Bidú, nosso cachorro, já é um idoso se considerarmos as escalas caninas. Mas ainda assim mantém hábitos que lhe fazem passar por um cachorro jovem. Mesmo que tenha passeado, que tenha acabado de comer e aparente preguiça, se deixar o portão aberto por poucos segundos ele sai correndo na rua enlouquecido. Provoca todos os cães da vizinhança e se eu chamar ele se manda lá pra outra quadra. Depois de algum tempo cansa e se deita na primeira sombra que achar na rua. Pra voltar pra casa vem se arrastando, parece que vai morrer de fraqueza. Alguns humanos são exatamente assim. Fácil sair de casa, quase impossível voltar. Na adolescência isso é quase uma regra.

Augusto, quinze anos incompletos, experimentava a desejada liberdade de sair de casa sozinho e à noite pela primeira vez. Havia cumprido com muita disciplina as diversas atividades propostas pelo pai como condição para que pudesse sair naquela sexta-feira do carnaval de 1985. Até banho no cachorro ele deu!

Em frente à Rádio Difusora, na época com sede em frente aos correios, na esquina da rua Barão do Rio Branco e 21 de setembro, as festividades do carnaval começaram cedo. Às 16 horas já haviam isolado a quadra e sambinhas tradicionais eram tocados continuamente e nas primeiras horas depois do anoitecer já havia grande aglomeração de pessoas que disputavam os melhores lugares nas escadarias da prefeitura para observar os foliões. Tudo se resumia a pular em círculo. Não havia desfile de blocos nem grandes fantasias. Nesse quesito, o ponto quente era quando apareciam ali os membros dos blocos que aqueciam para a noitada no Clube Ideal São-mateuense, o mais lembrado é o “Manchas” e se não me engano também tinha um “Turma do funil”. Augusto chegou cedo e buscou local alto, próximo à entrada da prefeitura. Com 1,65m, não veria nada se ficasse no nível da rua.

A noite era quente e Augusto chegou a pensar em aceitar um gole de cerveja oferecido por um amigo que encontrara ali, mas havia prometido chegar sóbrio em casa, sob pena de encerrar a festa do carnaval se não cumprisse o trato e assim estava fazendo. De repente, uma confusão próxima aos correios! Muita correria e empurrões. Ele avistou quando alguém que julgava ser da polícia civil trazia quase pendurado pelo braço um rapaz. Haviam depredado um prédio nas vizinhanças e aquele era um suspeito de ter cometido o delito. O homem que o segurava, olhava para cima das pessoas, talvez procurando um segundo meliante. Augusto ainda pensou no pai que o alertara para não se envolver em confusão se não a coisa ficaria feia para o lado dele em casa. “Que bom que estou longe disso, pensou”, mas como se o seu pensamento atraísse a atenção, o tal policial olhou para Augusto, apontou e gritou para outro homem: “Aquele ali, pode trazer”. Augusto ficou muito assustado. Tinha absoluta certeza de que não tinha nada a ver com o que quer que fosse o rolo, mas como provaria?

A perseguição foi intensa. Muitas pessoas derrubadas pelo caminho, pernas cortadas nos espinhos de um pé de coroa-de-cristo da praça e outros machucados que nem soube dizer onde fez. Quase foi alcançado quando na rua D. Pedro II encontrou grande número de foliões e alguns tentaram pará-lo. Desvencilhou com um chute na canela do cidadão e seguiu a fuga. Já estava pensando que passaria a noite na cadeia, mesmo sem saber porquê, mas instintivamente seguiu pela D. Pedro II em direção à Cuia. Essa estratégia deu certo. Perseguir um piá correndo ladeira acima acabou com pernas e pulmões do perseguidor antes que chegassem na esquina da rua Eduardo Sprada. Augusto ouviu quando o homem que o perseguia soltou um gemido. Olhou para trás e viu seu perseguidor agachado com a mão no peito e com dificuldade de respirar.

Foram momentos difíceis. Augusto precisava decidir o que fazer. Seguiria fugindo ou voltava ver o que acontecia com o homem. E se ele morresse? A boa índole do rapaz prevaleceu e ele voltou. Foi se chegando lentamente sem dizer nada num conflito entre o medo de ser pego e a culpa de ter sido a causa do mal que o homem sentia. “o senhor está melhor? Me desculpe, não queria causar isso”. O homem, supostamente um policial ou alguém contratado como segurança, só fez um sinal espalmando a mão. Augusto entendeu que aquilo significava que ele não conseguia falar. Mais algumas respiradas profundas e o homem soltou as primeiras palavras: “Piá do demônio, você quase me mata”. – “Me desculpe, mas quando vi apontarem pra mim, só pensei em correr, sem nem saber por quê”, disse Augusto.

O homem, ao perceber que Augusto, se fosse um meliante, jamais voltaria para socorrê-lo, começou a perceber o erro. “Piá, você jura que não tem nada a ver com as vidraças quebradas?” – “Senhor, se eu quebrar a vidraça de alguém, não sei o que meu pai faz comigo, mas acho que me quebra as pernas”. Eu só corri justamente de medo que ele tivesse que me buscar numa delegacia pois jurei que não me envolveria em confusão. É a primeira vez que saio de casa sozinho. “Rapaz! Desapareça da minha frente e nunca mais corra desse jeito. E se eu te desse um tiro nas pernas?” – Augusto arregalou os olhos. Percebeu a grande bobagem que acabou de fazer. O homem, já respirando bem acenou para que ele fosse e assim ele o fez, descendo até a rua Ten. Max Wolf e virando em sentido à igreja matriz.

Sentou nas escadarias da Igreja Matriz, deu olhada para o Cristo dourado e pensou “Senhor, que cagaço!”. Ficou ali remoendo tudo. O coração insistia em bater em alta frequência e demorou para acalmar. Nem viu passar as horas e só percebeu que havia acabado o carnaval de rua daquela noite quando a música parou e alguém falou ao microfone. “Amanhã tem mais pessoal”. “Uma ova. Não saio de casa amanhã nem que me paguem. Odeio carnaval!

Augusto chegou em casa 40 minutos além do horário combinado com seu pai. Teve que se esforçar pra não demonstrar a dor que sentia na canela cortada pelos espinhos. “Piá, não era essa a hora combinada. Onde você estava até agora? “Eu estava na frente da Igreja meu pai, mas acho que você não vai acreditar nisso né?” O pai obviamente não entendeu nada e ficou ainda mais surpreso quando, na noite de sábado, durante a missa, olhou no fundo da igreja e viu Augusto atento ao sermão do padre. “Vá entender essa juventude. Ontem apreciei um cachorro amarrado. Só queria rua. Hoje até na missa veio!”

Luís Ferraz
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