Reflexão com Padre Marcelo S. de Lara

Brasileiro contribui no Novo Documento do Papa

Amigo(a) Leitor(a), o Papa Francisco escreveu um novo documento, chamado Laudato Sí’ (Louvado Seja). O Documento traz uma reflexão ampla sobre a ecologia, e contou com informações de vários peritos nos assunto, dentre eles um brasileiro.

O teólogo e ecólogo Leonardo Boff, foi uma das vozes que ajudaram a montar a encíclica do Papa Francisco dedicada ao meio ambiente, divulgada dia 18 de junho. Em entrevista por e-mail, ao Jornal do Brasil (JB), ele falou sobre como seus textos e contribuições chegaram até Bergoglio, “uma das maiores lideranças mundiais, seja no campo religioso, seja no campo político”, afirma Leonardo. Comentou ainda sobre a forma como o papa tem lidado com questões delicadas e também sobre as respostas de potências mundiais às ameaças a “nossa única casa comum” […]. Para Boff, “o escândalo da pobreza mundial num mundo de altíssimo consumo, a devastação dos ecossistemas e as ameaças que pesam sobre a casa comum, descuidada e maltratada” preocupam constantemente o Papa.

Dizia Leonardo: Se me perguntarem: você ajudou o Papa a escrever a encíclica? Devo dizer: não. Apenas ofereci tijolos com os quais, se ele quisesse, poderia construir alguma coisa. Nunca tive um encontro pessoal com o Papa Francisco, somente indireto. Primeiramente através de uma amiga comum, Clélia Luro, para a qual ele telefonava de Roma todos os domingos por volta das 10h.

Através dela ele me enviava os recados e me fazia as solicitações de textos. Primeiro, me pediu um texto que o ex-Presidente da Assembleia da ONU (gestão 2008-2009), Miguel d’Escoto, e eu havíamos elaborado para ser o marco teórico da nova ONU que está sendo excogitada: “Declaración Universal del Bien Común de la Madre Tierra y de la Humanidad”. O texto é urdido dentro do novo paradigma segundo o qual todas as coisas são interconectadas, formando um incomensurável sistema em evolução. Neste texto usávamos muito o termo “casa comum” para referir-nos à Terra.

Depois, quando o Papa esteve no Brasil novamente, por intermédio de Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales-SP, mandei entregar o livro que havia escrito em função de sua vinda ao Brasil: “Francisco de Assis – Francisco de Roma: uma nova primavera para Igreja” (Editora Mar de Ideias, Rio). Além disso, pedi para entregar em espanhol “Francisco de Assis: ternura e vigor” (Vozes), no qual abordava largamente a questão ecológica, pois ele o havia solicitado pela Clélia Luro. Junto mandei em espanhol a “Carta da Terra”, com recomendações minhas para que a utilizasse, pois me parecia o mais importante documento sobre ecologia no início do século XXI, fruto de uma vasta consulta de mais de duzentas mil pessoas de todas as orientações, sob a direção de Michail Gorbachev; eu havia participado da redação e havia conseguido incluir o tema do cuidado, “o laço de parentesco com toda a vida” e a espiritualidade.

É a primeira vez que um Papa aborda de forma tão completa o tema da ecologia no sentido de uma ecologia integral, indo além da ambiental. A grande surpresa é que ele elabora o tema dentro do novo paradigma ecológico, coisa que nenhum documento oficial da ONU até hoje fez. Fundamental é seu discurso com os dados mais seguros das ciências da vida e da Terra. Lê os dados afetivamente (com a inteligência sensível ou cordial), pois discerne que por detrás deles se escondem dramas humanos e muito sofrimento também por parte da mãe Terra. A situação atual é grave, mas o Papa Francisco sempre encontra razões para a esperança e para a confiança de que o ser humano pode encontrar soluções viáveis. […] algo absolutamente novo: seu texto se inscreve dentro da colegialidade, pois valoriza as contribuições de dezenas de conferências episcopais do mundo inteiro que vão dos USA, da Alemanha, do Brasil, da Patagonia-Camauhe até do Paraguai e acolhe as contribuições de outros pensadores.

[…] os destinatários são todos os seres humanos, pois todos são habitantes da mesma casa comum (palavra muito usada pelo Papa) e padecem das mesmas ameaças. […] Na Encíclica, Francisco, revela sua fonte de inspiração maior: São Francisco de Assis, chamado por ele de “exemplo por excelência de cuidado e de uma ecologia integral e que mostrou uma atenção especial aos pobres e abandonados” (n.10; 66) […].

O espírito terno e fraterno de São Francisco de Assis perpassa todo o texto da encíclica Laudato Sí’. A situação atual não significa uma tragédia anunciada, mas um desafio para cuidarmos da casa comum e uns dos outros. Há no texto leveza, poesia e alegria no Espírito e inabalável esperança de que se grande é a ameaça, maior ainda é a oportunidade de solução de nossos problemas ecológicos […].

Com tristeza reconhece: “nunca temos ofendido nossa casa comum como nos últimos dois séculos” (n.53). Face a esta ofensiva humana contra a mãe Terra que muitos cientistas denunciaram como a inauguração de uma nova era geológica – o antropoceno – lamenta a debilidade dos poderes deste mundo que, iludidos, “pensam que tudo pode continuar como está” como álibi para “manter seus hábitos autodestrutivos” (n.59) com “um comportamento que parece suicida” (n.55).

Fonte: Blog Leonardo.BOFF.com  https://leonardoboff.wordpress.com/2015/05/page/5/

Últimos posts por Pe. Marcelo S. de Lara (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
As Minorias na Mídia
Inspirados por “Franciscos”
A Minha Paz, não é a do mundo