ônibus que levava o pessoal pro Bailão do Alberto. Ali passei muitas madrugadas gastas em filosofia de boteco. Havia música ao vivo em algumas ocasiões e numa delas aconteceu algo diferente:

Havia um guitarrista se apresentando no pequeno palco, já perto da calçada. Música ao vivo é sempre uma excelente atração para venda de bebidas e lanches e neste dia o bar estava lotado. O músico fez uma pausa para se alimentar e então anunciaram que havia uma dupla inscrita pra “dar uma canja” enquanto a atração oficial não voltava ao palco. Anunciaram a dupla mas apenas um rapaz subiu ao palco. Os clientes começaram a gritar em suas mesas: “Não era uma dupla?”, “cadê o outro?”…, mas o rapaz estava sozinho mesmo. Começou a cantar e quando todos já haviam esquecido o anúncio da dupla ele enfiou a mão no bolso do casaco e tirou de lá um sapo, desses enormes! “Está aqui o meu companheiro! Vamos cantar pra vocês!”, dizia enquanto esfregava o sapo no microfone. O cantor oficial, que fazia seu lanche ali perto ficou muito bravo com aquilo e até ameaçou abandonar o local, mas a estranha dupla já havia conquistado a plateia. Só restava rir também!

Bar do Tiãozinho, Bar do Nortenho, Bar do Risque, Bar do Bino, Bar do Mendigo, Bar do Tonicão. Eram muitos! Em um na Rua Evaldo Gaensly, em 1988, houve um fato que merece relato. Era um sábado chuvoso e se reuniram ali alguns jovens, aguardando horário do “Bailão do Seu Belmiro” no CTG. A mesa de sinuca era torta, mas a cerveja estava sempre bem gelada e dava pra fazer o “esquenta” pro bailão ali. Entre os frequentadores desse dia, um rapaz se destacava. Falava alto, contando aos amigos as tristezas causadas pelo pé-na-bunda que recebera da namorada. Falou em morrer, em matar e por último em se drogar. Tinha que dar um fim naquela dor imensa e procurava “tóchico”.

Um dos fregueses ali presentes se aproximou e perguntou o que ele queria. “Droga, cocaína, qualquer coisa”, respondeu o embriagado. O homem então foi até o banheiro e minutos depois voltou com um pequeno espelho, onde havia uma carreira de um pó branco. “Tem certeza que quer isso rapaz? É forte! – “Claro, só me explica como faço”, respondeu o sofredor. “Tampe uma das narinas com um dedo e com a outra você aspira tudo de uma vez. Nunca viu isso em filmes? Mas faça logo porque pode aparecer a polícia aqui”. Nesse momento todos ali estavam assustados. Como assim oferecer cocaína para alguém daquele jeito, em público, isso era crime e se a polícia chegasse todos estavam enrolados. Mas enquanto pensavam no que fazer, o jovem pegou o espelho e, decidido, aspirou toda a carreira daquele pó branco.

O efeito demorou talvez dois segundos para aparecer. Espuma saindo pelo nariz, tosse, espirros e por último choro. O candidato à noiado havia aspirado uma carreira inteira de… Sonrisal! Meia hora depois o “drogadão” chegou em casa, ainda espirrando, o baile estava cancelado!

Luís Ferraz
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